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"Estive 45 minutos em reanimação. Assisti duas vezes ao meu próprio funeral"

"Estive 45 minutos em reanimação. Assisti duas vezes ao meu próprio funeral"

DR Maria Moreira Rato 11/02/2021 08:45

Durante quase um mês, João Barbosa, atleta de alta competição de 22 anos, trilhou a linha ténue entre a vida e a morte. Agora, após uma paragem cardiorrespiratória em recuperação, o jovem alerta para a escassez de recursos médicos que também afeta os doentes não covid.

“A vida muda num instante. Sentas-te para jantar e a vida, como a conheces, termina”, escreveu a norte-americana Joan Didion. Mal sabia João Barbosa, 22 anos, atleta de alta competição, que esta passagem d’O Ano do Pensamento Mágico descreveria os 45 minutos em que teve uma paragem cardiorrespiratória que o levaria a um internamento de duas semanas na unidade de cuidados intensivos do Hospital de São João, no Porto, no pico da pandemia de covid-19.

A guerra contra uma malformação genética cardíaca desconhecida foi composta por variadas batalhas e uma delas constituiu a sobrevivência, durante sete dias, sem recurso ao ECMO – oxigenação por membrana extracorporal – de que tanto necessitava.

Das provas desportivas ao mal-estar “Este ano foi atípico e eu passei-o a treinar muito. O desporto que faço, trail running, é individual, digamos assim, e treinei mais do que nunca”, começou por desabafar João Barbosa, recém-licenciado em Ciências da Nutrição pela Universidade Católica do Porto.

“As aulas e o estágio foram quase todos a partir de casa e o tempo que antes era gasto nas deslocações serviu para correr mais”, diz o atleta. Tinha duas provas essenciais, 100 milhas estafetas e o campeonato nacional, mas considerava-as suficientemente espaçadas para “recuperar e estar a cem por cento nas duas”.

No entanto, o surto de covid-19 em Penacova, vila do distrito de Coimbra onde se realizaria a competição, obrigou a alterar a calendarização. “Entre 2 e 11 de outubro tive apenas uma semana para recuperar de uma prova muito longa, e com restrição de sono, o que não era ideal”, recorda o atleta natural do Porto.

Todavia, não desistindo, realizou a primeira prova “e as sensações não foram as melhores”, recorda ao i. “Aos 10 km tive uma sensação de desmaio, mas associei-a ao frio porque estava a uma altitude bastante elevada e havia granizo que caía com muita intensidade, o vento era muito forte e tinha o corpo gelado”. Decidiu terminar a prova de 100 milhas estafetas com a qualidade que lhe é associada.

“Durante essa semana fiz três treinos muito curtinhos e realizei a prova do campeonato. Estive bem”, considera. Porém, novamente perto dos 10 km, sentiu perda de visão e falta de força. “Pensei que seria do cansaço, nunca tinha experienciado algo semelhante. A 500 m da meta, pareceu que o meu corpo se ia desligar e entrei em taquicardia”. Terminou a prova a caminhar.

Em primeira instância, o futuro nutricionista considerou que os sintomas pudessem ter que ver com overtraining – um fenómeno que se caracteriza pelo facto de uma pessoa exceder a capacidade de recuperação de exercícios extenuantes – porque, a título de exemplo, tirou férias, mas acordava às 6 horas para ir correr.

Ainda assim, optou por fazer exames e análises para compreender o que se passava com o seu corpo. “Fui ao meu médico de medicina desportiva e ele passou-me alguns exames. Fui fazer uma corrida ligeira e comecei a ter uma taquicardia, parei e não desaparecia. Voltei para trás a caminhar e, durante 2 km, os batimentos não baixavam”.

Dirigiu-se às urgências de um hospital privado, fez análises e marcou uma consulta de cardiologia para o dia seguinte. A médica indicou que fizesse um eletrocardiograma com Holter – que permite estudar o comportamento do coração ao longo do dia –, um ecocardiograma e uma ressonância magnética.

“A doutora disse que estava a ter arritmias graves que podiam originar morte súbita, e foi esse cenário que me assustou mais”, revela. Em 24 horas, teve 1300 arritmias, que ocorrem quando os batimentos cardíacos não têm um ritmo normal ou são irregulares.

Procurou a opinião de um cardiologista desportivo. “Mostrei-lhe os exames e ele aconselhou-me a realizar uma prova de esforço. Completei-a e, durante a recuperação, tive a paragem cardiorrespiratória”, evocou João.

A paragem cardiorrespiratória “Tenho falhas de memória mas, por aquilo que me contaram, estive 45 minutos em reanimação, foi muito difícil”, esclarece o jovem. “O médico que estava comigo iniciou as manobras de suporte básico de vida, o INEM chegou cinco a sete minutos após a paragem e também realizou as mesmas manobras”.

João foi reanimado e transportado para o Hospital de São João, no dia 13 de novembro. Teve uma segunda paragem, com a duração de 15 minutos, mas foi novamente reanimado. Foi levado para a unidade de cuidados intensivos, ala onde esteve sempre sedado porque tinha “constantemente” arritmias.

