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Pedro Vaz 26/01/2021
Pedro Vaz

opiniao@ionline.pt

Presidenciais 2021. Haverá vencedores e vencidos?

Após uma noite eleitoral um dos exercícios que costuma ser feito, na comunicação social, com regularidade incide sobre os vencedores e derrotados da noite eleitoral.

Esse exercício radica num exercício de perceções e convicções pessoais de quem o faz, dando lugar muitas das vezes a equívocos, pois pode-se ser vencedor perdendo e ter ganho, não significa necessariamente que se seja vencedor.

Para já, resulta claro que, num cenário de uma eleição com um Presidente recandidato e no meio desta pandemia destruidora, os receios de uma abstenção gigantesca acima dos 70% dos eleitores recenseados não se verificaram. Só isto representa uma vitória da resiliência dos portugueses democratas.

Por outro lado, as discussões públicas quanto ao sistema de voto ganharam um novo impulso e poderão ser uma boa oportunidade para que se leve a uma maior simplificação do exercício do mesmo. Progressos relevantes foram já feitos, através do recenseamento automático e do voto antecipado, por exemplo, mas mais deverão ser efetivados. Alerta-se apenas para a questão do voto eletrónico, muito propício a ataques cibernéticos (como se constatou nos EUA em 2016), que a avançar deverá ser através de sistemas que garantam inviolabilidade dos mesmos.

Voltando ao tema inicial acerca de vencedores e vencidos, o resultado eleitoral determinaria numa avaliação simples, que nestas eleições resultou claro um vencedor, reeleito Presidente da República – Marcelo Rebelo de Sousa – tendo os restantes candidatos sido derrotados. Embora, assim seja de facto, essa leitura não é de todo suficiente, porque incompleta.

O Presidente em exercício conseguiu a sua reeleição numa primeira volta e com reforço da sua votação, mas há não muito tempo soprava nos ouvidos da comunicação social a ambição de um eventual resultado que permitisse ultrapassar, em percentagem, a votação de Mário Soares aquando da sua reeleição em 1991. Tal não veio a suceder e Marcelo Rebelo de Sousa ficou muito longe de tal desiderato, que se foi esfumando tempos mais recentes.

Ana Gomes não conseguiu ter uma votação expressiva em si própria de modo a levar a uma 2ª volta nestas eleições. No entanto, não se poderá considerar que terá sido derrotada. Tendo em conta a tragédia pessoal recente, a falta da mobilização do Partido que é militante (com algumas exceções) em torno da sua candidatura, obteve um mais que digno 2º lugar, a confiança de mais de meio milhão de eleitores e garantiu que a esquerda democrática não saísse destas eleições humilhadas através do domínio completo destas eleições pela direita onde a extrema-direita reacionária surgiria como a alternativa. Felizmente, tal não aconteceu.

A direita tradicional e democrática e a esquerda também saem derrotadas destas eleições.

A esquerda é derrotada pela falta de comparência do PS, que preferiu o conforto do não confronto ideológico e político, e pela prevalência de uma agenda exclusivamente partidária com a proliferação de candidatos, retirando força à esquerda progressista e democrática, como um todo.

A direita portuguesa também perde e sobretudo perde-se. Entre outros fatores, assistiu-se a uma migração de eleitores do PSD e do CDS, que descontentes com o posicionamento do Presidente-candidato a revelar-se demasiado próximo dos eleitores socialistas, para o radicalismo e a candidatura oportunista de André Ventura.

Perde-se porque viu o seu líder, Rui Rio, a validar e a escancarar a porta a coligações com a extrema-direita protofascista, realçando os resultados que esse candidato teve no Alentejo, esquecendo os resultados que obteve, nos distritos onde o próprio PSD costuma ter bons resultados (Viseu, Bragança, Vila Real, etc.). Rui Rio que se diz próximo do centro-esquerda, legitimou, legitima e legitimará a ascensão da extrema-direita e os seus propósitos.

Perde-se, porque ao invés do que o fraco e impreparado líder do CDS acha (que ele e o seu partido têm sempre vitórias em qualquer eleição), o CDS já meteu os papéis para a insolvência e corre, sofregamente, para a inexistência no panorama político-partidário. Bastará, para tal, apenas o empurrão do PSD nas próximas autárquicas, acabando com as coligações que ainda têm a nível local.

A direita perde-se, porque André Ventura é como o “Chicão”, ganha sempre. É vitorioso quando diz que vai à 2ª volta nas eleições e não vai. É vitorioso quando diz que terá melhor resultado que Ana Gomes e não tem. É vitorioso quando afirma que, se não tiver mais votos que toda a esquerda, será derrotado. Sai sempre a ganhar e com o beneplácito de muitos, incluindo a comunicação social (vimos isto com Trump) que desvaloriza o que de relevante diz e releva o que de irrelevante, também, diz e faz. Mais, a situação é tão mais perigosa, quanto vermos a comunicação social e os seus comentadores residentes a usar expressões como extrema-esquerda em Portugal por antinomia à extrema-direita, dando a entender que existem partidos políticos, para além do partido que André Ventura lidera, a querer subverter a democracia interna e a Constituição (o que não é verdade). Apesar de ter tido cerca de um décimo dos votos, André Ventura é, também, um derrotado e um dos principais protagonistas da derrota da direita portuguesa nestas eleições. Cada vez que André Ventura canta vitória o PSD e o CDS perdem ainda mais que a democracia portuguesa.

A última nota para a candidatura dos yuppies das sociedades de advogados e das consultoras financeiras, que vivem num mundo à parte dos demais – os do percentil dos rendimentos mais elevados do país (embora, com um bom planeamento fiscal, pode dar-se o caso de acontecer terem rendimentos inferiores aos rendimentos dos assistentes operacionais existentes. Veja-se, a título de exemplo, a comparação das declarações de rendimentos dos candidatos que ficaram nos últimos lugares). Os 3 % de Tiago Mayan (mesma percentagem que o “Tino” de Rans, líder do Partido RIR) deverão ser comemorados com moderação, porque, mais que uma consolidação política dos liberais economicistas de direita, pode ter sido apenas o reflexo da conjuntura eleitoral. Os grandes centros urbanos não são suficientes para um crescimento, acima do residual, no panorama político nacional.

 

 

 


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