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Reativação temporária das instalações do Hospital CUF Infante Santo como unidade de saúde direcionada para apoio a doentes covid-19

Reativação temporária das instalações do Hospital CUF Infante Santo como unidade de saúde direcionada para apoio a doentes covid-19

Henrique De Melo 26/01/2021 09:40

A serem válidos alguns pressupostos, a minha sugestão parece-nos possível de ser operacionalizada em curto prazo para ajudar a suprir temporariamente as enormes carências de camas da rede hospitalar do SNS.

Através da comunicação social, no final de ano passado tomámos conhecimento de que a José de Mello Saúde (JMS) encerrou totalmente a atividade do Hospital CUF Infante Santo (HCIS) a partir de 1 de janeiro de 2021, transferindo integralmente os quadros de pessoal para a sua nova unidade hospitalar, Hospital CUF Tejo.

Com o anúncio público desta decisão ficámos a saber que, muito recentemente, o HCIS se encontra totalmente devoluto e sem quadros de pessoal. Quanto à estrutura global do edifício, tomando por referência as fachadas exteriores, julgamos que ainda se mantêm praticamente intactas, embora esta ideia possa não ter confirmação relativamente ao estado do interior – desconhecemos se algum equipamento (auxiliares de diagnóstico, camas, BO, UCI, cozinhas, etc.) ainda ali está instalado.

A serem válidos os pressupostos referidos, do ponto de vista técnico e logístico, a minha sugestão – reativação temporária das instalações do Hospital CUF Infante Santo como unidade de saúde direcionada para apoio a doentes covid-19 – parece-nos possível de ser operacionalizada em curto prazo, tendo como objetivo ajudar a suprir, ainda que temporariamente (1/2 anos), as enormes carências de camas da rede hospitalar do SNS a debelar a covid.

Qual o fundamento para considerarmos que o HCIS reúne boas condições (se não ótimas) para rapidamente poder ser reutilizado unicamente com aquela valência? De modo a permitir uma melhor compreensão das capacidades do HCIS, apresentamos alguns dos indicadores mais significativos das suas características, ressalvando a possibilidade de me encontrar desatualizado ou menos bem informado relativamente a alguns dos dados a seguir indicados:

– Instalações de boa qualidade e em bom estado de conservação, particularmente depois de remodeladas em 91/92 e de, em anos posteriores, ter sido objeto de outras obras de beneficiação de menor dimensão;

– Capacidade de internamento da ordem das 140 camas para internamento geral (a maioria em quartos privados) e mais 13 camas na UCI. Tomando como termo de comparação outras unidades hospitalares da área da Grande Lisboa, podemos dizer que esta capacidade não difere muito da existente nos hospitais Curry Cabral, Amadora-Sintra e Loures para internamento covid;

– Equipamentos hospitalares de grande qualidade (auxiliares de diagnóstico, UCI, BO, mobiliário diverso);

Segundo julgo saber, o edifício do HCIS já não é propriedade da JMS por ter sido cedido a um fundo imobiliário. Assim sendo, o eventual acordo referente à sua utilização poderá ser elaborado no contexto dos contratos de aluguer de imóveis devolutos e sem pessoal afeto – portanto, fora do âmbito dos contratos de prestação de serviços de saúde entre entidades públicas e privadas onde frequentemente surgem uns “irritantes” que, por regra, atrasam ou inviabilizam as negociações.

Lateralmente, será preciso acordar com a JMS as condições dessa utilização. Mas perante um tão grave problema como o que atualmente vivemos, certamente que entre as partes contratantes serão encontradas dinâmicas positivas que rapidamente ajudem a ultrapassar a situação.

A inexistência de quadros de pessoal afeto ao HCIS permite que, de imediato e sem qualquer constrangimento, todos os serviços possam ser totalmente assumidos e prestados por trabalhadores dos quadros do SNS.

– Centralidade na malha urbana de Lisboa e boa acessibilidade por transportes públicos.

Em tese, estas instalações permitem duas hipóteses alternativas, em função das condições em que se encontram a nível interno as suas estruturas e, particularmente, as infraestruturas e redes de apoio às atividades cirúrgicas.

Uma primeira hipótese, que está na génese desta minha sugestão, é dedicar toda a sua capacidade de internamento unicamente ao tratamento da covid. Numa primeira avaliação, julgo que não seria mais demorada do que a instalação de um hospital de campanha mas, certamente, em condições mais adequadas.

A segunda hipótese – sobre a qual sou muito mais reticente por desconhecer em absoluto o que ainda lá se encontra instalado no BO, UCI, auxiliares de diagnóstico e outro equipamento médico-cirúrgico e hospitalar que tanto prestígio conferiu a esta unidade de saúde – seria deslocar para o HCIS os doentes, equipas cirúrgicas, de enfermagem e outras de hospitais do SNS que, conforme é público, têm inúmeros atos médicos por realizar, libertando ali vagas para doentes covid.

Esta solução, muito condicionada pelas condições (que desconheço) em que depois da transferência terão ficado as paredes, tetos, soalhos, redes elétricas, água, gás, etc. do BO, UCI, radiologia e outras conexas, seria, muito provavelmente, mais demorada de ser organizada, operacionalizada e com custos mais elevados, pelo que julgo que somente fica como evidente registo das potencialidades do HCIS.

Sendo, para mim, aparentemente óbvias as vantagens que esta solução temporária e de emergência pode trazer para solucionar a sobrelotação covid dos hospitais portugueses (mas o óbvio sempre esquece, diz um ditado brasileiro), esta ideia será liminarmente para esquecer se desvantagens houver que a inviabilizem.

Os meus agradecimentos à redação do jornal i por me ter dado a oportunidade de publicar este meu contributo, qualquer que seja a recetividade que venha a ter.

 

Declaração de interesses:

Tendo sido administrador do Hospital CUF Infante Santo durante 12 anos (1974/86), tenho por esta instituição e pelas pessoas que ali trabalharam comigo uma grande afetividade.

Mas, como se verifica pela leitura deste texto, essa realidade em nada interfere com a sugestão agora apresentada.

 

Henrique de Melo

 

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