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Carlos Zorrinho 28/01/2021
Carlos Zorrinho
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A colina de Biden

Sem o espírito renascido, o penhasco da doença, da xenofobia, das desigualdades e da exclusão 
não se deixará vencer.

A investidura de Joe Biden como o 46.o Presidente dos Estados Unidos da América tinha tudo para não ser comparável a nenhuma das que tinham acontecido anteriormente, na já longa história da América independente. O contexto sanitário, que reduziu a presença física ao mínimo, a personalidade, as atitudes e as ameaças do Presidente democraticamente deposto, a invasão do Capitólio por uma horda de extremistas e negacionistas inspirados pelo extremismo e pela negação desse Presidente, a magnitude dos desafios que o mundo enfrenta e, com ele, enfrenta também a sua nação mais poderosa, eram motivos mais do que suficientes para que 20 de janeiro fizesse confluir em Washington um caldeirão de sentimentos, de emoções contraditórias e de atenções fortes.

Muito se escreveu sobre o que poderia acontecer naquela cerimónia histórica e muito se continuará a escrever sobre a reversão tenaz que a nova administração iniciou, reposicionando a América como um país de referência na reconfiguração da ordem global, em contraste com o percurso errático e alucinado da administração cessante. Algumas imagens fortes da cerimónia ficarão para sempre gravadas na nossa memória. Uma delas será a recordação da beleza, da frescura e da inspiração com que a jovem poeta Amanda Gorman disse o seu poema “A colina que subimos”, tocando forte pelo contraste o coração de uma nação e de uma comunidade global que se sentia (e com mais esperança de mudança, ainda continua a sentir) a rolar por um perigoso penhasco de divisão, intolerância e ódio. 

Cada verso do poema de Amanda é uma elegia e um resgate das entranhas do orgulho americano, sem renegar a sua história, sem deixar ninguém para trás na formação da sua identidade. Ela falou de “uma nação que não está quebrada, mas está inacabada” e, com esta mescla de junção de um barro deslaçado e de invocação de um desafio comum, chamou todos à tarefa da subida da colina, em que Biden será porta-bandeira, mas só será bem-sucedida se os cidadãos, as empresas e as instituições forem os protagonistas.

Porque, como desejou ainda Amanda, apelando a que o que separa os americanos não se sobreponha ao que os aproxima, “Nós estamos a procurar erguer uma união com propósito. Formar um país aberto a todas as culturas, cores, carateres e condições humanas”, e porque “se quisermos estar à altura do nosso tempo, a vitória não está na lâmina da destruição, mas em todas as pontes em construção”.

É doce podermos vogar ao sabor de um belo e inspirado poema. A realidade com que Joe Biden e a sua equipa vão confrontar-se na Casa Branca terá menos rimas e será bem mais angulosa. A pandemia recrudescente, a economia sangrando emprego, as plataformas tomando o controlo da verdade consentida. Sem o espírito renascido, o penhasco da doença, da xenofobia, das desigualdades e da exclusão não se deixará vencer. Por isso termino este texto voltando a citar a poeta. “Há sempre uma luz se formos suficientemente bravos para a ver, se formos suficientemente bravos para o ser”. Têm de ser bravos os americanos. Temos de ser bravos todos nós. 

Eurodeputado


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