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Hospitais da periferia de Lisboa pedem distribuição equilibrada de doentes. "Não está a acontecer"

Hospitais da periferia de Lisboa pedem distribuição equilibrada de doentes. "Não está a acontecer"

AFP Marta F. Reis 27/01/2021 08:30

Documento dirigido à ARS e à ministra da Saúde no último domingo, a que o i teve acesso, critica gestão regional. Na semana passada já havia três hospitais para lá do pior cenário dos planos de contingência. Queixam-se de esforço desigual.

Com o número de doentes a aumentar de dia para dia, estalou o verniz na coordenação entre os hospitais de Lisboa e o protesto já chegou ao Ministério da Saúde. Sete administrações de hospitais da área metropolitana assinaram um documento conjunto sobre o esforço que está a ser pedido às diferentes unidades, considerando que a distribuição de doentes não está a ser “equilibrada”. O argumento: o número de doentes internados nos hospitais mais periféricos na área metropolitana versus hospitais centrais, com menores taxas de esforço. No documento a que o i teve acesso esta terça-feira, e que sabe ter sido enviado à Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo no passado domingo, com o conhecimento da ministra da Saúde e dos secretários de Estado, os responsáveis do Centro Hospitalar Barreiro-Montijo, Centro Hospitalar de Setúbal, Hospital Beatriz Ângelo (Loures), Hospital Garcia de Orta (Almada), Hospital José de Almeida (Cascais), Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca (Amadora-Sintra) e Hospital de Vila Franca de Xira, traçam o ponto de situação no fim da semana passada e pedem uma distribuição mais equilibrada de doentes entre centro e periferia.

O título da missiva é mesmo esse: apelo. “Existem, naturalmente, diferenças locais, as quais têm implicado que essa pressão assuma valores diferentes entre os hospitais, mas é evidente que a cintura de Lisboa é a área mais flagelada pela pandemia e pela sua expressão em procura de cuidados hospitalares”, dizem os administradores hospitalares, apresentando o cálculo das taxas de esforço por hospital que, como o i noticiou esta semana, não são dados públicos e tem estado a fazer crescer a preocupação nas estruturas hospitalares, que começaram entretanto a ver negados pedidos de desvio de doentes das urgências. “Os Centros Hospitalares de Setúbal e Barreiro/Montijo e os Hospitais Beatriz Ângelo, Garcia de Orta, José de Almeida, Prof. Doutor Fernando Fonseca e de Vila Franca de Xira apresentam taxas de esforço do seu internamento de doentes covid-19 em enfermaria, no dia 22 de janeiro, situados entre os 45% e os 71%”, escrevem os responsáveis, traçando em seguida a comparação com os centros hospitalares universitários de Lisboa Central e Lisboa Norte, com ocupações de 25% e 32,1% na mesma data, “uma taxa claramente abaixo do valor médio dos hospitais da região (44,4%)”. Exceção para o Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, que apresenta uma taxa de esforço de 50,6%, apontam.

Para os administradores, o problema não se verifica nos cuidados intensivos, onde “a situação é mais equilibrada”, mas sim no internamento. E rejeitam que o facto de hospitais como o Santa Maria e São José, as unidades de referência no CHLN e no CHLC, serem mais diferenciados justifique a diferença. “Não se desconhece a elevada diferenciação e capacidade dessas duas unidades, nem a dedicação e empenho das suas administrações e profissionais, mas um dos objetivos da finalmente criada gestão regional de recursos era garantir que as taxas de esforço seriam distribuídas de uma forma equilibrada entre as unidades hospitalares da região, o que não está, obviamente, a acontecer”. No ponto sete do documento, outro desabafo partilhado pelos sete hospitais perante a situação que se vive atualmente: “E quanto menor a dimensão e lotação dos hospitais, maior é a dificuldade de encontrarem recursos humanos e físicos adicionais para enfrentarem a procura crescente”.

