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Afonso de Melo 28/01/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

O feitiço da solidão

Há pouco menos de um ano recebemos a notícia de que nos iriam encerrar nos espaços mais curtos que encontrassem, ligeiramente mais pequenos do que campos de concentração e com direito a idas aos supermercados. 

Há pouco mais de um ano, o mundo ainda não estava fechado como uma ostra defendendo a sua pérola, e a palavra liberdade tinha um som mágico de cristais de gelo que se partem. Há pouco mais de um ano, eu estava no Cáucaso, calcorreando os caminhos que medeiam entre Erevan e Tbilissi no comboio noturno que rodeia a Ossétia do Sul, porque a Ossétia, essa, já estava fechada, como continua fechada há muito tempo. Há pouco menos de um ano recebemos a notícia de que nos iriam encerrar nos espaços mais curtos que encontrassem, ligeiramente mais pequenos do que campos de concentração e com direito a idas aos supermercados. Tal como Pinheiro de Azevedo, não gosto de estar sequestrado e esta gente insiste em sequestrar-nos. Entre Alcácer e o Montalvo, onde o cárcere do meu amigo/irmão Francisco Febrero – por extenso, Xitó – é ligeiramente mais espaçoso do que aquele onde vivo, na Rua Rui Salema, regressamos ao sequestro de março e abril de 2020. Até agora, a todo-poderosa humanidade, cada vez mais doente, não foi capaz de encontrar uma forma de se defender do sinistro e silencioso mal que a ataca senão sequestrando-nos. Por isso cabe-nos perguntar se é preferível morrer da companhia se da solidão, tendo para mim que estão ambas infetadas. “A única coisa que se sente nos lugares solitários do Cáucaso é uma profunda ternura pelas pessoas, uma grande fraternidade. Uma vez sob o feitiço do Cáucaso, nunca mais nos libertamos”, escreveu Negley Farson, um tipo que, além de escrever livros, gostava de pescar e, para além de pescar, gostava de escrever livros sobre a pesca.

Talvez um dia desista desta incomodidade de me sentir mal a cada sequestro a que seja sujeito e descubra o feitiço do Cáucaso por entre os pinheiros-mansos que se enfileiram pela estrada de Alcácer. Talvez descubra o feitiço de deixar de escrever e me dedique por inteiro à situação de sequestro que me impõem. Talvez nessa altura já tenha esquecido a ternura e a fraternidade. E seja apenas um bloco de gelo estaladiço que faz um som de cristais que se quebram quando cai.

 

 


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