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Daft Punk. 28 anos depois, a dupla retro-futurista chega ao fim

Daft Punk. 28 anos depois, a dupla retro-futurista chega ao fim

AFP Sara Porto * 23/02/2021 16:01

Tornaram-se amigos na escola em Paris e a sintonia levou- -os a tentarem juntos uma carreira na música eletrónica. Ao fim de 28 anos, depois de conquistarem as pistas de dança em todo o mundo como Daft Punk, Guy-Manuel Homem- -Cristo e Thomas Bangalter seguem rumos diferentes.

Os menos atentos talvez os conheçam pelos capacetes de robô, mas quem realmente vive a música eletrónica possui os seus álbuns nas playlists pessoais. Ao fim de 28 anos, o mundo assiste ao fim da dupla retro-futurista que durante muito tempo fez respirar a música.

Durante todos estes anos o duo alcançou um patamar altíssimo que o elevou a maior influência da indústria fonográfica atual. Os dois amigos, músicos, desde cedo se mostraram singulares ora pelas misturas de estilos, ora pela maneira revolucionária de olhar a música, ora pela estética futurista, ou até mesmo pela simbiose perfeita entre a aclamação e o anonimato. Guy-Manuel de Homem-Cristo e Thomas Bangalter são duas lendas vivas que nos deixam aquele que pode vir a ser o maior legado da música eletrónica.

Nascidos em França, Thomas Bangalter e Guillaume E. de Homem-Cristo (descendente de portugueses, bisneto do escritor Homem Cristo Filho) tiveram o primeiro contacto com a música desde cedo. No caso de Thomas, a principal influência veio do pai, Daniel Vangarde, famoso produtor e compositor francês; já Homem-Cristo, apesar de não ter antecedentes familiares com ligação à música, recebeu em pequeno uma guitarra e, a partir daí, desenvolveu aquela que viria a ser a sua grande paixão.

A amizade entre Bangalter e Homem-Cristo começou na escola, em Paris, e não demorou muito até que se tornassem inseparáveis. Apaixonados por músicas e filmes das décadas de 60 e 70, a sintonia fez nascer o desejo de entrarem, juntos, no mercado musical.

Foi através do baterista Laurent Brancowits que isso se tornou possível. Desta união a três resultou a Darlin, uma banda que, apesar das influências de Beach Boys e Rolling Stones, logo mostrou a apetência pela eletrónica. Bangalter tocava baixo, Homem-Cristo era o responsável pela guitarra e Brancowits encarregava-se da bateria. Lançaram algumas músicas, atuaram no Reino Unido, mas o declínio chegou ao fim de pouco mais de seis meses.

Nem o insucesso nem os comentários depreciativos da imprensa – nomeadamente da revista britânica Melody Maker, que lhes chamou “um bando de punks tontos” (em inglês, “daft punk”) – os demoveram. Decididos a persistir, apropriaram-se desse comentário e fizeram dele o nome do seu projeto musical – Daft Punk.

Com inspiração nas bandas de synthpop como os Depeche Mode e New Order, o sintetizador seria o seu instrumento de eleição, recorrendo também às então ainda pouco usadas drum machines (máquinas de ritmo).

Em 1993, numa festa na EuroDisney, a dupla conheceu o produtor Stuart McMillan, grande nome na música eletrónica. A dupla entregou-lhe uma fita demo com o conteúdo que seria a base do primeiro single de Daft Punk, “The New Wave”. A faixa teve lançamento limitado em 1994. No ano seguinte a dupla retornou aos estúdios para gravar “Da Funk”, o segundo single e o seu primeiro sucesso comercial.

O passo que faltava para a popularidade à escala planetária deu-se com a parceria com os The Chemical Brothers, que utilizaram as músicas dos Daft Punk nos seus espetáculos.

Uma armadura contra a timidez A vestimenta robótica usada por Bangalter e Homem-Cristo foi, desde sempre, a sua principal imagem de marca, mas poucos sabem que a ideia resultou da timidez dos músicos. A dupla começou por manter o anonimato, de modo a poder preservar a sua identidade.

Foi em 1997, que Daft Punk lançou o seu primeiro álbum, Homework. Uma união de elementos dos mais variados gêneros musicais, um conceito do “french house”.

Em poucos meses o álbum vendeu quase dois milhões de cópias e o grupo começou a sair da bolha eletrónica para se tornar conhecido no mundo inteiro. Dois anos depois do lançamento do álbum, deu-se o lançamento de uma série de clipes de Homework realizados por cineastas de renome como Spike Jonze e Michel Gondry. A série ficou conhecida como “D.A.F.T. – A Story about Dogs, Androids, Firemen and Tomatoes”.

A preparação do segundo álbum começou ainda em 1999. Ao contrário do disco de estreia, que foi beber aos sons da décadas de 1970 e 1980, o novo projeto, lançado em 2001, apresentou temas ligados à infância dos músicos: mais divertidos e leves. O tema “One More Time” alcançou o topo das rádios do mundo inteiro em poucos dias e a popularidade da dupla explodiu. Com a mudança de conceito, viu nascer uma nova geração de fãs, mais um passo foi dado para a difusão da e-music.

O terceiro álbum de estúdio foi lançado em 2005 e, mais uma vez, alterou o conceito do anterior. Sempre com sede de inovação, o novo projeto ganhou vida em apenas um mês. Human After All é o disco mais controverso do Daft Punk. Muitos consideraram-no monótono e repetitivo, acusando a dupla de o realizar à pressa.

Para o grupo, era hora de começar a investir noutras áreas do entretenimento. Além dos álbuns de estúdio, das gravações ao vivo que deram origem a CD e DVD, longas-metragens e remixes, o duo apostou na criação de bandas sonoras para cinema (como Tron: O Legado) e videojogos (DJ Hero). O sucesso voltava a sorrir-lhes.

Em 2006 levaram mais longe o envolvimento no mundo cinematográfico, com a realização de Daft Punk’s Electroma, que se estreou a 21 de maio desse ano no Festival de Cannes. O filme não incluiu a sua própria música, ao contrário do que acontecera no DVD e filme anteriormente lançados pela dupla (Homework e Discovery). Foi também nesse ano que passaram por Portugal, tendo sido cabeças-de-cartaz do festival Sudoeste (atual Meo Sudoeste).

Porém, os fãs esperavam ansiosamente por um novo álbum. Oito anos depois, em 2014, Daft Punk lançaram Random Access Memories, um álbum recheado de colaborações com artistas como Panda Bear, Giorgio Moroder, Pharrell Williams, Nile Rodgers e Paul Williams.

“Get Lucky”, o primeiro single do CD, que carrega a voz de Pharrell Williams, valeu-lhes cinco Grammy: álbum do ano, gravação do ano, melhor performance pop de duo ou dupla, melhor álbum de dance/electrónica e melhor engenheiro de som.

Embora tenham feito história sobretudo nas pistas de dança e nos recintos dos festivais, o contributo do “bando de punks tontos” foi também reconhecido nas mais altas esferas da cultura. Em 2010 Bangalter e Homem-Cristo foram condecorados com a Ordem das Artes e Letras Francesas, tornando-se Cavaleiros da Nação.

 

*Editado por José Cabrita Saraiva

 

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