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Gilles Lipovetsky. A política e a leveza que perpassam o nosso tempo: o fim das finalidades e a ansiedade irrestrita

Gilles Lipovetsky. A política e a leveza que perpassam o nosso tempo: o fim das finalidades e a ansiedade irrestrita

Pedro Miranda 02/02/2021 16:57

Para o pensador francês Gilles Lipovetsky (Da leveza, Edições 70, 2016), a leveza, em si mesma, não é má. Apenas "a leveza fútil erigida em ideal de vida supremo" (p.333). Em realidade, "o perigo não é a leveza frívola, mas a sua hipertrofia, quando invade a vida e sufoca as outras dimensões essenciais da existência: a reflexão, a criação, a responsabilidade ética e política. 

A leveza de frivolidade não é uma coisa dramática em si mesma, e só se torna dramática quando se impõe como modo de vida dominante a ponto de abolir aquilo que faz uma vida humana «rica». Haverá algo mais aborrecido do que a frivolidade?" (p.333). Diferentemente, "a verdadeira leveza" reclama "trabalho esforçado, disciplina, coragem de suportar as dificuldades", em uma luta "contra a agitação e o frenesim do mundo moderno" (p.334). Uma vida sem leveza - o "amar tudo o que existe" (nietzscheano) -, perderia a sua graça, embora a chave de acesso à mesma não se encontre num programa - um livro, um conselho, seja o que for -, sendo a brevidade da sua natureza.

Em Da Leveza, e concentrando-me, por ora, no capítulo final, dedicado ao político, Lipovetsky observa que o momento inicial de um tempo descentrado do futuro, afastado das grandes narrativas, dos grandes sistemas de sentido teve na "economia da leveza consumista" um lugar charneira: "alterou a relação dos homens consigo próprios, com a sociedade e com a História" (p.310). Diversamente dos maiores críticos desta sociedade centrada no consumo, porém, o filósofo francês pretende mostrar o outro lado da moeda - as consequências (potencialmente) positivas que esta sociedade aduz ao campo político -, quando não (quase que exibe) a sua preferência e defesa deste mesmo estádio cultural em que nos situamos. Na medida em que, sobre uma dada estação (societária), apenas divisar-se sinais de condenação e anátema se afigure como algo pouco interessante ou produtivo, a interpretação de Lipovetsky poderá revestir-se de certa pertinência (neste dilucidar do tempo que vivemos e de encontrar zonas propícias para nele nos integrarmos); na medida em que a análise possa, eventualmente, escamotear o que, neste entorno social, se presta a consequências francamente negativas, é menos útil.

"Pátria", "nação", "revolução", "social-democracia", "liberalismo", ou "comunismo" serão palavras que hoje não mobilizam. As consequências trágicas dos totalitarismos do século XX tornaram a suspeita sobre as ideologias de tal modo aguda que a desmobilização se tornou a opção (preferida). Mas não só: uma sociedade consumista tende a centrar-se nos interesses individuais, e muito menos no que é "público". As pessoas estão menos interessadas, e muito pouco aptas, a um pensamento sistemático, elaborado, e centram-se em pequenas causas, fragmentárias, com um interesse ocasional - não necessariamente apatia - pela política. Esta, perdeu o (seu) carácter "heróico". Todavia, questionar-se-á o leitor, se se pede tanto à política, se a revolta contra o "establishment" é tão grande, se a "raiva" contra políticos que torpedearam essa plataforma que poderia mudar para melhor as vidas de tantos cidadãos, se o irrealismo no que se pede à política face ao que a política pode dar é tão manifesto, não há aqui uma dimensão justamente "heróica" assacada à política (mesmo que nela não nos envolvamos, ou inscrevamos "heroicamente")? Como compreender esta contradição (e estas expectativas)? Por regra, não se é (a generalidade das pessoas não é, hoje), portanto, segundo Lipovetsky, um "social-democrata hard" ou um "liberal hard", etc., porque não se investe apaixonadamente (nem sistematicamente, de modo racional-dogmático) na ideologia. Isto, sublinha o ensaísta, leva a que, por exemplo, e ao contrário do que muitos pensam, a democracia esteja mais consolidada do que nunca: não havendo apaixonados, na globalidade, por sistemas e ideologias contrários/alternativos à democracia, como os houve no séc.XX, isso significa uma consolidação e aceitação da democracia - que, assim, nunca será posta em causa - como não havíamos tido (até há poucas décadas). 

