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Jean-Claude Carrière. Morreu, aos 89 anos, o maior argumentista francês

Jean-Claude Carrière. Morreu, aos 89 anos, o maior argumentista francês

Diogo Vaz Pinto 11/02/2021 09:49

Compagnon de route de Luis Buñuel ao longo de quase vinte anos, numa cumplicidade que foi muito além dos tantos filmes que fizeram juntos. A sua prodigiosa capacidade de se desvanecer entre tantos personagens e enredos fez dele o argumentista de eleição de muitos dos nomes que transformaram o cinema na segunda metado de século XX.

 

Era um maravilhoso contador de histórias, e tinha orgulho menos na frase que fuça, carregada da sua persuasão hipnótica, e mais na capacidade de levar as palavras a apagar a ditadura do sujeitinho, essa coisa do ego, por isso entendia que o verdadeiro sonho de um escritor é ser surpreendido pelos seus personagens, chegar ao ponto de ser incomodado, que venham buscá-lo, que lhe ditem eles as suas prioridades, não o deixando em paz quando a vida o cansa. “De súbito, dás por eles a viverem as suas próprias vidas”, escreveu Jean-Claude Carrière, “já não são os teus prisioneiros”. Um dos mais prolíficos e certamente o mais admirado dos argumentistas franceses, contava que foi com Jacques Tati que aprendeu a observar, a saber ficar sentado num café em Paris e olhar nos olhos a vida que passa, seguir brevemente os transeuntes e exercitar as suas capacidades de captar detalhes e farejar pela imaginação que história era a deles, captar nem que fosse um instante significativo. Foi Tati quem o fez virar-se para a escrita para a cinema, era ainda muito jovem, estava na escola, e tinha por hábito visitar a Cinemateca parisiense não menos de três vezes por semana. Foi assim que foi apresentado ao primeiro de muitos mestres. Carrière morreu na segunda-feira, durante o sono, sem uma doença que o reclamasse. A não ser por uns problemas com o coração, estava fino, garante a filha, Kiara Carrière, que deu a notícia à France Presse.

Os mestres, os outros, esses que a qualquer momento viram a vida contra a parede e a revistam de cima abaixo, e que estão sempre à procura de oportunidades de a exaltar ou descompor, e que não vêm para cá senão para criar memórias, esses eram o seu ânimo. Tinha dívidas que assumia com um orgulho extraordinário. Contava como este e aquele o fizeram espreitar a vida por outro ângulo, como isso o instigou a explorar todas as formas de escrita, não se ficando pelos guiões, publicando obras de ficção, poesia e ensaios. Também foi actor, sempre em papéis secundários, que era o que melhor combinava com as suas ambições de se misturar. Mas o momento fundamental da sua vida enquanto criador, foi o seu encontro com Luis Buñuel num almoço em Cannes em 1963. Diz que a primeira coisa que lhe perguntou o homem que o puxou para o surrealismo, foi “Bebe vinho?” Era uma condição para o embarque, depreende-se. E Jean-Claude logo lhe fez saber que provinha de uma família de viticultores, coisa que terá deixado Buñuel desde logo radiante. Não mandou vir uma, mas duas garrafas, e embarcaram juntos. Começava ali mais do que uma colaboração ou amizade, uma dessas cumplicidades em que os destinos de dois homens se ligam, e que levaria Carrière, no fim da vida do amigo, a explicar como a sua perda era de tal ordem que simplesmente a recusava, mantendo os mesmos hábitos que tinham antes, agora com o seu fantasma. “Um mestre continua a ser um mestre mesmo depois de morrer. Não passam dois dias sem que lhe pergunte alguma coisa”, disse numa entrevista ao El País, em 2015. E falando da sua personalidade e dos rumores que a seguem, adiantava: “Exagera-se sempre um pouco o seu perfil de provocador. Na vida quotidiana, Buñuel foi um homem muito bom, que de vez em quando esvaziava os bolsos para dar dinheiro aos mendigos. Podia ser cínico e perturbante, mas nunca mau. A maioria das pessoas não sabe que ele era muito divertido, cómico até. Com Buñuel, um dia sem rir era um dia perdido.”

