8/5/21
 
 
Carlos Gouveia Martins 11/02/2021
Carlos Gouveia Martins

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A epidemia portuguesa das "desculpas de mau pagador"

Vivemos tempos que jamais iremos esquecer. Pela crise global. Pela crise de saúde pública. Pela dor presente nas muitas perdas de muitos portugueses. Pelo sufoco dos profissionais de saúde e pela pressão vivida e sentida no SNS. Pelo garrote, em virtude da maior crise da história mundial, na economia portuguesa e castração do nosso tecido empresarial.

Mas igualmente não iremos esquecer as “desculpas de mau pagador” de tantos portugueses com grande responsabilidade a seu cargo. Aqueles que, num dos momentos de maior necessidade de reforço da credibilidade e confiança, preferiram o caminho de fugir das suas responsabilidades. É um caminho muito mais fácil, para quem sozinho o pratica, mas é errado hoje - em crise pandémica - como já era antes de todo este “novo-normal”.

Essas desculpas podem ser oriundas de autarcas, como de Presidentes de Câmara que aceleraram para vacinas antes mesmo dos profissionais de saúde que os rodeiam, esses sim de apoio e resposta de primeira linha COVID-19, terem sido administrados com a primeira dose dessa mesma vacina.

Desculpas também, por exemplo, de Vereadores que tomaram porque, dizem, “sobrou uma”. Podemos ver essas desculpas de mau pagador ainda em todos os casos como o da Segurança Social de Setúbal, do INEM do Norte ou de Portimão que são alguns dos - pelo menos - nove que estão a ser alvo de inquérito, segundo a Procuradoria-Geral da República. Podem ser todos esses casos que, sem margem para dúvidas, contaminaram a opinião pública e fizeram nascer a desconfiança no plano nacional de vacinação.

Todos esses poucos portugueses, sem dúvidas, deram desculpas de mau pagador aos outros milhões de portugueses.

Haveria, em todos esses casos, um caminho alternativo na estrada da credibilidade que todos queremos percorrer.

Mas não fica por aqui.

Há outros que percorrem o mesmo caminho das desculpas. Seja Francisco Ramos, ex-Coordenador da Task Force da vacinação em Portugal que, usando situações irregulares do Hospital onde é presidente da comissão executiva, saiu com “desculpas de mau pagador” – quando, registemos, os líderes não abandonam o “barco” – a meio do processo dando lugar ao Vice-almirante Gouveia e Melo na liderança da estratégia mais importante da história da saúde pública portuguesa.

Outro caso ainda, durante esta semana, num outro assunto sensível como é a economia e as finanças, coloca neste lote o ministro João Leão.

Soubemos ontem, disse este ministro de Estado do Governo de António Costa, que são “2.200 milhões de euros de receitas que entram no défice em contas nacionais acima do que era esperado em outubro”, disse o governante João Leão, afirmando ainda que se registam subidas no dinheiro arrecadado em IRS e IRC.

Portanto, temos cerca de 7 mil milhões de euros por executar num orçamento, quando vivemos na maior crise de sempre para os portugueses.

Apartidariamente, e apenas com sensibilidade social, é justo dizer aqui e ouvir acolá que o ministro João Leão pensou muito mais no défice do que nos portugueses. Seguramente, pelas vicissitudes que sabemos, não era ano de deixar tanto por executar do orçamento porque, sem dúvidas e sem excel necessário, o setor da saúde precisa de verba, a envolvência no setor da educação com adaptação à realidade digital precisa de maior verba, ... os portugueses, em si, precisam de claramente maior dotação orçamental em quase tudo.

João Leão não executou toda a despesa programada, já percebemos. Mas, saibamos também, essa é uma decisão gestionária legitima de qualquer executivo. Não questionemos, apesar de todas as questões dogmáticas com que sempre nos iremos deparar no plano da definição e amplitude política das escolhas económicas e financeiras, a legitimidade do Governo nesta ação. Não errou, decidiu desta forma. Mas que a assuma.

Então onde entram, também no Senhor ministro, as desculpas de mau pagador? Podiam, as desculpas, entrar já diretamente ao concluirmos que o ministro pensou mais no défice do que nos portugueses (ironia, ser sempre “isto” atribuído a outras ideologias e já ser o segundo ministro de esquerda a “sofrer” do mesmo mal que vaticinam à direita). Porém, aquando disse que houve de facto apoios à economia que não foram executados, o argumento mais “sólido” e “pertinente” de João Leão foi: “Há três Câmaras Municipais lideradas pelo PSD que fizeram o mesmo.” Foi uma belíssima desculpa de mau pagador, Senhor ministro.

Talvez, em processo de reflexão sobre tanta desculpa de mau pagador, quando alguns dizem que é antipatriótico criticar e apontar defeitos, seja arriscado este comportamento.

Trata-se, porém, de uma questão de coragem e consciência, livre de medos e presa a convicções. Talvez quando refletirmos e recordarmos o que hoje vivemos presentemente venhamos a concluir que faltou capacidade crítica para não dar azo a desculpas e passa culpas de outros.

Neste campo, dito por alguns como “antipatriótico”, aplaudir os argumentos fortes e – neste caso sim – mesmo pertinentes e sólidos do epidemiologista Manuel Carmo Gomes. Foi seguramente o nome mais falado nesta terça-feira, em Portugal, e não é para menos. Contestou as decisões do executivo liderado pelo primeiro-ministro António Costa, com alternativas possíveis e foco, embora alguns faciosos partidários vejam o seu discurso como um mero ataque pessoal e não como algo que é uma opinião técnica livre de siglas partidárias.

Vejamos: Manuel Carmo Gomes simplesmente explicou, em sede do Infarmed IP, como o confinamento gradual que o Governo aplicou, falhou e, assim, por que motivo Portugal precisa de critérios objetivos para confinar e desconfinar. Fez ainda uma análise muito crítica da estratégia do Governo, mas, olhos nos olhos, disse que a ministra da Saúde estava inteirada de tudo o que ele ia dizer. Pouco depois, mas ainda nesse dia, soube-se que aquela era a última reunião no Infarmed IP em que o epidemiologista Manuel Carmo Gomes ia participar. Motivos pessoais, disse ele, porém ficará sempre a desconfiança sobre a existência ou não de pressão política. Assim, com ténue justificação de “motivos pessoais”, esta pode ser a única desculpa de mau pagador associada a quem pagou bem caro o preço da sua verdade.

No meio de tantos maus exemplos, convém vermos que há sempre espaço para liberdade de um bom exemplo e um rasgo de esperança. Porém, para já, continuamos a viver uma epidemia de um terrível vírus que se alastra e transmite desculpas esfarrapadas desde o sul até ao norte do nosso país. Saibamos curar isto.

 

Carlos Gouveia Martins

 

 


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