28/2/21
 
 
José Cabrita Saraiva 22/02/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Empenhados em destruir

Uma sociedade com respeito pelo passado cuida dos monumentos que lhe foram legados para os passar às gerações seguintes. 

Ouvi e não queria acreditar. Um deputado do Partido Socialista que eu tinha por pessoa sensata e moderada, Ascenso Simões, defendeu a demolição do Padrão dos Descobrimentos por ser um símbolo do Estado Novo e por veicular uma visão errada da nossa História. Primeiro, pensei tratar-se de uma brincadeira, uma ironia para realçar o absurdo de uma certa corrente revisionista. Mas não: para minha surpresa, aparentemente Ascenso estaria mesmo a falar a sério.

Há alguns aspetos nesta proposta, por muito absurda que nos pareça, que vale a pena analisar. O que nos diz sobre nós próprios? Para começar, é preciso que uma sociedade esteja mesmo muito insegura de si para que se sinta ameaçada por uma construção de pedra que está ali quieta e nem sequer é especialmente impositiva.

Diria, em traços gerais, que uma sociedade confiante, sã e com vitalidade se preocupa em erguer os seus próprios monumentos. Uma sociedade com respeito pelo passado cuida dos monumentos que lhe foram legados para os passar às gerações seguintes. Uma sociedade em declínio talvez deixe esses monumentos ao abandono – ou, nalguns casos, pode até vender património para realizar receita (foi o caso da URSS). Mas, para querer destruir um monumento como o Padrão dos Descobrimentos, julgo que é preciso uma sociedade muito revoltada e de mal consigo mesma.

De resto, diz muito desta tendência revisionista da História que esteja sempre tão empenhada em destruir, em rejeitar, em agredir, em vez de se afirmar pela positiva. Se não temos capacidade para mais, tentemos pelo menos cuidar do que recebemos. Lamentavelmente, nem sempre o temos conseguido, e há muito património histórico votado ao abandono.

Ora, se nem conseguimos conservar o nosso património, vamos gastar recursos a destruir o que recebemos? Disse atrás que só uma sociedade muito insegura, revoltada e de mal consigo mesma poderia sequer pensar nisso. Não sei se somos ou não tudo isso. Mas de uma coisa tenho a certeza: não somos ricos. Ora, quando temos os problemas que temos (e a dívida que temos), gastar recursos a demolir um símbolo, mais do que uma estupidez e um desperdício, seria um crime.


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