14/5/21
 
 
Manuel J. Guerreiro 29/01/2021
Manuel J. Guerreiro

opiniao@ionline.pt

Portugal colossal

Ontem, depois de ouvir atentamente a comunicação ao país, de Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, não pude evitar a perplexidade perante dois dos vários pontos referidos, a determinada altura do seu discurso, em virtude de certos acontecimentos que, entretanto, tiveram lugar e foram tornados públicos pelos órgãos de comunicação social.

A primeira perplexidade decorre da questão das aulas em virtude do encerramento das escolas. Disse o Senhor Presidente da República:

"Temos de estar preparados para confinamento e ensino à distância, mais duradouros do que se pensava antes desta escalada".

Pois é… Mas acontece que não estamos nada preparados para coisa absolutamente nenhuma. Por essa razão o Ministério da Educação resolveu suspender as aulas durante quinze dias e proibiu os privados que, ao contrário do público, estão bem mais preparados para avançar, desde já, com as aulas online no decurso do novo confinamento que passou de uma eventualidade a uma realidade.

Esta bizarra paragem lectiva coerciva enquanto ‘solução’ do Governo para garantir a igualdade de oportunidades dos alunos – tristemente noticiada pela comunicação social estrangeira – deveria fazer corar da mais inquietante vergonha qualquer sociedade de um país moderno da União Europeia, supostamente evoluído e tecnologicamente avançado, como seria de esperar do país da web summit, da transformação digital e do Ministério da Modernização do Estado e da Administração Pública…

A gestão da igualdade de oportunidades tem de ser nivelada por cima e nunca por baixo. Deve ser sempre positiva em vez de negativa. Mas a verdade é que não há aulas até dia 8 de Fevereiro, pura e simplesmente, por não as terem previsto e, consequentemente, preparado. É inacreditável que isso aconteça quando já passámos pela experiência (e que de uma forma geral até correu bem) e tivemos todo o Verão e o Outono para o ter feito.

A segunda perplexidade está relacionada com o tema das vacinas, subdividindo-se em dois pontos. Afirmou o Presidente da República:

"Temos de continuar a vacinar sempre melhor e ainda mais depressa. E sem criar especulações que nos enfraqueçam".

Então mas não existe um problema seríssimo, ao nível da União Europeia – uma vez que as compras foram feitas directa e centralmente pela UE – com os prazos de entrega das vacinas encomendadas por manifesta incapacidade produtiva dos fornecedores, impedido assim o cumprimento do calendário inicialmente previsto? Não será esta afirmação presidencial uma absoluta especulação que só nos irá enfraquecer, na medida em que não podemos continuar a vacinar melhor e mais depressa? Confesso que não entendi o alcance desta afirmação.

Prosseguiu o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa:

"Ninguém de bom senso quereria fazer passar centenas ou um milhar de titulares de cargos políticos, ou de funcionários por muito importantes que fossem, de supetão, à frente de milhares de idosos com as doenças mais graves, e, por isso, de mais óbvia prioridade".

Não? Tem a certeza Senhor Presidente?

De acordo com as várias notícias que foram sendo divulgadas durante os últimos dias, designadamente, com as muitas declarações pessoais de deputados da República, uns a prescindir (numa atitude louvável) da vacina, por não pertencerem a nenhum grupo de risco, disponibilizando a sua dose a quem mais precisa de entre esses mesmos grupos de risco. Enquanto outros tornaram público um entendimento exactamente contrário, bastando-se a condição de titular de cargo de órgão de soberania para garantir prioridade, como por exemplo o deputado de 32 anos do PS Eduardo Barroco de Melo que, aliás, se deu agora a conhecer aos portugueses, ao defender que os deputados devem ser incluídos nos grupos prioritários da vacinação contra a Covid-19, criticando a cedência ao populismo daqueles que rejeitaram a vacina.

Como facilmente se identifica, este é um dos mais notáveis imberbes que deambulam pela Assembleia da República e dos bons exemplos daquilo que faz crescer o mal-estar geral do povo com o estado de coisas a que este país político chegou!

Mas muito pior que as teorias ético-políticas destas formiguinhas socialistas inúteis ao parlamento, à democracia e à República, foi aquilo que veio a público, através da SIC, logo a seguir à comunicação do Presidente da República, sobre mais um escândalo que envolve, precisamente a vacinação contra a Covid-19 em Portugal.

Uma destacadíssima desconhecida militante socialista local, de seu nome Natividade Coelho, que dirige o centro distrital da Segurança Social de Setúbal, terá sido vacinada, conjuntamente, com outros 126 funcionários da Segurança Social de Setúbal por si dirigida. Segundo a mesma notícia, "terão sido indevidamente vacinados contra a Covid-19, por terem sido incluídos numa lista da qual só deveriam constar utentes de lares ou quem com eles trabalha nas instituições".

Entretanto, ao que parece, o Ministério da Segurança Social terá já ordenado um inquérito com carácter de urgência, uma vez que, note-se, “a ministra não teve conhecimento de qualquer vacinação".

Digam lá, como é que se pode levar a sério um país em que o seu Presidente é traído desta maneira insuportável por acções e omissões de um Governo de gente pouco séria que mantém em funções, por toda a administração pública, uma autêntica teia de parasitas militantes político-partidários que ocupam cargos sem nenhum mérito nem competência de serviço público?

Uma gente indigna, sem qualquer preparação técnica, nem noção ética!

São pessoas como estas, os maiores inimigos da democracia. Aliás, este comportamento é um inestimável contributo ao fortalecimento crescente dos populismos mais frenéticos.

O que se espera de um Estado decente, perante uma situação desta natureza (e há muitíssimas mais por este país-a-dentro envolvendo outras questões) é o afastamento imediato desta directora-militante que trata como seu aquilo que é do povo português para o qual "trabalha".

O Estado tem de ser implacável e proceder a uma limpeza radical que elimine os comportamentos desviantes dando total garantia de que, quem prevarica, nunca mais possa, alguma vez, voltar a desempenhar qualquer cargo ou função na Administração do Estado. Directa ou indirecta. Central ou local. Pois, como é manifesto no caso concreto, a senhora não tem idoneidade para o desempenho de funções públicas.

Depois disto, só me lembrava da rábula dos bêbados “Agostinho e Agostinha”, eternizada pelos saudosos Ivone Silva e Camilo de Oliveira, no icónico programa humorístico "Sabadabadu" da RTP, no já muito longínquo ano de 1981.

"Este país é um colosso. Está tudo grosso, está tudo grosso!"

 

Jurista.  

Escreve de acordo com a antiga ortografia.         


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