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"Tudo aquilo que tínhamos imaginado foi ultrapassado"

"Tudo aquilo que tínhamos imaginado foi ultrapassado"

Carlos Costa/AFP Marta F. Reis 02/02/2021 08:28

Raquel Guiomar, do INSA, integrou a equipa que testou os repatriados de Wuhan, dias intensos em que não se imaginava a dimensão da pandemia, recorda.

Há um ano já se estavam a testar casos suspeitos de covid-19 em Portugal, mas a chegada dos 20 portugueses repatriados de Wuhan, a 2 de fevereiro, acabou por ser o primeiro de muitos dias intensos que se seguiriam. Raquel Guiomar, responsável pelo Laboratório Nacional de Referência do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), fez parte da equipa de três elementos do instituto que entrou na “bolha” dos repatriados, na altura encarregada dos registos das colheitas de amostras feitas à chegada ao país. 

Chegados do epicentro de Wuhan, já depois de várias semanas de quarentena na China, todos viriam a dar negativo, mas o protocolo foi meticuloso – com vários países a seguir o mesmo critério de testes à saída e à chegada e isolamento de 14 dias. “Chegaram e fizemos naquela noite os testes. Foram sempre acompanhados pelo INSA e pela saúde pública, e no final da quarentena voltámos a testar para poderem ser encaminhados para a sua residência”, recorda a responsável. “Foi intenso para todos. Vinham cansados, tiveram de passar por muitos controlos numa viagem muito longa e com todo um aparato que foi acionado à data, mas, apesar disso, estavam contentes por terem conseguido chegar e mostraram-se completamente disponíveis para serem avaliados por nós. Depois do stresse que tinham passado, era insignificante. Como tínhamos todos aqueles fatos, só nos viram a cara no fim dos 14 dias”.

142 laboratórios fazem testes

O primeiro teste de um caso suspeito de covid-19 foi feito, em Portugal, a 24 de janeiro, no INSA, e por esta altura, há um ano, começavam a suceder-se – inicialmente, todos feitos no laboratório de referência e, depois, primeiro nos hospitais de referência. Hoje, os testes PCR ao SARS-CoV-2 são feitos já em 142 laboratórios no país. No início de março, quando foram confirmados os primeiros casos de covid-19, tinham sido testados mais de 80 suspeitos no país. Seguiram-se cada vez mais testes e mais casos confirmados – chegados ao fim de janeiro, Portugal soma mais de 700 mil casos de covid-19 confirmados ao longo dos últimos meses, a maioria na segunda vaga e, agora, nas últimas semanas – e 7,1 milhões de testes feitos entre PCR e, nos últimos meses, os chamados testes rápidos. 

Ao rever os últimos meses no laboratório de referência, Raquel Guiomar não hesita: “Tudo aquilo que tínhamos imaginado foi ultrapassado. Muitas das pessoas que trabalham no laboratório tinham tido a experiência da pandemia em 2009 e, mesmo quando pensávamos que poderia haver muitos mais pedidos de testes, não podíamos imaginar. Em 2009, no INSA, testámos 16 mil amostras (suspeitas do vírus da gripe H1N1) entre abril e janeiro de 2010; em fevereiro, a pandemia estava praticamente resolvida. Neste momento estamos a atingir as 115 mil amostras só aqui no INSA. Em 2009, a rede que deu início à rede do covid-19 já existia, ao longo de dez anos eram já mais de 20 laboratórios que apoiam a rede de vigilância de infeções virais e, nesse ano da pandemia, tinham sido 65 mil amostras em todo o país”.

“Acreditamos que este vírus vá ficar para sempre” Raquel Guiomar recorda que a partir de certa altura, com o H1N1 em circulação endémica já fora da pandemia, passou a recomendar-se não testar os casos ligeiros de infeção respiratória, o que deverá acontecer mais tarde com o SARS-CoV-2. ”Neste momento ainda não estamos nessa fase, ainda estamos a tentar controlar a transmissão com uma situação pandémica, mas acreditamos que este vírus vai ficar para sempre. Vai adquirir uma circulação sazonal, como os coronavírus, e o que temos para os outros coronavírus é que, quando há uma infeção grave, faz-se uma bateria de testes, mas os casos ligeiros não são diagnosticados laboratorialmente. Mas isto será o cenário quando o vírus entrar num círculo sazonal normal”. 

Numa altura em surgem apelos a uma maior testagem no país, Raquel Guiomar sublinha que a capacidade laboratorial tem vindo a ser reforçada em função das necessidades de diagnóstico no país, mas a prescrição depende sempre da infraestrutura a montante dos laboratórios que permita prescrever e seguir quem faz os testes. “Há sempre condicionantes que não permitem testar de repente o dobro, está tudo inserido num sistema que tem as suas limitações”. Haveria vantagem? Para Raquel Guiomar, neste momento está a ser possível dar resposta aos pedidos de diagnóstico. Em termos de controlo de transmissão, acredita que a questão vai colocar-se com maior premência quando o país começar a desconfinar. “Vai ser um desafio para que o controlo da transmissão possa manter-se mesmo quando as medidas restritivas comecem a ser levantadas. E a necessidade pode não ser apenas aumentar a testagem, mas direcioná-la para contextos específicos em que seja muito importante monitorizar casos que surjam, limitando cadeias de transmissão”.

 

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