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Antiga fábrica das meias em leilão na internet

Antiga fábrica das meias em leilão na internet

Miguel Silva Pedro Almeida 07/02/2021 12:42

Edifício abandonado em Alcabideche, no concelho de Cascais, foi colocado em leilão online mas, por enquanto, sem sucesso, não recebendo qualquer oferta. Aguarda-se nova fase de venda.

Um edifício cinzento abandonado, de grandes dimensões e grafitado. Visível da A5, há dezenas de anos que a antiga fábrica das meias localizada entre Alcoitão e Alcabideche, no concelho de Cascais, se encontra num estado deteriorado. No entanto, tem agora um futuro incerto. Foi colocada à venda, há cerca de duas semanas, através de um leilão online – que terminou no dia 1 de fevereiro às 11h00 –, mas sem sucesso. Segundo o Nascer do SOL conseguiu apurar, este edifício, que estava a ser vendido num lote, e não em termos individuais, ficou então, para já, sem qualquer oferta de compra. «Estamos ainda a aguardar indicações por parte do ministério para saber se podemos avançar para uma nova fase de venda ou não», adiantou esta sexta-feira, a este semanário, fonte da empresa Avalibérica, que faz leilões presenciais e eletrónicos.

Apesar de toda esta incerteza em torno da venda do edifício desta antiga fábrica, há já quem diga que no local vai ser construído um condomínio. Mas aquilo que o Nascer do SOL apurou foi que se trata de terrenos estratégicos que só podem acolher projetos ligados à saúde ou à educação, entre outros, e nada relacionado com habitação.

Edifício que permanece à deriva
Por agora, continua a ser apenas um edifício devoluto, mas não tão abandonado quanto isso. Há muitos anos que a prática de paintball e de airsoft – jogo em que os participantes fazem simulações de operações policiais e militares – se tornou recorrente neste espaço. Mais recentemente, há até simulações de cenários de guerra com drones. Ao Nascer do SOL, Luís Pereira, de 44 anos, revelou que este seu «hobby dos drones» tem sido explorado naquele local, com equipas de airsoft.

«Na última vez que lá fui, no ano passado, encontrei uma equipa a treinar. Eram quatro jogadores, penso que federados. Estavam a fazer lá uns treinos. Eu cheguei com os drones, comecei a falar com eles e achámos piada mostrar um pouco do cruzamento de hobbies, o meu e o deles. Então eles simularam um confronto de guerra e eu meti-me ali a tentar contar uma história dentro daquilo que eles estavam a fazer», relatou, acrescentando que colocou posteriormente as filmagens do drone no Facebook e, passado pouco tempo, começou a ser contactado por jogadores que queriam que lhes filmasse os jogos. 

«Com esta equipa ficou combinado, um dia, quando houver possibilidade depois do confinamento, irmos lá à fábrica e, no topo do edifício, fazer umas imagens com bombas de fumo. E talvez voar com um drone diferente», disse. No entanto, se o edifício for novamente colocado em leilão online, estes planos de Luís não deverão poder concretizar-se, ele que sempre foi para lá desde miúdo. Sempre conheceu o local como abandonado, mas foi a partir dos 13 ou 14 anos que começou a ir para lá brincar. 

«Fascinava-me o facto de aquilo ser uma infraestrutura tão grande que parecia que tinha passado por uma guerra. O ambiente que se sentia lá era do género do Holocausto. Por isso é que em criança adorávamos aquilo. Andávamos sempre por lá, a subir e a descer aquilo, antes ainda de estar pintado com graffiti. Estava mesmo abandonado. Segundo sei, parece que tiraram as máquinas e levaram tudo dali de um dia para o outro», recordou, explicando que ia para a antiga fábrica sempre contra a vontade dos pais. 

«Lembro-me de ser miúdo e de ter muita curiosidade sobre aquilo. Os meus pais contavam-nos aquelas histórias de que ali era para onde iam os drogados ou onde desmontavam carros, para nos meterem medo e não irmos para lá», disse. 

Mais tarde, quando cresceu, dedicou-se ao mundo dos drones e foi muitas vezes para o edifício para «fazer filmagens mais cinematográficas» e também para «descomprimir». «Nunca me tinha encontrado com pessoal a praticar airsoft ou paintball, mas via lá aquilo sempre preparado como se fosse um cenário de guerra. Via as bolas de paintball pelo chão. Vê-se sempre também lá dentro um carro incendiado, mesmo no interior da fábrica. E muitos graffiti, era para ali que iam grafitar à vontade», esclareceu Luís.

Jogos de airsoft combinados nas redes sociais

Há vários grupos no Facebook dedicados à prática de airsoft. E há muitos anos que os jogos na antiga fábrica de meias são agendados através desta rede social. «Jogo dia 22 de julho na antiga Fábrica das Meias em Alcoitão, Cascais», pode ler-se numa publicação no grupo Família Airsoft, em 2012.

De acordo com Luís Pereira, estes jogadores são praticamente todos federados e todos os jogos são devidamente organizados para que nada falhe. «Eles levam aquilo muito a sério», garantiu.

No entanto, em tempos de pandemia de covid-19 e de confinamento geral, a prática destes jogos tem sido adiada para travar o contágio do vírus. As associações de airsoft existentes têm, por isso, apostado mais a nível digital. A Associação Nacional de Airsoft (ANA-APD), por exemplo, apresentou aos sócios, no final de janeiro, uma plataforma digital interativa de venda, compra e troca de materiais e equipamentos exclusivamente de airsoft.

«Mesmo sem eventos, a tua APD continua a trabalhar. Desta feita decidimos aproveitar esta altura pandémica para reforçar as nossas plataformas digitais e trazer mais uma grande novidade», pode ser lido numa publicação no Facebook.

Mas antes de a covid-19 chegar a Portugal, a prática de airsoft sempre teve o seu lado solidário. No Alentejo, por exemplo, 130 jogadores faziam uma vez por ano uma doação de bens alimentares a uma instituição de solidariedade social. Os jogadores, em vez de pagarem inscrição, juntavam bens de primeira necessidade que entregavam à associação Pão e Paz, de Évora, que apoia mais de uma centena de famílias.

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