Será mesmo assim? Por um lado, verificamos o aumento sistemático de desafeição/desconsolidação democrática detalhado, em resultado de sucessivos inquéritos, ao longo de anos (em particular, junto dos cidadãos norte-americanos, mas atravessando várias outras nacionalidades e sua população), entre outros, por Yascha Mounck (em particular em “Povo vs Democracia”); por outro, quando observamos os inquéritos relativamente ao empenho que o Estado deve (ou não) ter em matéria de protecção social, evocando, de novo, o exemplo estado-unidense, vemos como o eleitorado se divide, sistematicamente, ao meio (seja qual for o candidato dos dois maiores partidos norte-americanos, cada bloco não desce abaixo dos 40%, com lógicas, pois, muito sedimentadas). Ora, isso pode levar-nos a perguntar se não há uma linha muito clara de identidade política (nestes termos, nomeadamente, do papel do estado da Economia) que não transformando, necessariamente, alguém em "social-democrata hard" ou "liberal hard", ou, muito menos, com um pensamento global sistematizado em algum dos lados (relativamente ao campo político em que se situa) vincula uma parte significativa do eleitorado. 

Note-se, ainda, que Lipovetsky não se refere apenas a "religiões seculares" (ideologias), mas, ainda, às religiões propriamente ditas como tendo perdido a capacidade de influência e conformação (dos indivíduos e das sociedades) que antes haviam tido. Desaparece a fronteira Igreja-mundo, por exemplo, regista. 
De acordo com o autor, os ataques terroristas perpetrados por jovens ocidentais "são a prova da incapacidade do universo frívolo para responder a todo um conjunto de exigências de fundo dos indivíduos hipermodernos: sentido da vida, identidade social colectiva, referências estruturantes, auto-estima" (p.308). O sentido da vida, pois, é demandado, segundo esta visão - que, assim, em rigor, acaba por se afastar da ideia de ‘A era do vazio’ (do mesmo autor) de que "não há sentido e ninguém quer saber". O recuo dos sistemas de sentido, reconhece aqui o filósofo, pelo contrário, se permitiu a emancipação individual - a destradicionalização - deixou a pessoa num estad(i)o de enorme desorientação (ansiedade, stress).

Sobre o tema do racismo, tão presente em nossas sociedades, Lipovetsky assinala: "tanto em França, como noutros países europeus, assistimos a uma liberalização da expressão racista e antissemita, a um aumento das declarações abjectas que visam os ciganos, os muçulmanos, os judeus e os negros: o discurso racista já não é tabu. Enquanto o populismo se desenvolve um pouco por toda a Europa, cerca de três em cada dez franceses declaram-se «bastante racistas» ou «um pouco racistas» (...) [Porém] O racismo contemporâneo abandonou a ideologia da hierarquia das raças e já não sustenta uma visão desigual dos homens: o outro já não tem um carácter substancialmente diferente. Podemos detestá-lo, mas já não é um ser ontologicamente diferente" (p.309). Lipovetsky não explica porque o "detestamos", e como tal se compagina com o nos considerarmos iguais. Isto, numa sociedade que está longe de, em todos os campos, assentar em acquis da ciência para deixar de discriminar - o que implicaria uma lógica racional da qual nos vemos muito afastados. O "novo" e o "velho" são catalogações ou ingénuas ("não voltaremos a ouvir falar de racismo"), ou interessadas ("os protestos são uma coisa do século XIX"). A História permanece em aberto.

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