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9 de fevereiro de 1952. O cadáver do rei gago não tinha pressa de descer ao túmulo

9 de fevereiro de 1952. O cadáver do rei gago não tinha pressa de descer ao túmulo

Afonso de Melo 09/02/2021 09:02

Jorge VI assumiu a coroa no lugar do irmão, que desistiu de ser rei por causa de uma mulher. Com o tempo, ganhou a estima dos ingleses e a sua morte prematura, aos 56 anos, embrulhou Londres num manto de tristeza.

Três dias após a morte de Jorge vi, a Inglaterra não bradava como de costume “O Rei morreu; viva o Rei”, mas antes “O Rei morreu; viva a Rainha”. Rainha Isabel ii, que ainda está confortavelmente instalada no trono, apesar da sua provecta idade.

Albert Frederick Arthur George morreu em Norfolk, no dia 6 de fevereiro de 1952, vítima de um cancro num pulmão, ele que fumava como uma chaminé. Foi encontrado sem vida no seu quarto, acabado de sofrer uma trombose coronária quando tinha apenas 56 anos. Isabel, segunda do nome, estava em viagem oficial à colónia do Quénia e viu-se obrigada a regressar a Londres.

O funeral estava marcado para dia 9. Depositado inicialmente na Igreja de Santa Maria Madalena, em Sandringham, o seu cadáver foi transportado com pompa e circunstância digna de Elgar para Westminster Hall. Aí, na Capela de São Jorge, ouviram-se as palavras derradeiras sobre o falecido.

Pelas 11 horas da manhã, o féretro foi colocado no armão de artilharia pintado de verde, puxado por seis cavalos baios. Os ingleses não brincam com funerais. Ainda por cima quando se trata de gente fina, como membros da família real. Ao longo do percurso, o féretro foi acompanhado pelo duque de Edimburgo, marido da nova rainha Isabel, corajosamente a pé e a um ritmo muito lento.

Vendo bem, nessa manhã fria de Londres, ninguém tinha muita pressa. Não há mortos apressados em ocupar o seu lugar, indicado pela Senhora da Gadanha. E aqueles que os acompanham nas horas finais também costumam guardar o dia para as homenagens, deixando as obrigações para os dias seguintes.

11h55: o caixão chega à estação ferroviária de Wolferton. No mesmo comboio do rei morto seguiram Isabel, sua filha, outra Isabel, sua esposa, bem como os duques de Gloucester e de Edimburgo, este a merecer um ligeiro descanso depois da caminhada levada a cabo. O trajeto até Londres é de 160 quilómetros. Depois, a chegada a King’s Cross, cais n.o 1. Panos negros por toda a parte. Três armas formaram a guarda de honra: a Marinha Real, o 2.o Batalhão dos Coldstream Arms e a Royal Air Force apresentaram armas no momento em que o esquife chegou à estação.

 

O povo Jorge vi foi um rei estimado

O povo quis tomar parte na sua despedida. Dez homens pertencentes à Companhia do_Rei e aos Granadeiros carregaram o caixão para que os súbditos pudessem vê-lo. A coroa, símbolo do império, foi pousada sobre a urna. Em seguida, o cortejo pôs-se em movimento.

Os duques voltaram a ter a missão de seguir o esquife a pé. Vestidos de negro, pareciam os corvos que pousaram, solenes, no barco mortuário de_São Vicente. Fechava o cortejo outro destacamento, este a cavalo. Isabel Bowes-Lyon, a rainha-mãe, não tinha grande pachorra para estes desfiles. Decidiu fazer o percurso de automóvel e convenceu as filhas, Isabel e Margarida, a acompanhá-la. Chegaram cedo, muito antes do falecido. Tiveram de esperar. Mas os mortos têm esse jeito especial de se fazerem esperar, até mesmo naquele lugar onde Pedro está à porta com o chaveiro na mão.

Pelas ruas que o cortejo atravessou, as portas estavam fechadas, o comércio encerrou por completo, agentes da polícia londrina formavam fileiras para que nenhum cidadão mais exaltado resolvesse saltar para o meio do caminho. Devagar, muito devagar, o grupo arrastava-se perante os olhares curiosos, quase mórbidos.

Mr. Fisher, arcebispo de Cantuária, foi uma ausência notada e comentada. Atacado por uma bronquite terrível, teve ordens expressas para ficar em casa por parte dos clínicos que o vigiavam. O substituto seria o segundo posto da Igreja Anglicana, Cyril Garbett, arcebispo de Iorque.

Cento e cinquenta marinheiros em traje de gala, formados ao som do tambor, instalaram-se à porta de Westminster Hall. Outros dez marchavam cadenciadamente – um passo por segundo – e pegavam nas cordas de seda vermelha onde repousava o caixão do rei desaparecido.

Chovia em Londres. O céu estava escuro. Mas isso não impediu que a gente saísse à rua. Cerca de 25 mil pessoas apertavam-se nos passeios para tentarem espreitar pela última vez o seu rei. Centenas de flores juncavam as ruas. O reverendo Anderson, capelão pessoal do rei, fez uma pequena homilia. Armações de madeira foram erguidas para poderem receber alguns dos milhares e milhares de curiosos que, de minuto a minuto, iam surgindo movidos por aquela habitual morbidez tão profundamente humana.

O neto da Rainha Vitória, aquela que conquistou um império onde o sol nunca se punha, ia descer à terra envolto num ambiente de sincera tristeza. O homem que substituíra o irmão, Eduardo viii – impedido de reinar por se ter casado com uma mulher americana divorciada, Wallis Simpson –, e para o qual se previa um reinado desastroso, sobretudo porque não conseguia discursar sem gaguejar muito audivelmente, soube conquistar a estima dos seus súbditos. No momento tristonho do seu adeus, no qual até o céu resolveu chorar, o silêncio imperou no meio da multidão. Esse silêncio que foi para ele, muitas vezes, o seu mais leal amigo. Jorge não gostava muito de palavras...

 

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