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Esquerda. "Não é de excluir uma crise política", admite Cravinho

Esquerda. "Não é de excluir uma crise política", admite Cravinho

Cristina Rita 26/01/2021 13:01

Antigo ministro socialista (e apoiante de Ana Gomes) olha para os números das eleições com grande preocupação e admite ano de instabilidade.

A direita até pode vir a estar em reconfiguração, como admitiram vários analistas políticos, mas a esquerda não teve motivos para festejar nas presidenciais da passada segunda-feira. E agora? Como ficam os partidos de esquerda? A resposta é de incerteza e dá para várias leituras. Mas há uma que para João Cravinho, antigo ministro socialista (e apoiante de Ana Gomes), é clara. “As perspetivas não se apresentam-se pró-estabilidade”. Mais, “a eventualidade de uma crise no fim deste ano não é de excluir, com eleições antecipadas para o princípio de 2022, até porque pode convir ao PS como um mal menor”, admite o também antigo parlamentar socialista. Em causa está uma crise pandémica, económica e social.

Em declarações ao i, João Cravinho olha para os números, reconhecendo a perda à esquerda face às eleições de 2016 – apesar de Ana Gomes ter ficado à frente de André Ventura, líder do Chega, de ter ficado com mais de meio milhão de votos e de ser a mulher mais votada de sempre em eleições presidenciais.

Há cinco anos, todos os candidatos apoiados à esquerda somaram 41,19% dos votos. Agora, a soma de votos de Ana Gomes, João Ferreira e Marisa Matias traduz-se em 21,19% dos votos. O cenário vai obrigar o PCP (já hoje) e o Bloco (no sábado) a fazerem uma avaliação dos resultados,

Para João Cravinho, a primeira leitura é a de que o PSD tem um problema – houve fuga massiva de votos de eleitores do PSD para André Ventura –, e a leitura de Rui Rio é a de um “líder muito distraído”. Mas à esquerda também há problemas e sinais que é preciso ir avaliando, designadamente para o PCP e para o Bloco. Porém, podem existir sinais também para o PS. E a culpa pode ser de Marcelo Rebelo de Sousa, com a sua vitória expressiva, pois o atual chefe do Estado tinha “interesse pessoal e direto para almofadar o Governo” em tempos de pandemia. O cenário até piorou mas, agora, pode não ter “necessariamente” esse interesse. No limite, os resultados das presidenciais podem dar “margem de manobra” para, em 2022 ou 2023, o chefe do Estado abrir caminho a um Executivo social-democrata. “O PS pode ser vítima do bumerangue” da estratégia de apoio de muitos socialistas a Marcelo.

Pelo caminho há questões que se podem colocar tanto ao PCP como ao Bloco de Esquerda a partir daqui. “A geringonça é um objetivo estável e prioritária cuja manutenção é prioritária para o PCP e o BE ou é um entendimento circunstancial?”, questiona Cravinho. Por isso, as eleições autárquicas podem mesmo vir a ser o teste do algodão sobre prognósticos de crise política.

João Cravinho lembra que o Bloco de Esquerda “tem pouca representação autárquica. E se continua a tê-la não pode aspirar a ser o partido grande transformador do país”. Assim, para ganhar terreno, vai fazê-lo contra quem? “Ganhar a quem?”, pergunta Cravinho, para dar resposta pronta: “Ao PS”. No caso do PCP, “com um historial recente [de resultados eleitorais] que não são muito brilhantes”, precisa de defender e conquistar câmaras. E irá fazê-lo também na luta com o PS. Será neste cenário que iniciará o debate orçamental de 2022. Assim, “as negociações para o Orçamento vão ser muito, muito difíceis”, antevê João Cravinho.

Por seu turno, para o politólogo Carlos Jalali, professor na Universidade de Aveiro), os resultados da esquerda à esquerda do PS merecem algumas notas de reflexão.

Em declarações ao i, Carlos Jalali começa por defender que ainda é prematuro dizer que há uma “reconfiguração da direita”. Afinal, ainda faltam três anos para o final desta legislatura – isto se for cumprida.

Agora, é preciso ter em conta que o eleitorado “está mais disponível, de forma geral, para olhar para alternativas políticas para lá daquelas que tradicionalmente têm estruturado o sistema político português”. Mas os números concretos tanto de Marisa Matias, apoiada pelo BE, como de João Ferreira, apoiado pelo PCP e pelos Verdes, apontam sinais que não são propriamente novos. No caso do “eleitorado do Bloco de Esquerda”, as contas são reveladoras de que é “potencialmente menos fixo, o que lhe permite ter maiores crescimentos, mas também maiores quedas”. De facto, Marisa Matias teve 10,12% (469 526 votos) há cinco anos. Agora obteve 3,95% (164 690 votos). “Há aqui um eleitorado que, porventura, tem outras opções. Pode ter sido Ana Gomes. Mas não sabemos”, acrescentou o politólogo em declarações ao i.

No caso de João Ferreira, o candidato comunista subiu a percentagem (de 3,95% obtidos por Edgar Silva em 2016 para 4,32%). Curiosamente, o também eurodeputado teve menos cerca de 2500 votos. No caso dos comunistas, o desafio é o de renovar eleitorado, uma vez que o “PCP tem um eleitorado relativamente estável, mas baixo”, advogou Carlos Jalali, assinalando que “ temos vindo a assistir a algumas perdas [eleitorais]”, designadamente nos últimos cinco anos. Os comunistas farão uma análise mais fina dos números hoje, mas João Oliveira, líder parlamentar do PCP, apontou uma das possibilidades. “Temos noção de alguma transferência de votos do nosso eleitorado para Marcelo Rebelo de Sousa”, admitiu à Rádio Observador. O dirigente comunista lembrou que venceu a tese de que era preciso resolver as eleições numa primeira volta,

Ora, à esquerda do PS também há contas a fazer sobre gastos de uma campanha que não terá o recurso à subvenção estatal. Afinal, tanto João Ferreira como Marisa Matias não chegaram aos 5% dos votos. João Ferreira tinha estimado gastar até 450 mil euros. O valor final ficará aquém deste número. E o PCP vai assumir as despesas: “Os compromissos decorrentes das despesas com a campanha, abaixo do orçamentado, serão integralmente assumidos pelo PCP”, indicou ao i a candidatura de João Ferreira, sem adiantar o valor das despesas. De realçar que também em 2016, Edgar Silva teve de contar com o apoio do PCP para cumprir os compromissos da campanha eleitoral.

No caso da candidatura apoiada pelo Bloco de Esquerda, fonte oficial diz ao i que “a candidatura de Marisa Matias, como é público, apresentou um orçamento inferior ao de 2016. Esse orçamento será garantido pelo Bloco de Esquerda. O balanço será feito nos próximos dias, sendo certo que não existirá qualquer dívida”.

 

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