Da colaboração dos dois, resultariam os grandes filmes da ‘fase francesa’ de Buñuel: Diário de uma Criada de Quarto (1964), A Bela de Dia (1967), A Via Láctea (1969), O Charme Discreto da Burguesia (1972, Óscar de Melhor Filme Estrangeiro), O Fantasma da Liberdade (1974), e Esse Obscuro Objecto do Desejo (1977), derradeiro filme do cineasta. Carrière escreveu ainda com Buñuel a autobiografia deste, O Meu Último Suspiro (1982). Mas se esta ligação se prolongou por quase vinte anos, a carreira do argumentista francês estende-se por seis décadas. E basta referir os nomes de alguns dos cineastas com quem trabalhou para se perceber porque é que, este homem que se dizia um “enciclopedista do tempo dos irmãos Lumière” conquistou o direito a vir em destaque em qualquer obra que pretenda coser as tantas partes que contem a história da sétima arte. Eis alguns nomes ainda não referidos: Jean-Luc Godard, Milos Forman, Volker Schlöndorff, Nagisa Oshima, Costa-Gavras, Louis Malle, Andrzej Wajda, Michael Haneke, Julian Schnabel...

Nascido a 17 de setembro de 1931, os seus pais deixaram o campo e as suas vinhas mudando-se para Paris, em 1945, para abri um café. Jean-Claude já então revelava uma avidez inesgotável e impressionava os professores, tendo entrado numa das grandes écoles de França. Formou-se em História e Literatura, e estreou-se como realizador, em 1961, na curta-metragem Rupture, e um ano depois ganhava um Óscar nesta categoria enquanto autor do argumento e produtor de Heureux Anniversaire, realizada por Pierre Étaix. Ao todo, assinou e co-assinou mais de cem títulos para cinema, televisão e teatro. “Há algo em mim que fica feliz quando se põe ao serviço de um autor, quando o meu pensamento se funde com o seu, adaptando-o e melhorando-o. Não tenho ego”, garantia Jean-Claude Carrière.

Buñuel disse certa verta vez que é quando começamos a perder a memória, a sentir que há peças soltas no relógio, quando o agitamos e este chocalha, e nos damos conta de que as coisas estão a perder o seu rigor, é então que percebemos que as nossas vidas são uma composição de memórias. “A vida sem memórias não é vida nenhuma... A nossa memória é a nossa coerência, a nossa razão e sentimento, até a nossa acção. Sem ela não somos nada.” Foi a partir das memórias que Carrière criou para o seu mestre e amigo uma posteridade que não se confunde com o abandalhada imortalidade das figuras célebres, mas que comporta esses riscos e aventuras que são como ecos ganhando vida própria. Assim, certa noite, faz já mais de uma década, Jean-Claude deitou mão à autobiografia de Buñuel, O Meu Último Suspiro, que ajudara a escrever três décadas antes, e, ao acaso – segundo o método herdado dos surrealistas –, buscou uma indicação oracular. Foi isto o que leu: “Um desgosto: deixar de saber o que se passa. Abandonar o mundo em pleno movimento, como a meio de uma novela. Creio que esta curiosidade de além-túmulo não existia outrora, ou existia menos, num mundo que quase não mudava. Uma confissão: apesar do meu ódio à informação gostaria de poder levantar-me de entre os mortos de dez em dez anos, chegar ao pé de um quiosque de jornais e comprar alguns. Não pediria mais nada. Com os meus jornais debaixo do braço, pálido, caminhando rente às paredes, regressaria ao cemitério para saber das desgraças do mundo, antes de voltar a adormecer, satisfeito, no reconfortante abrigo do túmulo.” Assim, ele que sempre disse que não tinha medo nenhum de que o silêncio o cercasse, e que a página em branco não o angustiava minimamente, já que estava munido dessa noção de que a fé só começa depois de alguém abandonar a razão, tendo, para lhe dar ânimo, todo o recheio do palacete onde vivia, num recanto de Pigalle, em tempos um bairro de vinhedos, logo tomado por cabarés, e que contou também com um célebre bordel e com o estúdio de Toulouse Lautrec. Nesse palacete onde morreu esta segunda-feira, vivia rodeado de lembranças, fotografias, uma composição dispersa do seu passado, e sabia que podia sempre esfregar essas coisas para soltar o génio do seu futuro. Assim, estava sempre a tirar notas, tinha infindáveis arquivos e caixas em que apontava frases memoráveis, uma descrição para um personagem, algo que acicatasse o seu espírito e o lançasse de volta na criação. Esse modo de se entregar ao acaso, de se deixar levar por ele, foi o que lhe serviu naquela noite, o que o inspirou a escrever Le Réveil de Buñuel (2011), livro em que ficciona vários encontros com o realizador no cemitério, levando-lhe jornais em várias línguas, discutindo com ele a actualidade, lembrando velhas e divertidas histórias que os dois viveram, embarcando como dantes, nessa clandestinidade que oferece o além.

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