“Empenhamento semelhante” O documento conclui então com o apelo: “Neste momento em que os centros hospitalares de Setúbal e Barreiro/Montijo e os Hospitais Beatriz Ângelo, Garcia de Orta, José de Almeida, Prof. Doutor Fernando Fonseca e de Vila Franca de Xira se encontram numa clara situação de resposta a uma catástrofe, as suas administrações apelam a que o nível de empenhamento de meios de todos os hospitais da Região de Lisboa e Vale do Tejo seja semelhante, de maneira a garantir uma distribuição equilibrada do esforço dos denodados profissionais de saúde, que se abeiram da exaustão, e a equidade dos níveis de resposta, da qualidade e da segurança da assistência aos doentes”. E sublinham que a missiva “não visa ninguém nem nenhuma instituição, mas apenas elevar a capacidade e qualidade de resposta dos hospitais públicos da região a uma ameaça que atinge, por igual, todos os portugueses”.

O pior cenário e mais improvável No documento são apresentadas as projeções feitas pela ARS de Lisboa e Vale do Tejo para a pressão da covid-19 nos hospitais já numa reformulação dos planos de contingência do início da pandemia. Segundo a tabela reproduzida pelos administradores, no “cenário mais provável e menos perigoso” seria preciso internar em enfermaria 1067 doentes com covid-19 nos hospitais da região, com uma taxa de esforço de 22% nos hospitais face ao total de camas disponíveis. Este foi um patamar ultrapassado no fim do ano passado. No nível 1, já com uma taxa de esforço de 32%, previa-se 1553 camas operacionais para doentes com covid-19. No nível 2, com 42% das camas médico-cirúrgicas alocadas à covid-19, capacidade para 2038 doentes internados. No nível 3, com 62% das camas dedicadas à covid-19, 3008 camas dedicadas à covid-19, sendo este o cenário descrito como “menos provável e mais perigoso”. Na semana passada, quatro hospitais ainda tinham menos camas ocupadas com doentes covid-19 do que estava previsto no nível 2 do plano de contingência, uma diferença de 230 que “deveriam estar operacionais”, dizem os administradores, com a maior diferença no Lisboa Norte e Lisboa Central. Em contrapartida, três hospitais, Loures, Setúbal e Vila Franca, já tinham mais doentes do que tinha sido previsto no máximo. Entretanto, apurou o i, o Amadora-Sintra também passou esse limiar crítico: ontem chegou aos 363 doentes internados, 333 em enfermaria e 30 em UCI, quando o pior cenário apontava para 337 camas de internamento dedicadas à covid.

Ainda antes de ter acesso a este documento, o i tentou perceber junto da ARS quais as diferentes taxas de esforço nos hospitais da região e por que motivo deixou de haver encaminhamento de doentes do CODU de uns hospitais para os outros. Sem fornecer a ocupação por hospital, a ARS indicou que ao dia de ontem estavam internados nos hospitais da região 2729 doentes (em enfermaria e UCI) e que no total, para doentes covid e não covid, existem na região 6632 camas de enfermaria e 422 camas de UCI.

Quanto ao encaminhamento de doentes urgentes, a ARS respondeu que “tem havido uma maior afluência às instituições hospitalares, fruto do quadro epidemiológico conhecido. Significa isto que cada um dos hospitais atende todos os doentes que estão dentro da sua área de influência.” Ontem, pelas 20h, o site do Ministério da Saúde mostrava mais uma vez um maior número de doentes nos hospitais dos subúrbios de Lisboa, com mais do dobro de doentes urgentes dos hospitais centrais. No Amadora-Sintra havia mais de 60 doentes admitidos na urgência, 18 triados como urgentes, com tempo médio de espera para observação de quase três horas, quando, pela triagem de Manchester, devem ser observados em 60 minutos. O Hospital de Loures tinha 40 doentes urgentes. Confrontados com o apelo dos sete hospitais, o Ministério da Saúde e a ARS não responderam até ao fecho desta edição.

 

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