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16 de fevereiro de 1966. Ia ver o Benfica e acabou por passar a noite no chilindró

16 de fevereiro de 1966. Ia ver o Benfica e acabou por passar a noite no chilindró

Afonso de Melo 16/02/2021 10:00

Saiu feliz da Bobadela na companhia de um sobrinho. Já não arranjaram bilhete para o Benfica-Sporting. Passearam-se e beberam uns copos no Cais do Sodré até que o tio foi apanhado sem carta de condução. Nunca a tivera.

Acordou pela fresquinha e, como de costume, tomou banho de água fria porque o esquentador resolveu embirrar mais uma vez. Nanja que isso lhe estragasse a boa disposição do domingo que estava a começar._Ia a Lisboa ver o seu Benfica, mais uma jornada do campeonato, confiante numa vitória sem espinhas e numas cervejas no regresso com o grupo dos fanáticos como ele. Viagem curta, da Bobadela ao Estádio da Luz. Viagem curta que seria longa, quase infinita, como a de Ulisses a regressar da Guerra de Troia. Dérbi, ainda por cima. Até lhe provocava borborigmos no estômago só de pensar em como o coração lhe iria bater de alegria na hora de bater o Sporting. E no gozo suplementar de lançar umas farpas trocistas aos seus colegas de trabalho leoninos no dia seguinte. Aprumou-se, tomou café com leite e torradas barradas com margarina, que a manteiga estava pela hora da morte, enfiou-se no velho Cortina e foi ali ao lado buscar o sobrinho Joaquim, companheiro de jornada, já à porta à espera, com um cachecol vermelho e branco ao pescoço.

A viagem foi agradável. Falaram pelos cotovelos, fizeram apostas em cima de quem iria marcar os golos, soltaram umas pilhérias, uma ou outra mais porca, mas enfim, estavam sozinhos, não havia senhoras no banco traseiro, não era grave. Depois, ao chegarem ao estádio, enfiados na fila enorme dos que esperavam pelo momento mágico de adquirir os bilhetes, a alma caiu-lhes ao chão com estrondo, como se fosse um frigorífico cheio de gelo despenhando-se de um sexto andar. Alma fria. Já nem sequer se aproximaram do guichê. Lotação esgotada! Os funcionários fecharam as janelinhas e foram à vida, que é como quem diz, escapuliram-se para dentro do recinto, não fossem perder um minuto que fosse.

Sebastião e Joaquim de Oliveira mergulharam numa desilusão profunda, mas não arredaram pé. Com o radinho a pilhas aos ouvidos, escutando a vibração que se soltava de dentro do estádio, ficaram a saber que o_Benfica tinha ganho ao seu rival de sempre. Ao menos isso para os deserdados da Bobadela.

 

Presos!

Roucos de tanto gritarem, voltaram ao Cortina e resolveram comemorar o triunfo dos encarnados às voltas pela cidade, buzinadela aqui e ali, um “Vivó Benfica!” pelo meio. Depois cansaram-se das voltinhas e embicaram para o Cais do Sodré, para molharem as gargantas secas. Entre um bar e outro, Sebastião, o tio, ficou com um grão na asa. Deixou o sobrinho entregue a uma tertúlia mal-amanhada a escorropichar copos de três e decidiu ir bater uma sestazinha merecida dentro do automóvel. Caiu num sono profundo e com sonhos agradáveis pintados de encarnado.

Sebastião acordou sobressaltado com duas pancadas vigorosas no vidro do lado do condutor. Um agente da autoridade, fardado a preceito, fez-lhe o gesto inconfundível de que abrisse o vidro. Estremunhado, com a azia do vinho barato a incomodar-lhe a garganta, mal escutou a ordem que lhe estava a ser dada. O polícia queria que ele recuasse o carro uns metros de forma a não ocupar dois lugares de estacionamento e permitir a outro condutor arrumar o seu. Atrapalhado, confuso, fez marcha à ré com tanta imperícia que despertou a desconfiança no agente. Troca de palavras, o polícia a exigir-lhe que mostrasse a carta de condução. Oliveira tio a suar frio, a meter os pés pelas mãos, lá confessou que não tinha carta, quem guiava era o sobrinho e agora não sabia onde encontrá-lo.

Como seria de esperar, seguiu-se uma visita à esquadra mais próxima._“Mas, senhor guarda, eu estou à espera do meu sobrinho. Nós só viemos ver o Benfica...”

De nada lhe serviu. Não tardou muito a ser presente ao juiz de instrução, o dr. António da Silva Melro, que com cara de poucos amigos o questionou sobre o facto de andar a conduzir sem ter permissão para isso. Sebastião Oliveira estava cada vez mais metido numa camisa-de--onze-varas. Baralhou-se. Lá assumiu que nunca tivera carta de condução mas que possuía um automóvel, que nunca o tinham responsabilizado pela falha, que sabia guiar perfeitamente e o fazia há largos anos. Disse mais, já que estava no local certo para palrar: como nunca concluíra a instrução primária, não pudera tirar a carta._Mas, agora, estava tudo praticamente resolvido. Havia uma tia disponível para lhe dar as lições, não tardaria a ter a papelada em ordem como bom cidadão que sempre fora.

O magistrado não prezava muito o palavreado do arguido. Aplicou-lhe cinco dias de cadeia a 20$00 por dia, mil escudos de multa e 150 de imposto. A pena ficava suspensa desde que pagasse, logo ali, os 150 escudos do imposto. Além do mais, como estava com ganas de perorar, deu-lhe um responso duro e tratou de lhe dar conselhos sobre o perigo de conduzir sem licença para isso.

Sebastião e Joaquim regressaram à Bobadela no dia seguinte, desta vez com Joaquim ao volante. O tio ia acabrunhado, o sobrinho estava-se nas tintas. Bebera uns copos valentes, o Benfica vencera o Sporting e tudo não passara de uma aventura para mais tarde impingir aos amigos com pormenores mais picantes, já da sua lavra. Sebastião levava as orelhas a arder e prometia não se meter noutra. Entrou em casa acabrunhado, pensando bem no que haveria de explicar à mulher. E que mau feitio ela tinha, valha-lhe Deus.

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