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Pedro Vaz 23/02/2021
Pedro Vaz

opiniao@ionline.pt

A resposta à Pandemia não se faz só no nosso quintal

O Secretário-Geral das Nações Unidas colocou o dedo na ferida. Como o próprio referiu ontem em artigo de opinião no “The Guardian”, revelando o que se saberia, mas que a opinião pública ignorava: 75% das vacinas existentes contra a COVID-19, foram administradas em 10 países e dos 193 países existentes, 130 ainda não tiveram acesso a qualquer vacina.

Bem sei que a prioridade em cada um dos países que já tiveram capacidade de adquirir doses das vacinas existentes (Portugal incluído) está na vacinação da sua própria população, a realidade é que se não houver um processo de vacinação à escala planetária, dificilmente se ultrapassará esta pandemia, até porque a evolução deste vírus é bastante incerta e não se sabe se as vacinas terão o mesmo grau de eficácia nas novas variantes, que entretanto possam surgir. Pelo que, de que valerá estarmos todos vacinados em meia dúzia de países do mundo se a grande maioria das pessoas não estiver?

O apelo tem tanto de relevante como de reflexo do mundo que somos. Não bastava já termos um mundo enormemente desigual antes da pandemia, com zonas do globo com capacidade para tudo adquirir e tudo consumir, para somar a tudo isso a desigualdade no combate à COVID.

Vemos um pouco por todo o lado os enormes problemas relacionados com segurança, rendimentos, resiliência económica, social e saúde pública com que que estamos confrontados e será embaraçoso e uma verdadeira vergonha moral que os países “ditos” desenvolvidos se concentrem em si próprios em vez de desenharem uma resposta, enquadrada pela ONU, com o intuito de ajudar os que se encontram no fim da “cadeia alimentar.”

Enquanto os EUA e a União Europeia continuarem a achar que a vacina é um problema de fornecimento habitual de um bem, como se estivessem a comprar ventoinhas a um qualquer fornecedor comercial esta situação não se inverterá. Para quando a democratização da produção da vacina em todos aqueles que têm capacidade instalada para a produzir, desde que tenham acesso à “receita” da composição das mesmas? Os tempos são de exceção e exigem medidas de exceção.

Aliás, enquanto os países “desenvolvidos” do hemisfério norte andam em discussões sobre o cumprimento na execução de contratos, vemos uma cada vez mais hegemónica “China” a assumir, nesta matéria, o papel liderante de auxílio às nações mais frágeis e todos sabemos que não o faz apenas por altruísmo.

A vacina é mesmo uma questão de direitos humanos e não me parece que os direitos de propriedade de uma empresa farmacêutica, por mais gigante que seja à escala mundial, se possa sobrepor à humanidade como um todo (recorde-se que estas empresas conseguiram muitos e vastos recursos financeiros públicos para desenvolverem as vacinas que já existem).

 Uma nota final relacionada com o Plano de Recuperação e Resiliência. No momento em que se encontra em consulta pública o Plano, que define a forma como se utilizarão os cerca de 14 mil milhões de euros europeus, muitos daqueles que achariam que o dinheiro iria ser abusivamente gasto, vêm agora a terreiro defender que esse dinheiro sirva para tudo e mais um par de botas, nomeadamente para apoios em detrimento de investimento estrutural.

Se algo a COVID veio pôr a nu, neste ano que já levamos de pandemia, foi a deficiência que temos em áreas consideradas essenciais. Lembram-se da berraria em torno do transporte público a abarrotar por não haver mais material circulante? Ou da pouca, precária e deficitária habitação? Ou da resposta frouxa e tardia dos serviços públicos, nomeadamente na saúde e segurança social? Pois bem, no momento em que o Governo define o investimento nesses setores estruturais e deficitários, o que vemos? Vemos, os do costume, a vilipendiarem os socialistas porque querem gastar tudo no Estado e não dar nada à Economia (leia-se privados). Como se a realidade social do país fosse compartimentada e o investimento não se sinta em toda a economia como um todo.

 


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