14/4/21
 
 
Brasileiros em Portugal. "Passei fome e dormi na rua. Me ajudem a voltar para casa"

Brasileiros em Portugal. "Passei fome e dormi na rua. Me ajudem a voltar para casa"

Enquanto o repatriamento dos portugueses retidos no Brasil está a ser analisado pelo Governo português, os consulados brasileiros em Portugal fecham os olhos aos brasileiros que não conseguem regressar ao seu país.

O Governo decidiu prolongar a suspensão de todos os voos, comerciais ou privados de e para o Brasil até ao dia 1 de março. Mas enquanto o Ministério dos Negócios Estrangeiros procede ao levantamento dos portugueses que se encontram em situações de emergência no Brasil, os consulados brasileiros em Lisboa, Porto e Faro têm ignorado os seus cidadãos retidos em Portugal.

“A situação está cada vez mais difícil, eu estou muito desesperada”, começar por dizer ao i Cindy Romão, residente em Portugal desde janeiro de 2020, e vítima da crise provocada pela pandemia. “Passei fome e dormi na rua por quatro dias. Agora estou de favor na casa de um pessoal e isso é muito constrangedor”, esclareceu a jovem de 27 anos, natural de Poços de Caldas, Minas Gerais, mas que agora vive em Caneças, Odivelas.

“Cheguei no meu limite de tentativas, eu já não tenho mais como e nem a quem recorrer aqui”, lamenta a rapariga. “Recentemente adoeci com covid- 19 e passei por dias horríveis, precisei de ajuda e não tive por ser imigrante ilegal aqui, mas para honra e glória do Senhor eu consegui vencer e agora passo bem de saúde”, desabafa.

Cindy tem formação em marketing digital, mas, em solo português, passou a trabalhar como cuidadora de idosos num lar. “Com a pandemia perdi o meu trabalho, peço por favor que me ajudem a voltar para minha casa, para a minha família”, apela.

Cindy ainda adquiriu um bilhete de ida para o Brasil no dia 28 de janeiro, pela Azul Linhas Aéreas. A viagem estava marcada para 6 de fevereiro, mas nunca se chegou a concretizar. “Só comprei essa passagem porque tenho um crédito na companhia, só que no dia 29 de janeiro saiu o decreto [que suspendeu as ligações entre Portugal e Brasil] e eu acabei ficando presa aqui, sem trabalho e sem ter onde dormir”, diz.

“Não quero nada de graça que tenho um crédito na Azul e posso pagar a minha volta”, salienta a brasileira que apela ao Governo brasileiro. “Só quero que eles liberem um avião para mim e meu irmãos irmos embora, está todo mundo com passagem comprada”, afirma, referindo-se aos compatriotas que vivem a mesma situação. “O Governo brasileiro já disse que não vai custear nada, que não vai fazer repatriamento, mas não queremos o dinheiro deles”, garante.

Tal como Cindy, existem outros brasileiros que aguardam por uma resposta das autoridades aos pedidos para regressarem ao outro lado do Atlântico.

“Governo brasileiro fecha os olhos". “Não está a ser feito nenhum levantamento, nem vão haver quaisquer voos de repatriamento de cidadãos brasileiros em Portugal para o Brasil, como aconteceu no ano passado”, diz ao i fonte do Consulado brasileiro em Lisboa.

A resposta é taxativa e remete para uma decisão do Governo brasileiro. Depois de, no ano passado, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil ter liderado um processo de repatriamento que permitiu o regresso a casa de dezenas de milhares de cidadãos brasileiros espalhados por todo o mundo – centenas oriundos de Portugal –, desta vez, o Executivo de Jair Bolsonaro rejeita tomar a mesma opção.

“O Governo brasileiro simplesmente fecha os olhos a esta situação. A indicação que temos é que os turistas foram desaconselhados a viajar para a Europa nesta fase e que os brasileiros residentes em Portugal têm de aguardar pela retoma dos voos. A única alternativa é mesmo encontrar uma solução com as companhias áreas com as quais têm bilhetes comprados e voos marcados”, explica a mesma fonte.

