13/4/21
 
 
Afonso de Melo 11/02/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Na aldeia espanhola

“Existe uma aldeia espanhola em que as mulheres são quase bonitas, os homens quase honestos, as esposas quase fiéis, os ladrões quase ladrões”, escreveu um dia Nelson Rodrigues. Tal como neste país que é o que o mar não quer, nas palavras de Ruy Belo, estamos cada vez mais na fronteira do quase à beira de cair para coisa nenhuma. De todos os quases que fazem parte da nossa quotidiana existência, quase nada nos falta para podermos construir um país. Portugal precisa de ser feito e ninguém o faz. Por incúria, por preguiça, por os homens terem quase vontade e os canalhas não terem nenhum quase que os impeça de serem canalhas por completo.

Voltámos a estar quase presos em casa, embora com tantas exceções que somos quase livres. Só não nos libertamos desta quase lama que nos engole como areias movediças, presos entre o ser e o não ser, que é, no fundo, o tal quase de que falava o Nelson. Há dentro de cada um de nós, individual ou coletivo, um mundo de trevas ainda por desbravar. De repente, qualquer coisa que não sabemos explicar traz à superfície o pior da natureza de que somos feitos. Na aldeia espanhola da nossa agora quase vida, somos quase nós, mas nunca nós por inteiro porque, para se ser inteiro, é preciso ter passado, presente e futuro e, neste momento, só temos quase futuro. Da aldeia espanhola da minha varanda vejo o Sado quase parado. Vejo as nuvens quase paradas. Vejo-me a mim quase parado. Na aldeia espanhola do quase país não tenho vista para lado nenhum, apenas paredes em branco nas quais dá vontade de escrever algo que faça os quase mortos regressar à quase vida. Um dia, em Belfast, li num muro: “Is there death after live?” Era um grito. Um grito contra o quase desconhecido. Na aldeia espanhola do quase Portugal, já ninguém grita de aflição, nem nos muros da cidade. Haverá morte para além desta quase vida? E ninguém tem a resposta. Nem quase...

 

 


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