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As Forças armadas no combate à pandemia

As Forças armadas no combate à pandemia

José Manuel Neto Simões 05/02/2021 11:47

As Forças Armadas (FA) têm estado na linha da frente no combate à pandemia quer com equipas de descontaminação e de apoio ao rastreamento quer no apoio ao plano de vacinação da Covid-19 e disponibilidade do Hospital das FA (HFAR) ao Serviço Nacional de Saúde (SNS).

A resposta face a pandemias passará a ser certamente uma prioridade de segurança nacional. Por isso, será de bom senso, não deixar de investir nas FA, pois já demonstraram a sua eficácia nas missões de interesse público – como o apoio a crises sanitárias- sem colocar em causa a sua missão definida pela Constituição.

Com efeito, as FA executam aquilo que os decisores políticos determinam e, numa crise como esta, ajustam o seu apoio aos órgãos do Estado em função das necessidades.

A Instituição militar é configurada para enfrentar as condições mais difíceis da guerra e aprontam um espetro de recursos tão variado que nenhuma outra organização dispõe: desde capacidades de comando e controlo, ao planeamento, à gestão de logística e material, ao suporte médico e proteção Nuclear, Biológica, Química e Radiológica, ao transporte e engenharia, das informações às comunicações estratégicas e até pesquisa e desenvolvimento. E uma capacidade de adaptação a cenários exigentes com elevados níveis de prontidão.

Mesmo sem estar ao comando de operações (a não ser das suas) desde o início da pandemia que as FA têm proporcionado diversos apoios, a vários níveis a várias entidades.

No âmbito das acções de rastreio mais de 700 militares já efetuaram cerca de 220 mil contactos. O objectivo dos rastreios é isolar os infectados e assim controlar e quebrar as cadeias de transmissão do vírus. Os inquéritos exigem muito dos operadores (civis e militares) e, como o pior ainda não foi ultrapassado, os militares têm vindo a aumentar mais horas de empenhamento.

Neste quadro de grave crise sanitária o HFAR duplicou a capacidade para doentes infectados com Covid-19. Para o efeito foram disponibilizadas 212 camas no Pólo de Lisboa e 74 no Pólo do Porto – incluindo enfermaria e cuidados intensivos. Foram também activados sete centros de acolhimento em unidades militares dos três Ramos, no Continente e Ilhas, com um total de 698 camas.

As FA disponibilizam ainda militares com experiência na actividade de planeamento para apoiar a tomada de decisão das estruturas do Ministério da Saúde (MS).

Na vacinação as FA têm tido um papel importante no apoio ao MS, tendo em conta o plano logístico, com o seguinte dispositivo: equipa de militares no MS para apoio à decisão; militares no local onde são recepcionadas e distribuídas as vacinas e uma equipa de oficiais no EMGFA, que faz um conjunto de modelos matemáticos essenciais no apoio à task-force, que tem a responsabilidade pelo plano de vacinação, cuja liderança está atribuída a um militar (Vice-Almirante Gouveia e Melo).

Além disso, têm sido efectuadas acções de sensibilização em cerca de 2700 lares de idosos respondendo a solicitação do Ministério do Trabalho e Segurança Social. Essas acções são feitas por equipas que apoiam os profissionais desses lares, nomeadamente na definição de circuitos para trânsito, utilização de equipamentos e procedimentos sanitários. Para além dessas acções no local também são efectuadas outras por videoconferência.

O transporte aéreo de doentes tem sido muito comum nas FA, mas com esta crise que vivemos o apoio específico da Força Aérea – aeronaves, equipamentos e militares treinados - tem-se tornado mais visível.

Outra área muito importante de colaboração – sem tanta visibilidade – é a distribuição e cedência de material logístico, nomeadamente camas e centenas de tendas para os Hospitais de campanha quer no continente quer nas regiões autónomas.

As FA têm que estar organizadas e preparadas, em tempo, para cumprir as missões atribuídas pelo poder político com as capacidades militares com meios e efectivos necessários, em função do nível de ambição, adoptado sem sofisma. E assumindo os riscos de ameaças que não respeitam as fronteiras.

O País necessita, pois, de FA polivalentes – com a valorização do principio do duplo uso - para actuar na defesa militar e operações de paz e humanitárias, e também no plano não militar, centrado nas missões de interesse público e cooperação civil-militar.

As pandemias, catástrofes, conflitos e crises não avisam. Os compromissos vão passar a ser muito mais exigentes numa UE fragmentada ao nível da segurança e defesa.

As questões de natureza ambiental e sanitária estão a tornar-se preocupações securitárias em todo o mundo. Por isso, importa ter consciência que  os instrumentos militares dos Estados são muito úteis para ser empenhados nestas circunstâncias.

Nesta pandemia as FA foram adaptando as capacidades militares àquilo que eram os desafios da crise. E esta é a grande vantagem da Instituição militar. É que esta capacidade ímpar de apoiarem as necessidades do país em situações imprevistas, só é possível porque os militares treinam para combater.

Como importante instrumento da identidade, coesão e soberania nacionais é responsabilidade política conferir estabilidade e dignidade às FA para que o país nelas se reveja com orgulho.

José Manuel Neto Simões
Capitão-de-Fragata (R)

O autor não segue o acordo ortográfico

 

 

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