O i apurou que os funcionários dos consulados brasileiros em Portugal têm, neste momento, indicação para não atenderem chamadas telefónicas, e só responderem às questões colocadas por e-mail, mas sempre através de uma resposta automática, onde se confirma “não estar previsto voo de repatriação” e se recomenda que os cidadãos brasileiros “busquem, junto às companhias áreas conexões possíveis”. Para não deixar dúvidas, os consulados brasileiros deixam uma nota de agradecimento “aos testemunhos dos brasileiros que têm viajado nas últimas semanas ao Brasil com trânsito em diferentes cidades europeias (Amesterdão, Madrid/via Buenos Aires, Paris e Zurique)”.

“Os governos têm de se entender”. Ricardo Amaral Pessoa é presidente da Associação Brasileira de Portugal e do Conselho de Cidadãos Brasileiros em Lisboa e, na sua ótica, “existe um estado de emergência, mas exatamente por vivermos esta situação é que os Governos português e brasileiro devem ser mais sensíveis às questões humanitárias”.

O dirigente considera que “existe o contrato formal criado entre a LATAM, a Azul e a TAP que tem permitido a comercialização de passagens”, sendo que questiona como é possível se as pessoas não podem viajar.

“No caso dos brasileiros, são pessoas que estão nos seus limites psicológicos, de saúde e que pretendem regressar à sua pátria porque lá têm os seus familiares e outros recursos”, explica. “No ano passado, estive dia e noite no aeroporto até o Consulado fretar aviões para que os meus conterrâneos fossem para o Brasil”, conta. “Deviam dar autorização para que houvesse a abertura do espaço aéreo para que as pessoas que já compraram as passagens pudessem viajar”, desabafa, acrescentando: “Isso não acontece e é catastrófico”.

“No sábado, um cidadão brasileiro morreu atropelado em Portugal. Na segunda-feira, a esposa dele entrou em contacto com o Consulado e expôs a situação, mas só obteve como resposta: “Não podemos fazer nada. Ela só quer ir embora, está traumatizada”, partilha o homem que se encontra em Portugal há três décadas.

“Estamos a ter um replay do ano passado”, constata Amaral Pessoa com desânimo. “Neste momento, vamos ao aeroporto e encontramos uma senhora com três crianças. Vou tentar tirá-la do local”, diz o dirigente que, em março de 2020, chegou a acolher cidadãos brasileiros nas instalações da sua empresa de seguros e na sua própria residência. “Violei a lei, mas não as podia deixar à porta do aeroporto. O Consulado e a Embaixada do Brasil não me ouvem”, lamenta.

Ontem, Amaral Pessoa voltou a fazer nova tentativa para resolver o problema: enviou um ofício ao comandante-geral do exército do sudeste do Brasil, pedindo o envio de um avião para vir buscar os emigrantes brasileiros a Portugal. “A partir do Rio de Janeiro ou de São Paulo chega-se a qualquer Estado. Os Governos têm de se entender. Gostaria de conversar, em direto, na televisão, com o senhor ministro Eduardo Cabrita e com o primeiro-ministro António Costa acerca deste flagelo”, conclui.

Portugueses fazem as malas. Do outro lado do Atlântico, centenas de portugueses vivem o mesmo drama – e aguardam por respostas do Governo português.

O embaixador de Portugal no Brasil, Luís Faro Ramos, admitiu, em declarações à RTP, que “são umas centenas [de pessoas que querem voltar para Portugal], mas dessas, cerca de uma centena são pessoas que nós consideramos que podem preencher esses critérios na base de problemas humanitários, na saúde, nas carências”.

As autoridades portuguesas estão, neste momento, a fazer um levantamento das necessidades destes cidadãos. E embora o embaixador não adiante nenhuma data, sugere que a operação pode estar para breve. “Não sei [quando poderão ocorrer os repatriamentos]. Não é uma questão que possa responder. Sei que estamos a fazer por isso e penso que devemos estar preparados”, avançou o diplomata à estação pública.

 

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