13/4/21
 
 
Venezia. O abjeto orgulho de ter Fascista como nome do meio

Venezia. O abjeto orgulho de ter Fascista como nome do meio

Afonso de Melo 23/02/2021 18:50

Para bajular Mussolini, os seus dirigentes decidiram mudar de nome. Contrataram o grande Mazzola e venceram a Taça de Itália em 1941.

Hoje chama-se Venezia Football Club Società Sportiva Dilettantistica, joga na Série B do calcio, mas desde a sua fundação mudou mais vezes de nome do que um homem muda de camisa. No início da sua vida, em 1907, era o Venezia Football Club. Depois passou a Associazione Calcio Venezia, que sempre era mais italiano. Pelo caminho foi Società Sportiva Calcio Venezia, Foot Ball Club Unione Venezia e, tristemente, num ato miserável de submissão a Mussolini, de 1936 a 1944 usou orgulhosamente a denominação de Associazione Fascista Calcio Venezia.

Muita gente de espinha direita ter-se-ia recusado a jogar por um clube que se assumia como representante de tal idealogia. A verdade é que o Fascista Venezia chegou a ter jogadores de inequívoca categoria logo à nascença, quando competia na Série B. Comandados por um checo de nome József Bánás, todos no clube estavam convencidos de que essa bajulação ao regime que fazia com que ostentassem o emblema fascista nas suas camisolas verde-escuras, como as da Legião, iria, mais tarde ou mais cedo, dar os seus frutos. Se, no primeiro campeonato que disputou com esse nome, o Venezia não passou de um bisonho 12.o lugar, na época de 1937-38, desta vez já orientado por um técnico húngaro, Károly Csapkay, ficou-se pelo oitavo. Havia melhorias notórias na equipa, foram chegando elementos importantes, como foram os casos de Luciano Bottazzi, Mario Formenton, Giovanni Vecchina, Guglielmo Sgardi ou Andrea Signoretto. O team reforçava-se. Na época seguinte, os fascistas atingiram o segundo lugar e garantiram a promoção à Série A. Num país tão intimamente fascista, estava no lugar que lhe competia.

 

Ambições

Os dirigentes do Venezia não cabiam em si de contentes, mas tinham ambições gigantescas. De 15 em 15 dias, o Campo Comunale Pier Luigi Penzo enchia-se como um ovo para apoiar os fascistas, e não faltava, claro, a saudação olímpica dos antigos romanos que Benito, Il Buffone, transformou no gesto infeto utilizado pelos seus camisas-negras, logo imitados pelas organizações militares e paramilitares nazis. Mais jogadores iam surgindo: Balilla Lombardi, Ildo Pondrano, Sandro Puppo, Manlio Bacigalupo, guarda-redes, irmão de Valerio Bacigalupo, o keeper do Grande Torino que desapareceu na tragédia de Superga, quando regressava a casa vindo de Lisboa e da festa de despedida de Francisco Ferreira. Mas, sobre todos eles, Valentino Mazzola, um dos maiores do futebol italiano de sempre, transferido dois anos mais tarde para o Torino, onde também ele se encontrou cara a cara com a morte na amaldiçoada montanha de Superga.

Foi com Mazzola que os fascistas de Veneza obtiveram o seu grande triunfo. Na época de 1940-41, a despeito de um campeonato medíocre (12.o posto), conquistaram a Taça de Itália. Com Mazzola e com o companheiro de ataque deste, Ezio Loik, um tipo tão poderoso nas áreas contrárias que os adeptos o alcunharam de Elefante. Também ele seguiria Mazzola para Turim e para a morte. Mas, no dia 15 de junho de 1941, Loik pôs definitivamente os fascistas no mapa do calcio. Em Veneza, após o empate em Roma na primeira mão, por 3-3, apontou, aos 72 minutos, o golo decisivo. A festa prolongou-se pela noite na Praça de São Marcos e muitos foram os que mergulharam, por descuido ou por vontade própria, nos canais da cidade. No ano que se seguiu foram terceiros no campeonato e, duas épocas depois, voltaram à final da Taça de Itália, já decidida apenas num jogo, perdendo para o Torino (0-3), que já tinha Mazzola do seu lado.

Em 1944, o futebol em Itália tornara-se uma palhaçada. A República Social Italiana, um Estado fantoche da Alemanha nazi, não conseguiu organizar uma competição verdadeiramente nacional. Jogaram-se sete competições regionais que acabariam por fornecer três finalistas, Venezia, Torino FIAT e VVFF Spezia. O Spezia, que não passava de um pelotão militar, saiu vencedor, mas foram precisos mais de 30 anos para lhe reconhecerem o título. O povo italiano tinha mais com que se preocupar e nem pachorra havia para perceber as manigâncias de tal organização. Do nome do clube cairia, em breve, o Fascista; e, com isso, deu-se a queda para a Série B. Os tempos tinham mudado irreversivelmente.

Ler Mais


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×