“Estava muito débil porque estive muito tempo sem entrada de oxigénio, tinha um grande volume de dióxido de carbono no corpo, estava num estado muito mau”, declara.

Os lapsos de João sobre esses longos minutos em que caminhou pela linha ténue entre a vida e a morte são colmatados pela memória prodigiosa de Rita Domingues, sua namorada, também de 22 anos. Formada em Bioengenharia pela Universidade Católica do Porto e mestranda em Engenharia Biomédica, começa por dizer que o jovem, depois de ter tido a paragem, ficou inconsciente e não acordou até cerca de dez dias depois.

“Não teve o aporte necessário de oxigénio aos órgãos do corpo. Os riscos que havia eram o de vida e o das lesões cerebrais. Foi colocado em coma induzido no hospital e ventilado”, resume.

“Era uma situação muito grave, mas nunca se sabe se as pessoas nos ouvem. Havendo essa hipótese, falámos e achamos que a nossa intervenção pode tê-lo ajudado”, continua. “Desde aí, rezamos o terço todos os dias e, inclusivamente, fomos ao Santuário de Fátima enquanto o João esteve em estado grave”.

“Os médicos estudaram os resultados da prova de esforço e identificaram o local de onde vinham as arritmias”, explica Rita, não esquecendo de partilhar que aquilo que originou a paragem cardiorrespiratória do namorado e que o tornou instável foi o facto de ter arritmias fatais que só estavam a ser controladas por ocorrerem em ambiente hospitalar.

No entanto, durante sete dias, os entes queridos de João viveram com uma incerteza: com as máquinas ECMO a serem usadas pelos doentes covid-19, o circuito extracorporal que substitui a função pulmonar e cardíaca podia não chegar até ele.

O desespero de um médico “Quando o João entrou no hospital tinha grandes possibilidades de precisar do ECMO, mas estavam 21 doentes com a máquina, quase todos covid-19”, recorda Roberto Roncon, médico coordenador de medicina intensiva do Hospital de São João.

“Nunca tinha posto tantos doentes ao mesmo tempo na máquina. Ele acabou por recuperar. Foi uma história feliz, mas podia ter sido de insucesso pelo panorama que vivemos. Os doentes não covid não deixaram de existir”, remata o profissional de saúde, que já lidou com mais de 300 casos do novo coronavírus e, acima de tudo, com os mais graves.

“Senti uma grande angústia, mas já me habituei a lidar com ela. Desloquei-me ao local, fui ter à sala de emergência e tentei ajudar da mesma maneira que faria se tivesse ECMO. Temos de ajudar com os recursos que temos”, explana o também professor de Fisiologia da Faculdade de Medicina do Porto.

“Houve cinco a dez minutos que foram dos piores da minha vida como médico. Saber que podia ser útil a um doente, a um miúdo, e não ter o equipamento necessário foi horroroso”, prossegue. Roncon considera que “as discussões covid e não covid” devem ser separadas “porque estamos a viver um momento único”.

“Perante o descalabro de saúde pública que vivemos, não temos os recursos suficientes para nada. Claro que temos de ter tudo, mas não podemos ser demagógicos e dizer que temos de ter tudo”, diz o intensivista, que passou três meses sem folga para estar incondicionalmente na linha da frente no combate à covid-19.

“Apesar de tudo, temos uma boa infraestrutura de ECMO”, explica, adicionando que “cada vez mais, o que se defende é que a estrutura do ECMO – uma vez que tem muitos riscos, existe uma grande aprendizagem envolvida, tem custos elevados – não deve ser dispersa, mas sim concentrada em grandes centros hospitalares”.

“E isto é possível porque podemos ir buscar os doentes aos diferentes hospitais”, ideia esta que se conecta a situações como a da transferência de um doente covid-19, a 30 de janeiro, do Hospital Amadora-Sintra para o de São João, num dia em que se contabilizavam 15 doentes internados nos cuidados intensivos desta instituição com recurso a esta técnica.

“Existem dois grandes tipos de ECMO: o ECMO-VV, o respiratório, que substitui a função do pulmão; e o ECMO-VA, que fornece assistência respiratória e hemodinâmica, isto é, substitui o coração e o pulmão. Por isso, nós designamos o ECMO como máquina coração/pulmão”, conclui Roncon.

Entre a luz ao fundo do túnel e as alucinações Os médicos perceberam que João “tinha um foco ectópico que teria de ser eliminado”, diz Rita, aludindo a um impulso cardíaco que surge de um ponto isolado de um ventrículo e que é provocado por contrações ventriculares prematuras.

Até ao momento em que realizou a ablação – considerado o procedimento mais eficiente para o tratamento definitivo das arritmias cardíacas, em que são destruídos tecidos que as desencadeiam ou promovem, utilizando cateteres flexíveis –, João esteve nos cuidados intensivos em estado crítico, foi entubado, ventilado, comeu por sonda, fez uma infeção respiratória e um coágulo sanguíneo que os médicos conseguiram eliminar graças à ablação, que teve a duração aproximada de quatro horas.

