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Escolas. Ensino online à vista e "a fazer lembrar o Titanic"

Escolas. Ensino online à vista e "a fazer lembrar o Titanic"

Pedro Almeida 26/01/2021 08:36

O ensino à distância é cada vez mais uma opção depois de terminados os 15 dias de suspensão letiva. No entanto, diretores e associações de pais lembram as “injustiças” e “desigualdades” para os alunos.

Com as aulas suspensas e as escolas fechadas durante 15 dias, até 8 de fevereiro – na sequência das medidas impostas para conter a propagação da pandemia de covid-19 –, o que vai acontecer depois desta pausa letiva tem estado a pairar na cabeça de professores, pais e alunos. Para já, ainda nada está definido pelo Governo, sabe o i. No entanto, o Ministério da Educação enviou, na quinta-feira, um email às escolas com o objetivo de colocar todos os cenários em cima da mesa para depois da interrupção das aulas, nomeadamente o ensino à distância, alertando os estabelecimentos de que não é uma possibilidade de todo descartada – já foi adotada no ano passado.

O objetivo do Governo é claro: “evitar a todo o custo o ensino não presencial”, segundo sublinhou ao i o presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, Filinto Lima. Mas poderá ter de ser opção para evitar que as aulas continuem suspensas. Existem, porém, “injustiças” para os alunos que vão muito além de ter ou não ter computador – já foram entregues 100 mil às escolas, mas ainda são esperados mais 335 mil.

“Além do ensino à distância exigir o computador – apesar de no ensino secundário já terem entregue o que tinham de entregar e já não haver problema, bem como em algumas escolas do 3.o ciclo –, eles percebem que é um ensino que faz emergir as desigualdades. Os nossos alunos, em muitas casas, até podendo ter um computador topo-de-gama, não têm um sítio para o colocar ou uma mesa de trabalho. Muitos deles não têm um ambiente sadio de trabalho em casa para estudarem. Muitos deles nem sabem se à hora de almoço lhes vai ser servida uma refeição quente, que é servida na escola. Para mim, este é o verdadeiro drama do ensino à distância”, relatou, admitindo que se está erradamente a colocar o foco no facto de não haver computadores suficientes para os alunos neste regime.

“A culpa não é só dos computadores. Se não há computador, há telemóvel. Se houver computadores, o assunto não fica resolvido. As novas tecnologias não resolvem o problema do ensino à distância”, acrescentou. O presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Jorge Ascenção, foi mais longe e deu o exemplo do Titanic para explicar as desigualdades que se fazem sentir entre os alunos no ensino online.

“As famílias não conseguiram durante este tempo ter um quarto para cada filho e mudar a sua condição de rendimentos para poder ter uma boa refeição em casa. Convinha falar mais nisto, porque os outros vão conseguindo salvar-se. Isto faz lembrar o Titanic. E quem está atrás de nós também tem direito à vida e temos de nos lembrar deles. Estamos no séc. xxi. O ensino à distância vai deixar sempre alguém para trás”, disse, lembrando, porém, ter a “consciência” de perceber que não é possível prolongar a pausa letiva e, por isso, ser preciso optar por um “mal necessário” que é o ensino à distância.

“Que as famílias não fiquem de braços cruzados a pensar que estamos de férias, porque não estamos a descansar. O que se fez foi antecipar a pausa letiva para ganhar sempre o ensino presencial. E é neste sentido que temos de trabalhar”, rematou.

Ensino misto como opção Haver aulas presenciais e também através da internet – ensino misto – é outro método que pode ser adotado para depois dos 15 dias de pausa letiva. No entanto, Jorge Ascenção sublinhou que esse regime não deverá, para já, ser utilizado nas escolas.

“Por aquilo que vão dizendo os especialistas, e todos nós temos feito tudo para aliviar a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS), muito provavelmente, daqui a 15 dias ainda não será possível o ensino misto, nomeadamente para os mais velhos, e o regresso à escola para os mais pequenos, o que nestas condições já seria bom”, explicou, reforçando que é preciso fazer um “esforço” para que o ensino à distância seja o mais curto possível, a fim de que rapidamente se consiga avançar para o ensino misto.

“Temos de procurar um bom equilíbrio para podermos sair todos o melhor possível desta situação. E penso que ainda há pessoas que não perceberam isso e estão bem, têm melhores condições e mais privilégios relativamente aos outros. Podem ter, mas isso não é o princípio da vivência em sociedade”, rematou.

Escolas preparadas para o que aí vem As casas dos jovens têm atualmente mais computadores do que em março do ano passado, quando as escolas também encerraram devido à covid-19. E a “literacia digital”, quer de professores quer de alunos, aumentou exponencialmente – estamos mais à vontade no “manejo das novas tecnologias”, avançou Filinto Lima. Por isso, considera que as escolas estão preparadas para um eventual ensino à distância, assim como Jorge Ascenção.

“As escolas e as famílias tiveram um largo período de aprendizagem no ano passado. As famílias já estão mais preparadas para esse ensino, assim como os professores, que têm a noção de que não é fazer um telefonema de manhã e depois telefonar novamente aos alunos dois dias depois. É, sim, acompanhar diariamente os seus alunos”, revelou. Ao i, o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira, disse mesmo que as escolas estão preparadas para o ensino não presencial desde setembro.

“A probabilidade de, no dia 8 de fevereiro, começarmos com aulas à distância é fortíssima, mas a situação é bem melhor agora do que em março do ano passado. As escolas conseguiram arranjar mais computadores. Mas a verdade é que há muitos alunos que ainda não têm meios telemáticos em casa à disposição para poderem trabalhar convenientemente. Mas mesmo para aqueles alunos que não tinham meios, em março, a escola também conseguiu arranjar formas de trabalhar com eles. Não a forma ideal, longe disso, mas genericamente não deixámos alunos para trás”, esclareceu.

ATL acompanham pela internet Com o encerramento dos centros de atividades de tempos livres (ATL), na sequência do encerramento das escolas, o i sabe que alguns desses estabelecimentos continuam a acompanhar os alunos através da internet, tentando manter, dentro do possível, o apoio necessário às crianças.

Apesar das medidas restritivas do Governo devido à covid-19, os ATL permaneceram abertos antes de ser ditado o encerramento das escolas. Quando aconteceu, na sexta-feira, tiveram também de fechar portas, recorde-se, tal como as creches.

 

 

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