13/4/21
 
 
Afonso de Melo 24/02/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

O tédio dos percevejos

Enquanto comparamos confinamentos, agora que estamos quase a cumprir um ano sobre o início do primeiro, percebemos que o tédio nos tem assassinado por dentro pela mera habituação, e as piores mortes são aquelas provocadas pelas toxinas mais insignificantes. 

Quantos amigos perderemos ao longo da tortura aflitiva desta solidão imposta, obrigatória, assinada por decreto? Uma pergunta à qual não sou capaz de responder. O cansaço da resistência mata a vontade. Enquanto comparamos confinamentos, agora que estamos quase a cumprir um ano sobre o início do primeiro, percebemos que o tédio nos tem assassinado por dentro pela mera habituação, e as piores mortes são aquelas provocadas pelas toxinas mais insignificantes. “Dos tubarões fugi eu/ Os tigres matei-os eu/ Devorado fui eu/ Pelos percevejos”, escreveu Bertolt Brecht. Pondo de parte os amigos que partiram para sempre e ficam à nossa espera nesse prado verde pintado de miosótis que se chama nostalgia, outros há que desapareceram no silêncio. O telefone não toca. O mail não anuncia nova mensagem. Caímos na letargia de ganharmos o hábito de pensarmos neles como seres distantes que deixámos simplesmente de encontrar com frequência. Tenho falta de muitos deles, mas falta mesmo, daquela que dói por dentro aquela dor mansa, quase vegetal, de Alexandre O’Neill, mas vou até ao fundo de mim próprio sem encontrar palavras para lhes dizer. A camaradagem ergue-se sobre as traves-mestras do convívio. Às vezes, nem sequer é preciso dizer nada para se dizer qualquer coisa. Outras vezes, um silêncio chega e reforça a amizade como uma injeção de ternura em duas pessoas que pensam da mesma forma sem ser preciso explicá-lo com frases substantivas. Já nem o silêncio podemos repartir com os amigos ao lado dos quais nos mantínhamos simplesmente calados nesse entendimento íntimo no qual as palavras não cabem. Passaram-se as horas, os dias, as semanas, os meses. Passou-se um ano. Que é feito daqueles que nunca mais vi, aqueles camaradas de encontrar na rua, no café, camaradas do dia-a-dia e da repartição mútua de existir apenas, sem metafísica? Cada vez se quebram mais facas nos corações endurecidos.

 


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×