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Elogio a um Herói de Portugal

Elogio a um Herói de Portugal

Carlos Boto 16/02/2021 13:45

Sou fruto de uma geração imune à memória da guerra. Mas testemunho das consequências directas e indirectas da participação de mais de um milhão de portugueses da geração do meu Pai no conflito. Sei reconhecer os silêncios, embaraços e os resultados nas vidas e memórias de tantos que agora vemos partir e que são os últimos guardiões de um passado que Portugal quer apagar.

Tive a oportunidade de acompanhar um familiar directo numa reunião de ex-combatentes, tropas comando. A genuinidade dos sorrisos, o abraço forte e o olhar pesado de quem reconhece no outro o testemunho que não se partilha e a dor dos que se perderam teve um impacto poderoso na minha percepção desse passado desconhecido.

Portugal despede-se de um dos seus heróis, Marcelino da Mata. Um português que quero elogiar pelas suas qualidades e defeitos, pois representa os homens e mulheres que independentemente da sua vontade pessoal foram mobilizados para servir o País sobre o qual nasceram. E que nós, insistentemente, procuramos esquecer.

Em Marcelino da Mata vejo o reflexo de todos os ex-combatentes que em Portugal têm sido alvo de discriminação, ataques e desprezo por parte daqueles que apenas lhes deveriam dizer obrigado por tudo o que lhes foi pedido em seu nome. O herói português, negro, guineense, comando! Rosto de todos os Portugueses de África que foram traídos, perseguidos, mortos e esquecidos pela bandeira que juraram e fielmente serviram. Os militares que lutaram por Portugal antes do 25 de Abril não mereceram o que sofreram e em Marcelino da Mata a Nação Portuguesa tem a oportunidade de prestar o devido respeito e homenagem que sempre negou aos que lealmente a serviram em África.

Honramos o Soldado Desconhecido, saibamos honrar um herói com rosto. Que Portugal saiba em devido tempo atribuir honras de Panteão Nacional a Marcelino da Mata, assim respondendo ao dever de relembrar todos quantos deram a sua juventude, liberdade, futuro ou vida por um Portugal que tudo lhes pediu e nada lhes deu. Esta é a oportunidade de nos reconciliarmos com a etapa final do império e reafirmar a nossa cultura universalista que atravessa raças, continentes e laços históricos, não se prendendo a um mapa ou geografia. Este é o momento para Portugal pedir desculpa pelo contínuo esquecimento a que os seus heróis têm sido votados, agradecer o seu serviço e prometer manter viva a memória do seu esforço, dedicação e sacrifício.

Não podemos reescrever o passado. Saibamos hoje tomar as decisões que permitam construir as pontes necessárias para um futuro de lucidez, tranquilidade e equidade para com as memórias dos nossos familiares e conhecidos que de uma forma ou outra viveram esse período. Saibamos mostrar o amor e o carinho que nos merecem. Saibamos dizer presente quando de nós precisarem, pois Marcelino da Mata é o seu rosto... MAMA SUMAE!

 

Carlos Boto
Membro Iniciativa Liberal

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