28/2/21
 
 
José Cabrita Saraiva 18/02/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Prazer, culpa e reparação do homem branco

O raciocínio por que se regem, em traços muito esquemáticos, é o seguinte: o homem branco andou a divertir-se às custas da escravatura do colonialismo e agora tem de pagar por isso.

Penso que será relativamente consensual que uma das marcas mais fundas e duradouras que o Cristianismo deixou na mentalidade europeia é a ligação indissociável entre o prazer e a culpa. São como as duas faces de uma mesma moeda, um não pode existir sem o outro. (E por falar em moeda, recordo-me de uma medalhinha de trazer ao peito com um dizer que sempre me intrigou: “Ó Maria concebida sem pecado...”). Na lógica cristã, o prazer implica quase sempre culpa. E a culpa exige expiação.

Mas o que é interessante verificar é como esta herança se encontra inculcada mesmo nos meios mais insuspeitos. Estou a pensar, por exemplo, em certos movimentos anti-racismo ou pró-descolonização. O raciocínio por que se regem, em traços muito esquemáticos, é o seguinte: o homem branco andou a divertir-se às custas da escravatura do colonialismo e agora tem de pagar por isso.

O primeiro passo, na melhor tradição cristã, é, evidentemente, extrair uma confissão. Assumida a culpa, é altura de se passar à fase da penitência.

Embora o seu método não inclua torturas nem fogueiras, o fervor de alguns dos mais destacados representantes dos ditos movimentos é tão grande que no seu radicalismo chegam a fazer lembrar a Santa Inquisição.

Não é difícil encontrar algumas semelhanças de procedimento: uma inclinação para remexer no passado em busca de factos comprometedores; uma certa fixação com as raças; uma atitude de ressentimento disfarçada de superioridade moral; o desejo último de castigar os impenitentes na praça pública.

Mas há uma diferença que não pode ser ignorada. Enquanto os processos do tribunal do Santo Ofício escrutinavam a pureza de sangue, creio eu, até à quarta geração, os justiceiros de hoje em dia querem imputar-nos crimes cometidos pelos nossos antepassados longínquos de há 300, 400 ou 500 anos. Quem diria uma coisa destas? Nem a malfadada Inquisição, no seu zelo persecutório, ia tão longe como os ativistas do século XXI!


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