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Carlos Gouveia Martins 04/02/2021
Carlos Gouveia Martins

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E a vacina contra a impunidade?

Assistimos com desplante a um nascimento de retórica dos errantes, ao estilo mais depressivo da negação da verdade: “Ou vacinava este que não pertencia à lista ou ia uma dose para o lixo”. Só falta dizer que a vacinarem fora dos grupos prioritários estão a salvar a humanidade.

É impossível não refletir friamente sobre a forma contundente com que, alguns, conseguem descredibilizar um Plano Nacional de Vacinação que se queria não só credível como inquestionável. Um plano, dividido em três fases, que se quer cumprido até ao terceiro trimestre de 2021 e que, nesta altura do campeonato só devia ser motivo de celebração e alegria.

Um dia depois do Coordenador do Plano Nacional de Vacinação ter apresentado demissão, é preferível focarmos o país na sua consciência de que já houve outros portugueses que anteriormente a Francisco Ramos já se tinham demitido de contribuir para a credibilidade do processo de vacinação daquilo que é, à data, o bem mais precioso de toda a Humanidade: A vacina para o vírus SARS-CoV-2 e consequentemente para a doença COVID-19.

Sim, refiro-me aos irresponsáveis que projetaram a desconfiança nacional sobre as listas prioritárias. Aqueles dirigentes, autarcas e coisa nenhuma que erraram ao vacinarem quem não pertencia à lista prioritária e quem não estava incluído nesta fase de vacinação. Todos aqueles que vacinaram familiares, os que por perto estavam, os que criaram grupos dos grupos para grupos que legitimavam alguma coisa e coisa nenhuma às suas indevidas vacinas.

Assistimos com desplante a um nascimento de retórica dos errantes, ao estilo mais depressivo da negação da verdade: “Ou vacinava este que não pertencia à lista ou ia uma dose para o lixo”. Só falta dizer que a vacinarem fora dos grupos prioritários estão a salvar a humanidade.

Alguns, poucos, muito poucos, casos até podem ter razão de ser. Podem efetivamente ter administrado vacinas a pessoas que, à data não seriam vacinadas, porém efetuaram essa leitura assente em boa vontade e por estarem entre essa realidade de aproveitamento do frasco e da dose. Confessemos que sim, a exceção também aqui fará a regra.

Mas vamos ser racionais.

A sério, vamos deixar de lado a demagogia e o populismo de quem se tenta justificar sem justificação.

Em caso de administração de vacinas, há sempre uma janela de tempo em que, claramente, há capacidade funcional para que seja possível a articulação do responsável de saúde com quem coordena as vacinas a nível local para identificar as chamadas “doses a mais”. Há tempo para que os responsáveis validem quantas doses irão sobrar num determinado local de administração de vacinas a um determinado grupo prioritário. Há tempo e, nesse momento, o mesmo tempo que levam a “chamar” o familiar - ou quem seja -, podem usar para articular com as autoridades para então vacinar alguém do corpo de bombeiros mais próximo, algum membro daquele serviço municipal de proteção civil e até profissionais de saúde que ainda não tenham sido vacinados. Sim, ainda não estão todos os profissionais de saúde vacinados e há quem se dê ao luxo de se sentir prioritário porque “coiso e tal”.

Vamos por partes. Repito, há quem não tenha errado propositadamente. Porém, há claramente quem saiba que inverteu as prioridades de todos para ele próprio ser prioritário à frente de outro. E esses, os que erraram sabendo disso, não merecem impunidade e muito menos solidariedade. Merecem que os seus exemplos sejam averiguados e divulgados para que outros não os cometam. A impunidade, esta tolerância a estes crimes morais, não faz falta.

A vacinação indevida tornou-se um “novo-normal”. Diariamente nascem novos casos de quem passou à frente de alguém. Diariamente assistimos a justificações obtusas de alguém que sabe que errou e tarda em assumir. Diariamente ouvimos desgastarem governantes sobre como se pode conter esta “epidemia” de impunidade dos aproveitadores de algo que não têm (ainda) direito.

Este acumular de casos trouxe ao de cima várias premissas. Primeiro, que é manifestamente um erro assumirmos que a civilização evoluiu em 2020 num caminho com único sentido no foco da maior solidariedade humana. Segundo, que a classe social não confere imunidade à moralidade. Terceiro, que a injustiça se manifesta muitas vezes em grupo, pelo acumular de casos isolados, e que nem sempre a força da razão vence a razão pela força. Quarto, o justo paga sempre pelo pecador.

Porém, sejamos sinceros, neste país há uma dúzia de casos “erráticos” conhecidos e talvez uma centena por conhecer ainda, mas falamos em mais de dez milhões de habitantes. Quando há vários pontos negros numa parede branca, nós conseguimos identificá-los bem, no entanto a parede não deixou de ser branca.

Portugal tem muito mais que estes incumpridores que nos preocupam – e bem - pelo que fazem. Portugal tem profissionais de saúde incríveis. Portugal demonstra diariamente, no bom lado das redes sociais, que tem autoridades disponíveis para auxiliar, desde a proteção civil aos bombeiros voluntários e demais forças de segurança, que são igualmente incríveis.

Temos a força de com menos que outros países fazer muito mais e melhor.

Mais coisas boas: Nas últimas 24 horas foram vacinados 8.826 portugueses. Neste momento temos 350.945 vacinas administradas em Portugal contra a COVID-19. Que estes números aumentem, com a chegada de mais doses de vacinas ao nosso país, e que continuemos unidos no caminho de recuperação e retoma da saúde pública face a esta doença.

Por estes dias, uma vacina contra a impunidade dos incumpridores não era de rejeitar, mas acredito que já temos imunidade de grupo contra as más exceções.

Carlos Gouveia Martins

 

 


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