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Ana Jacinto. "Neste confinamento já não há almofada financeira"

Ana Jacinto. "Neste confinamento já não há almofada financeira"

Miguel Silva Sónia Peres Pinto 09/02/2021 13:35

A secretária-geral da AHRESP apela ao reforço de verbas por parte do Governo aos empresários que foram obrigados a fechar por decreto.

Há rumores sobre a abertura da restauração no final de abril. Estava à espera?

Em termos de reabertura não sabemos o que vai acontecer. E relativamente aos temas de medidas sanitárias temos dito sempre desde a primeira hora que não temos informação suficiente nem conhecimento técnico para dizer se as medidas são adequadas ou não. Mas compete-nos dizer outra coisa: o setor não pode ficar encerrado como está durante mais algum tempo sem sabermos exatamente quanto temos de apoios que nos permitam aguentar esta tragédia. Acabámos de concluir o nosso inquérito relativo ao mês de janeiro (ver páginas 16/19) e evidencia que há empresas no limite da sobrevivência. Demonstra que os apoios não estão a chegar, são insuficientes, e não estão a conseguir aguentar empresas e postos de trabalho, que aquilo que nos preocupa muito. Metade do setor está com atividade totalmente encerrada não funcionando sequer em take-away e delivery. O cenário é catastrófico. Na passada sexta-feira já fecharam apoios importantíssimos a fundo perdido para o setor. O Apoiar.pt já está encerrado. O Apoiar Rendas era muito importante antes do confinamento, mas agora com o confinamento precisamos que nos ajudem a pagar a renda porque os estabelecimentos estão encerrados e a faturação é zero. Isto é a prova do que a AHRESP tem dito: os apoios acabam por vir tarde, são escassos e não estão a chegar às empresas todas. Os apoios encontram-se dispersos, têm demasiadas vírgulas e são demasiado complexos para que estas empresas e pequenos empresários ­ que representam 95% do tecido empresarial, os percebam. Alguns não conseguem aceder e outros são postos de parte porque não são elegíveis. Há uma fatia grande que está a ficar para trás. Temos proposto ao Governo que era urgente pensarmos num mecanismo único de apoio às empresas que permitisse de uma só vez de forma simplificada e concentrada através de uma única candidatura as empresas pudessem recorrer a apoios em vez de termos não sei quantas candidaturas dispersas cada uma com regulamentos diferentes e condições de acessibilidade diferentes. Ainda não tivemos resposta desta nossa proposta e, além disso, é preciso reforçar os apoios. Apoios importantes já esgotaram e as empresas continuam encerradas e continuam sem faturar. Até quando vão aguentar?

Mas ainda há fundos do programa Apoiar?

Tenho empresas a quererem concorrer e não estão a conseguir. Segundo a informação que está disponível no site do Compete 2020 é que esgotou a votação. Não temos outra informação. Mas os apoios precisam de estar disponíveis porque as empresas estão encerradas. Como digo, 50% nem sequer em take-away ou em delivery estão a funcionar porque não é rentável e os custos associados a essas operações têm comissões que têm que ser pagas às plataformas e muitos dos estabelecimentos não têm essa capacidade, nem rentabilidade para isso e optam por encerrar totalmente o estabelecimento.

Esta possibilidade de só poderem abrir no final de abril apanhou os empresários de surpresa?

Não é oficial, não sabemos. Se tal decisão vier a ser tomada, é bom que seja acompanhada de apoios sob pena de estas empresas não conseguirem aguentar. Mesmo estando encerradas, têm custos todos os dias que têm que ser pagos. E tem de haver liquidez para pagar esses custos. Mesmo os apoios à manutenção dos postos de trabalho que é uma das questões que mais preocupa os empresários, implicam uma percentagem que tem de ser paga pelas empresas. Neste confinamento já não há a almofada que havia no primeiro porque vinham de anos bons, tinham reservas, poupanças e só assim foi possível ir aguentando o confinamento. Mas já estamos há praticamente um ano neste estado de dificuldade. Os empresários já não têm mais dinheiro para pôr nas empresas. Esta é que é a grande dificuldade. Se não encontramos capacidade para colocar tesouraria nas empresas é evidente que elas não se vão aguentar e vamos pagar todos uma fatura muito cara mais para a frente.

Como vê estas festas ilegais, pessoas a sair, restaurantes a funcionar...

Isso tem sido residual, só que depois cria-se um grande alarido à volta do assunto. As empresas são obrigadas a encerrar e têm que cumprir aquilo que o Governo vai decretando. É preciso é haver equilíbrio, mas estamos a fracassar nesse equilíbrio, o que está a levar muitos empresários e muitas empresas ao desespero porque muitas não estão a ser apoiadas e por um problema ou por outro acabam por ficar excluídas dos apoios.

Há uma série de condições que faz
com que as empresas fiquem de fora dos apoios.

O Governo foi, ao longo dos tempos, corrigindo algumas coisas mas continuamos a ter questões que afastam empresários. Por exemplo: inicialmente não estavam abrangidos por nenhuma medida do Apoiar os empresários em nome individual no regime simplificado, só se tivessem contabilidade organizada. Agora, criou-se o Apoiar +Simples específico para os empresários em nome individual que é uma grande fatia do nosso setor. O problema é que criou este alargamento mas contempla os que têm trabalhadores a cargo. Os que não têm ficam excluídos. Outro caso: uma empresa recente não tem histórico de faturação e portanto não consegue comparar quebras. Costuma-se dizer que o diabo está nos detalhes, aqui o diabo está nas vírgulas. Quando vemos as vírgulas e condições de acesso, há muitas destas empresas que ficam excluídas e outras que, pura e simplesmente, não conseguem compreender que apoios é que podem ter e de que forma podem recorrer.

Há empresários que dizem que o facto de não vender café ao postigo foi quase a morte do negócio...

Isso é outra das questões que tentámos resolver e lamentavelmente não conseguimos. Essa questão é difícil de ser percecionada quer por parte dos empresários quer por parte dos consumidores. O que se pretende impedir é os aglomerados de pessoas à porta dos estabelecimentos. Isso é proibido. E aí é que tem que incidir a fiscalização, não é propriamente a venda do café ou da água ou do refrigerante. Não devia ter sido proibida a venda. Claro que depois há situações muito injustas porque as pessoas podem comprar a comida mas querem beber alguma coisa mas têm que ir a outras lojas onde podem comprá-las. Isto gera um sentimento de discriminação, de insatisfação e de incompreensão quer junto dos empresários, quer junto dos consumidores que também não conseguem ver as suas necessidades satisfeitas.

 

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