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Scopelli. Quando El Profesor dava aulas aos rapazes de Belém

Scopelli. Quando El Profesor dava aulas aos rapazes de Belém

Afonso de Melo 16/02/2021 22:41

Chegou a Portugal em 1939, fugido de Paris e da guerra que assolava a Europa. Jogou um ano e tornou-se um dos grandes mestres do futebol.

De tempos a tempos, o futebol português tem sido abençoado com a presença de figuras únicas e irrepetíveis. Alejandro Scopelli Casanova foi, sem dúvidas, um desses casos. Chegou aoBelenenses em 1939, vindo de Paris, onde jogara pelo Red Star e pelo Racing Club de France. Na Argentina, onde nasceu, em La Plata, no dia 12 de maio de 1908, fizera parte de uma famosa equipa do Estudiantes que levou a alcunha de Los Profesores. Era avançado-centro. Fazia golos de todas as espécies. E era um príncipe, filho de um abonado dono de um café que lhe proporcionou estudar, primeiro, no Colégio de La Plata e, mais tarde, na universidade do mesmo nome. Costumava dizer: “Sempre tive dinheiro. Depois passei a ganhar muito dinheiro. Mas também gastava bastante. Habituei-me à boa vida”.
Quando veio para Lisboa, fugido à guerra que esventrava a Europa, vinha acompanhado por mais dois argentinos como ele:Tarrío e Tellechea. Hoje em dia são nomes que caíram no injusto poço do olvido mas, ao tempo, a sua influência seria irreversível. Scopelli só vestiu a camisola do Belenenses durante uma época. Tinha a vocação de treinador a crescer desmedidamente dentro de si e, no ano seguinte, foi convidado para dirigir a equipa. Queixava-se de que tinha poucos jogadores no plantel: “Gosto de ter pelo menos 19 jogadores à disposição e não atingimos esse número. Mas a verdade é que, se às vezes podemos concluir um campeonato com 16 jogadores, outras precisamos de 26”. Mas, com mais ou menos jogadores, Don Alejandro trouxe consigo uma revolução para o futebol que se jogava em Portugal.

Jogo de pares Cândido de Oliveira, o maior teórico do futebol que existiu neste país tantas vezes avesso a mudanças, chamou à tática de Scopelli o Jogo de Pares. Assentava basicamente num defesa que tinha a obrigação de acompanhar o avançado-centro contrário e noutro que jogava livre atrás da linha defensiva e que, por isso mesmo, ganhou em Itália o nome, mais tarde universalizado, de líbero. Tarrío, por exemplo, foi o homem escolhido por Alejandro para encaixar nos movimentos de Peyroteo sempre que os de Belém enfrentavam o Sporting. Com tal eficiência que o gigante de Humpata ficava longe da baliza contrária e dos golos, algo que o aborrecia particularmente, de tal forma que eram visíveis os seus gestos de desânimo quando se via metido naquele embirrento duelo.”Taticamente, acho que contribuí para a melhoria do futebol em Portugal. No aspeto técnico, não”, dizia Scopelli. “No aspeto técnico, sempre fui de opinião de que o jogador português é verdadeiramente excelente. Tão excelente que muitas vezes ignora a técnica que possui”.
O professor Scopelli veio da Argentina para Itália, tendo jogado na Roma. Foi internacional pelo dois países, pois adotou mais tarde a nacionalidade italiana. Como treinador, correu o mundo. Esteve por três vezes à frente do Belenenses, a última na época de 1973-74, e, entre nós, também treinou o FCPorto e oSporting. Passou pelo Chile, pelo Universidad de Chile e pela seleção chilena; esteve em Espanha, no Corunha, no Celta, no Granada, no Valência e noEspanhol, e fechou a carreira no México, no América. Instalou-se na Cidade do México, onde acabou por morrer no dia 23 de outubro de 1987, aos 79 anos. Jogou, treinou e viveu como o cavalheiro que era. “Quero saber envelhecer. Fui um homem abençoado pela sorte e sairei da vida sem remorsos ou contrariedades. Aprendi a sobreviver e quero sentir-me mais jovem do que os jovens que viver não sabem”.
Talvez os jovens não tenham nunca ouvido falar de Alejandro Scopelli. Mas os antigos não esquecem esse tempo em que Portugal era tão querido para os argentinos...

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