“Tal foi possível porque esteve ligado ao ECMO. Mas como é um equipamento de cariz muito invasivo, à sua retirada, o João fez um trombo na perna que originou uma grande hemorragia e, consequentemente, uma pneumonia”, lembra Rita.

“Os médicos foram tentando sempre acordá-lo. Sempre que reduziam a medicação, o João ficava muito agitado porque, como é jovem, basta tirar um bocadinho que fica muito ativo, despertava logo”, lembra a rapariga, que sofreu ao ver o namorado sofrer alucinações.

“Essa foi uma parte chata. Eram os momentos em que diz que sentia paz. Não sabia aquilo que se passava”, recorda com a mágoa marcada na voz.

“Assisti duas vezes ao meu próprio funeral. Era um bocado estranho porque parecia que me sentia muito fraco e começava a imaginar a minha família a despedir-se de mim no velório. Até vi imagens da cremação”, conta o atleta. “Também imaginei que o hospital vendia bocados do corpo de quem morria e que compraram um pé meu porque sou corredor. Na altura não teve muita piada mas, hoje, consigo rir-me”, diz com a tristeza misturada com o sentido de humor.

O rapaz achava que estava no hospital há sete meses, como se tivesse lá entrado em setembro. Dizia que era março de 2021, mas era novembro de 2020. ”Quando me visitavam, eu fazia gestos para o ar porque imaginava que havia um boneco que negociava tudo comigo, desde tratamentos médicos à oportunidade de ver a minha família e a Rita. Julgava que ia morrer e ia deixar os meus pais cheios de dívidas”, relembra.

“Quando lhe tiravam um bocadinho os sedativos, ficava tão alerta que tinha logo arritmias. Em coma induzido, ficava tranquilo. O João é uma pessoa que pensa muito nos outros. Pode estar mal, mas tem de ver os outros bem”, nota Rita, olhando para João com ternura.

“Tinha a noção de que podia morrer e chegou a dizer aos pais, por ser filho único: ‘Já não passo desta noite, ainda vão a tempo de adotar uma criança’. E quando achava que eu tinha outra pessoa dizia que eu só ia ao hospital por pena e que só me queria ver feliz, fosse com ele ou com outro rapaz. Dizia isto no meio das alucinações, mas sabia que a essência dele estava preservada, era o João a falar”, termina.

A recuperação João perdeu sete quilos de massa muscular enquanto esteve nos cuidados intensivos, tendo regressado a casa no dia 14 de dezembro. À época tentava esticar a perna sentado, por exemplo, e não conseguia. “Se um chinelo me caía do pé, parecia um inútil que não conseguia apanhá-lo e calçá-lo outra vez”, conta.

“O João não conseguia pegar nos talheres para levar a comida à boca, ou coçar-se, ficava extremamente cansado. Recuperou rapidamente face ao panorama inicial”, divulgou Rita, explicando que “agora tem um Respiron, um aparelho de fisioterapia respiratória, como os doentes covid, que o ajuda na parte pulmonar, porque o facto de ter sido ventilado reduziu-lhe a capacidade respiratória”.

“Não conseguia subir a primeira bola e agora consigo manter as três bolas no topo do aparelho durante algum tempo, que era algo que me parecia mesmo muito difícil”, relata o atleta, que viveu outro pesadelo quando, há cerca de três semanas, o CDI – cardiodesfibrilhador interno – que lhe foi colocado durante a cirurgia disparou.

“Devia ser meia-noite e tal e o João levantou-se do sofá e foi à casa de banho”, explica Rita, acrescentando que o rapaz sentiu uma tontura e procurou logo a cama para se sentar. E, quando estava a fazê-lo e prestes a dizer-lhe que se estava a sentir mal, o CDI disparou. “Ele foi projetado porque o choque elétrico tem mesmo muita potência. Ficou quieto, muito vermelho, e só disse: ‘Levei um choque’”.

“Entrou nos cuidados intensivos, não por ser necessário, mas sim porque tinha de estar monitorizado e só havia vaga lá”, continua Rita, esclarecendo que o corredor fez exames para perceber se havia algo errado em termos cardíacos, foram feitos ajustes à medicação e regressou a casa volvidos cinco dias.

“Vi bastantes pessoas a morrer à minha volta, doentes não covid”, diz João, sendo secundado pela namorada: “Vimos os recursos limitados, embora os médicos estivessem sempre lá e nos dessem muito conforto”.

“Tem de se alertar para o número de infetados e mortos, mostrar os hospitais, mas isso já não chega”, defende Rita com alguma revolta. “As pessoas não se sentem sensibilizadas. Até mesmo o apelo que o João faz não surte o efeito que devia. As pessoas podem ir parar ao hospital por um motivo que não tem nada que ver com a covid-19 e verem os recursos limitados. Se as pessoas viverem aquilo que vivemos, vão perceber. No limite, o João podia ter ficado um vegetal”.

 

 

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