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Violência doméstica. "Ele diz que eu nem para sustentar duas crianças sirvo"

Violência doméstica. "Ele diz que eu nem para sustentar duas crianças sirvo"

Maria Moreira Rato 27/01/2021 19:08

Sandra e Constança já eram vítimas de violência doméstica, mas os maus tratos intensificaram-se com a pandemia. Estudo aponta que 34% das vítimas foi alvo deste crime pela primeira vez durante este período.

A violência doméstica não é um fenómeno novo. No entanto, um estudo mostra que a pandemia trouxe novos contornos ao problema: 34% das vítimas foi alvo deste crime pela primeira vez durante este período.

 

O pesadelo do género feminino

Sandra (nome fictício) tem 45 anos, dos quais 20 têm sido de agonia. A técnica de Marketing, que vive em Vila Nova de Gaia, conheceu o atual marido aos 25 anos. “Quando namorávamos, as coisas não corriam muito bem, mas achei que, assumindo o compromisso tudo poderia melhorar”, revela.

Mas, volvidos cinco, quando se casou, o panorama não evoluiu favoravelmente. O homem não tardou em partir para as agressões físicas. “Quando estava grávida da nossa primeira filha, que hoje tem 14 anos, deu-me murros na barriga. Mas, sempre que eu chorava, prometia que nunca mais voltaria a tocar-me, comprava-me flores e chocolates, fazia teatrinhos, dizia-me coisas bonitas e eu perdoava-o”, declara.

Contudo, a situação repetiu-se quando engravidou do filho, que hoje tem 12 anos, e a violência tem escalado. “Os meus pais não imaginam aquilo que vivo, gostam imenso dele e gabam-no, como se fosse o genro perfeito. O meu ordenado foi reduzido devido à pandemia e ele tem a coragem de dizer que eu nem para sustentar duas crianças sirvo, que tem de ser ele a pôr o pão na mesa”, confessa, entre lágrimas.

O testemunho de Sandra vai ao encontro do estudo VD@COVID19 levado a cabo pela Escola Nacional de Saúde Pública em colaboração com outras entidades, como o Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais - CICS.NOVA.

Os resultados preliminares do projeto indicam que o contexto de pandemia e o efeito das medidas de combate à propagação do vírus potenciam o risco de violência doméstica.

 

O poder das palavras

Com vista a conhecer o fenómeno, os investigadores do projeto recolheram, entre abril e outubro de 2020, um total de 1062 respostas a um questionário online. O desenho do estudo levou a uma maioria de inquiridos com ensino superior, o que permitiu incluir grupos sociais que frequentemente têm menor participação em estudos deste cariz.

Mestre em Ensino do 1º e 2º Ciclos do Ensino Básico, Constança (nome fictício), de 39 anos, de Setúbal, encaixa noutros parâmetros do projeto. São as pessoas do género feminino quem mais reporta ser vítima de violência doméstica (15,5% das mulheres) durante este período e o tipo de violência mais relatada é a psicológica.

“Sempre disse que nunca levaria uma chapada de um homem, que nunca admitiria que me levantassem a mão ou insultassem, mas houve a primeira, a segunda, a terceira vez e tudo começou a juntar-se como uma bola de neve”, relata a professora que, neste momento, ainda tem marcas das agressões físicas do namorado. Mas considera que as mais graves são as psicológicas.

“Eu não posso ter amigos. Entrei em pânico só de imaginar que teríamos de estar em confinamento novamente porque, durante o primeiro, ele chamou-me puta e cabra, todos os dias, por eu simplesmente trocar mensagens no WhatsApp com um colega”. Não faz queixa “por medo, muito medo de ser morta”, integrando, desta forma, os 72% de vítimas que não procuram ajuda nem denunciam o crime.

De acordo com o estudo, os principais motivos para este flagelo não ser denunciado incluem considerar que o abuso não foi grave e acreditar que as autoridades não fariam nada. “Apesar de tudo, não sei se o odeio ou amo. Acho que nutro os dois sentimentos e não quero vê-lo atrás das grades”, remata Constança.

Os efeitos do novo coronavírus, como o agravamento das desigualdades socioeconómicas, e o aumento de consumo de álcool, medicamento e drogas e dos sentimentos de mal-estar e stress associados, potenciam o risco de violência doméstica.

O fenómeno tem especial relevo entre os mais jovens e menos escolarizados. E são as pessoas que reportam dificuldades económicas ou cuja atividade profissional foi prejudicada pela pandemia quem mais se identifica como vítima de violência doméstica.

 

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