13/4/21
 
 
Afonso de Melo 12/02/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Lágrimas que ficam por chorar

Os pássaros têm asas, são imunes a dilúvios. Soberbos pássaros. Sozinho, encostado ao parapeito, terei de assistir lentamente à destruição da raça humana.Nada a que não esteja habituado, confinamento após confinamento.

Chove em cordas como no tempo do Dilúvio. O rio ganha caudal e sobe as suas margens até quase à rua que o ladeia. Deus já devia ter percebido que não ganha nada com isto. Mandou um três mil anos antes de Cristo e, como todos sabemos, não deu resultado. Teimar noutro seria apenas uma perda de tempo porque o homem, feito à sua imagem e semelhança, está cheio dos defeitos incuráveis que Ele lhe deixou. Sobe o Sado. Magnífica aliteração.

Do alto da minha varanda, agora transformada na arca de um Noé de circunstância, enfrento a tempestade, mas não encontro animais para levar comigo até que a pomba branca surja voando no céu com o ramo de oliveira do monte Ararat. Os pássaros têm asas, são imunes a dilúvios. Soberbos pássaros. Sozinho, encostado ao parapeito, terei de assistir lentamente à destruição da raça humana.Nada a que não esteja habituado, confinamento após confinamento. Quantas relações suportarão tamanhas ausências, quantos amores sobreviverão sem carinhos, quantas saudades matarão os solitários?

Uma coisa é certa: chegaremos irreversivelmente tarde ao lugar da vida em que nos esperam. “Se é tarde, me perdoa/ Trago desencantos/ De amores tantos pela madrugada/ Se é tarde, me perdoa/ Vinha só cansado...”, cantava o João Gilberto. Chegaremos à toa ao fim deste dilúvio que tanto é de chuva como de não estar, de simplesmente não estar. Não saberemos, no fim, se é que tudo isto vai ter um fim, contar os nossos mortos, não apenas os mortos de morrer mesmo, mas também os mortos de terem saído das nossas vidas.

Os lugares onde nos encontrávamos, simples cafés e restaurantes, foram levados pelas águas de uma teimosia de correntes. Fecharam-nos em varandas. Ou pior ainda para quem não tem varanda, ainda que a varanda se reduza a uma metáfora. O mar subiu ao céu e tomba de lá em bátegas. Cada gota traz o sal de uma lágrima ainda por chorar.


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