9/3/21
 
 
Afonso de Melo 23/02/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Da Trindade a La Higuera

Poucas são mais dolorosas do que as imagens de prateleiras vazias, sobretudo quando são lugares que visitamos com a frequência alucinada de um viciado na composição das letras.

Depois de ter visto a foto do Che morto, nas montanhas de La Higuera, Luis Sepúlveda escreveu uma frase que misturava a tristeza e a solidão: “É sempre assim: nós ficamos com as fotografias; eles ficam com os continentes”. De Stroessner a Perón, de Juan Carlos Onganía a López Arellano, toda a América Latina era um mapa dorido de ditaduras impiedosas. Depois de ter visto as fotografias da livraria do meu amigo Bernardo Trindade, na Rua do Alecrim, com as prateleiras vazias como fantasmas e todo o interior frio como uma urna, lembrei-me de Sepúlveda: nós ficamos com as fotografias; eles ficam com os espaços.

Por mais históricos e ricos de vida que tenham sido, a despeito de décadas de verdadeiro serviço público e, sobretudo, da paixão pela cultura, que é uma daquelas coisas em que, em Portugal, este país cada vez mais pascácio, as portas se fecham na cara dos que procuram, ainda, um lugar para manter vivos os nossos escritores mortos. Poucas são mais dolorosas do que as imagens de prateleiras vazias, sobretudo quando são lugares que visitamos com a frequência alucinada de um viciado na composição das letras. Esquálidas, ocas, representantes de filosofias que ficaram pelo caminho. Vejam a foto de La Higuera.

O cabelo desgrenhado de Ernesto, o peito nu, as costelas à transparência. Podia ser um Cristo se tivesse uma cruz. Eu olho o esqueleto da Livraria Trindade e já nem uma página resta. Por isso resolvi escrever esta, que é a a da luta da memória contra o esquecimento, como dizia Milan Kundera, a verdadeira luta contra o fascismo que nos têm imposto a pouco e pouco, o fascismo canalha e infame da incultura que esmaga, à custa de edifícios de merda, os últimos bancos de jardim onde podíamos sentar-nos ao fim da tarde e esquecermo-nos na busca do tempo perdido. Mas até os bancos de jardim estão fechados com fitas de intervenção desta polícia prepotente. Nem um sobra. Nem aquele do Torga, o mais comprido que vagasse e onde eu me deitasse e pudesse dormir.


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