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Pelé-Di Stéfano. Duelo ao pôr-do-sol como nos livros de Texas Jack

Pelé-Di Stéfano. Duelo ao pôr-do-sol como nos livros de Texas Jack

Afonso de Melo 12/02/2021 21:35

17 de junho de 1959: em Madrid, Real e Santos disputavam a honra de melhor equipa do mundo. Uma explosão de estrelas que terminou 5-3.

A explosão atómica provocada por um rapazinho de 17 anos no campeonato do Mundo de 1958, na Suécia, chamado Edson Arantes do Nascimento (por extenso, Pelé – como escreveu Nelson Rodrigues), veio agitar de forma inevitável o futebol do planeta. De repente, os grandes nomes estavam postos em causa por causa do garoto mágico nascido em Três Corações. Um deles era Alfredo Di Stéfano, o avançado do Real Madrid até então considerado quase universalmente como o melhor do mundo.

Do alto da prosápia de Don Santiago Bernabéu, o senhor todo-poderoso do Real Madrid, havia que fazer alguma coisa para não deixar abanar o trono do seu menino-bonito. Menino é como quem diz, pois Alfredo já estava nos seus 33 anos quando o presidente dos merengues, através dos jornais, lançou o desafio: um confronto entre o Real Madrid de Di Stéfano e o Santos de Pelé para se decidir quais eram, de facto, os melhores do mundo. Nesse tempo, os jogos ditos amigáveis tinham tanta popularidade como os oficiais. Ou mais, se sobre a relva se iam defrontar, como num duelo ao pôr-do-sol dos livros de Texas Jack, dois atiradores de elite, mais rápidos do que as próprias sombras.
No dia 17 de junho de 1959, logo aos dez minutos de jogo, o rapazinho brasileiro não esteve com meias-medidas: bem de fora da área aplicou um chutaço que deixou toda a defesa do Real, guarda-redes incluído, de boca aberta. Um golo monumental logo a abrir: era disso mesmo que o povo gostava e era para isso que tinha pago o seu bilhete.

Cem mil espetadores empilharam-se nas bancadas, decididos a não perder pitada do que ia decorrer em campo. Claro que não se tratava apenas de um Di Stéfano-Pelé. Estavam lá outros nomes enormes: Gento, Del Sol, Puskás, Gaínza, Pagão, Zito, Coutinho, Dorval, Pepe...

Uma explosão de estrelas na noite de Madrid!

A vitória A vitória dos madrilenos foi festejada como se tivessem ganho a Taça dos Campeões que, aliás, vinham arrecadando desde a sua primeira edição. O jogo foi verdadeiramente espetacular, com dois conjuntos preocupados em jogar futebol ofensivo, atacando-se constantemente um ao outro, batendo-se por cada bola e por cada centímetro de terreno como se disso dependesse as suas vidas. Não dependia, claro. Mas dependia seriamente o prestígio que tinham espalhado pelo mundo.

Vendo-se a perder, o Real foi ao fundo da alma buscar as forças inerentes ao seu orgulho de um grande de Espanha. A batalha foi maravilhosa e gloriosa. Golpes e contragolpes, movimentos técnicos preciosos, lances de ficarem presos nas retinas.

É um plebeu chamado Mateos que se infiltra no combate dos reis e seus príncipes. Em 20 minutos marca três golos, dá um avanço confortável ao Real e deixa o público de Chamartín num absoluto delírio. Reagem os brasileiro e reage Pelé. Sofre um penálti que Pepe converte. Joga-se a segunda parte. Novo pontapé violento de Pelé obriga o keeper Berasaluce a socar para a frente. Coutinho, 16 anos mal feitos, marca o golo com a simplicidade dos eleitos.

Os brasileiros queixaram-se de cansaço para justificarem a derrota por 3-5, com Di Stéfano num movimento de suprema elegância a oferecer a Gento o golo final, pouco depois de o húngaro Puskás ter marcado em voo de peixe. Há um mês que percorriam a Europa, era o seu 14.o encontro, a sua primeira derrota. “Fomos melhores do que o Real, somos melhores do que o Real, e só perdemos por não estarmos bem fisicamente no segundo tempo. Teremos a oportunidade de uma desforra quando os espanhóis o entenderem”, disse Pelé no final. Nunca tiveram. O Real Madrid ganhou egoisticamente aquele triunfo e não deixou que o pusessem em causa. E Pelé e Di Stéfano nunca mais se enfrentaram. O jogo de Chamartín ficou pendurado como um quadro único na parede da memória.

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