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O populismo e a anticiência

O populismo e a anticiência

Paulo Ferreira 23/02/2021 09:32

A oposição aos movimentos anticientíficos exigirá uma resposta complexa, em particular o envolvimento dos Governos em parceria com o setor académico, as empresas e a comunicação social.

No ano passado, o Presidente dos EUA na altura, Donald Trump, foi criticado pela comunidade médica após sugerir que o coronavírus poderia ser tratado com uma injeção de desinfetante. Apesar da afirmação absurda de Donald Trump, uma sondagem feita pela agência americana Centers for Disease Control and Prevention revelou que 4% dos entrevistados consumiram ou gargarejaram soluções diluídas de lixívia, água com sabão e outros desinfetantes para se protegerem do coronavírus, e 6% dos entrevistados relataram que inalaram vapores de produtos de limpeza ou desinfetantes domésticos.

Este episódio expõe, de uma forma evidente, a tendência crescente da anticiência, ou seja, um conjunto de atitudes que envolvem a rejeição da ciência e do método científico, em grande parte promovida pelo fenómeno do populismo.

Estes movimentos populistas, que têm vindo a surgir em todo o mundo, são, de facto, muito diversos. Em alguns casos, os populistas assumem uma índole cultural, segundo a qual olham para os nativos e as maiorias étnico-religiosas como pessoas verdadeiras, enquanto os imigrantes, as minorias étnico-religiosas e as elites culturais são vistas como “os outros”. Os populistas socioeconómicos veem a classe trabalhadora como o verdadeiro povo, ao passo que as elites empresariais nacionais e as instituições financeiras internacionais são consideradas como inimigas. Por último, os populistas antissistema alegam promover a vontade de um povo supostamente virtuoso, desafiando as elites e estruturas políticas estabelecidas. Em geral, os líderes populistas têm a capacidade de influenciar pessoas que não tinham opinião sobre um determinado assunto e de fortalecer opiniões e preconceitos existentes.

Nesta perspetiva, o populismo é perigoso quando defende a anticiência, dado que promove um conjunto de ideias falsas, sem base científica, capazes de originar decisões políticas com repercussões potencialmente devastadoras. Veja-se, por exemplo, o caso do aquecimento global, em que a evidência científica é inegável, mas que continua a ser interpretada, por alguns Governos e parte da população desses países, como uma falácia ou teoria da conspiração, provocando cortes no orçamento destinado a este problema. Enquanto isso, a temperatura do planeta vai aumentando, causando um número crescente de secas, tempestades intensas e inundações; fenómenos estes que colocam em risco a existência de certas regiões e o acesso à água potável, além de provocarem incêndios florestais, o desenvolvimento de fungos e a transmissão de doenças.

As leis da ciência não têm ideologia política, religião, raça e género. Baseiam-se no estudo do comportamento do mundo físico e natural, através da observação e experimentação. É graças à ciência que comunicamos por telemóvel, enviamos sondas a Marte e produzimos vacinas, seguindo as leis da natureza, e não através de um ato de magia. É um processo desafiante de descoberta e aprendizagem contínuas que procura descrever com verdade como funciona o nosso mundo e o universo.

Neste contexto, podemos então afirmar que todo o populista é, por inerência, anticiência? A resposta não é trivial. De facto, o discurso populista não visa apenas os políticos, mas também outros representantes do suposto sistema, incluindo cientistas e instituições académicas. Na base desse discurso está a ideia do “bom senso”. É um termo fundamentalmente apolítico porque, em geral, argumenta que existe uma solução que é boa para todos e que é o “bom senso”. Quando se tem “bom senso”, não são precisos especialistas e académicos, e também a ciência é dispensável. Para o populista, não é necessário que nos digam se devemos ficar ou não em casa durante a pandemia; isso é “bom senso”. Só que, na realidade – por exemplo, no caso da pandemia –, a situação é muito mais complexa do que pode parecer à primeira vista, o que implica que seja absolutamente essencial ouvir os especialistas e basear as decisões, principalmente as políticas, na evidência científica.

Ainda assim, para alguns populistas é comum ficarem impunes, apesar da negação da ciência. O poder de alguns líderes populistas baseia-se na forma como eles se posicionam dentro da matriz antagónica do “nós contra eles” que estrutura o populismo – sendo o “nós” atribuído às pessoas comuns trabalhadoras, autênticas, e o “eles” rotulados de classe corrompida. Consequentemente, qualquer pessoa que se oponha ao líder é membro da elite corrompida. No fundo, não é uma batalha contra a ciência, mas contra aqueles que apresentam recomendações científicas que não se enquadram no discurso e nas políticas defendidas. Porém, quando essas recomendações sustentam as ideias preconizadas pelo líder populista, num ápice, os cientistas transformam-se num aliado poderoso.

Mas, então, como podemos combater este sentimento de anticiência?

Em primeiro lugar, é necessário dar um rosto à ciência e aos cientistas. O público não sabe o que os cientistas realmente fazem. O investigador que faz uma carreira na ciência, que trabalha diariamente em laboratórios, que elabora estudos, que dá conferências e ensina é praticamente invisível. Neste sentido, é importante educar e incentivar os cientistas a participarem em, ou mesmo liderarem, atividades de disseminação da ciência.

Em segundo lugar, é fundamental aumentar a literacia científica da população. De acordo com um estudo de 2019, promovido pela Comissão da Cultura e da Educação do Parlamento Europeu, apenas 56% dos portugueses se sentem confiantes para identificar notícias científicas falsas. Uma pessoa que não tem a capacidade de questionar e avaliar criticamente a informação apresentada pode ser facilmente influenciada. Isso é especialmente relevante no que diz respeito a decisões políticas. Este processo exige a introdução nos planos curriculares de disciplinas que promovam o pensamento crítico e a resolução de problemas para além da resolução de exercícios, assim como que estimulaem a curiosidade e a comunicação.

Em terceiro lugar, o papel da comunicação social é essencial. Para isso é vital fomentar licenciaturas e/ou pós-graduações em comunicação científica, enfatizando o jornalismo científico. Adicionalmente, apesar de haver habitualmente uma boa relação entre cientistas e jornalistas, é necessário promover uma interação mais estreita entre os dois setores, para que comuniquem numa língua comum.

Finalmente, o desenvolvimento de algoritmos avançados capazes de rotular notícias falsas, principalmente nas redes sociais, vai ser cada vez mais importante.

Em última análise, a oposição aos movimentos anticientíficos e suas atividades organizadas exigirá uma resposta complexa, em particular o envolvimento dos Governos em parceria com o setor académico, as empresas e a comunicação social. Afinal de contas, como disse Aldous Huxley, “os factos não deixam de existir só porque são ignorados”.

 

Professor catedrático, Departamento de Engenharia Mecânica, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa; diretor do Centro de Microscopia Avançada, Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL), Braga; professor catedrático, The University of Texas at Austin, EUA.

 

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