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José Cabrita Saraiva 26/01/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Os portugueses podem não ser heróis, mas também não são parvos

Para o cidadão comum, não era muito claro qual dos dois devia ter prioridade: se o dever de votar, se o dever de ficar em casa. Esperava por isso encontrar assembleias de voto semidesertas (como encontrei nas eleições europeias de 2019, que tiveram perto de 70% de abstenção), mas logo a realidade me desmentiu

As eleições deste domingo trouxeram algumas surpresas – mais ou menos agradáveis, consoante as simpatias. Oquase desaparecimento da esquerda, reduzida a uns meros 21%, foi uma delas, e provocou ondas de choque.

Outra surpresa, pelo menos para mim, foi a taxa de abstenção, apesar de tudo relativamente baixa para os valores a que estamos habituados.

Para o cidadão comum, não era muito claro qual dos dois devia ter prioridade:se o dever de votar, se o dever de ficar em casa.

Esperava por isso encontrar assembleias de voto semidesertas (como encontrei nas eleições europeias de 2019, que tiveram perto de 70% de abstenção), mas logo a realidade me desmentiu, com longas filas à porta da escola em questão e pequenos grupos de pessoas à conversa. Achei mais prudente seguir o meu caminho. Regressei mais tarde e as filas persistiam. Só à terceira tentativa me deparei com o caminho aberto para votar.

A participação neste cenário tão adverso levou-me a questionar se os portugueses não serão, afinal de contas, uns heróis: com a pandemia encarniçada como está, mais de quatro milhões de pessoas correram o risco de serem infetadas para cumprirem o dever de eleger o seu chefe de Estado.

Contudo, pensando melhor no assunto, concluí que se muitos votaram por empenho cívico, muitos outros, fartos de estarem fechados em casa, aproveitaram a oportunidade para sair, arejar um pouco e conviver com vizinhos e conhecidos. Talvez isto ajude a explicar o mistério de a abstenção não ter atingido os valores exorbitantes que temíamos.
Desconfio, pois, que não foi exclusivamente por heroísmo e sentido cívico que os portugueses desafiaram a pandemia.

Mas, se podem não ser heróis, os resultados mostram que também não são parvos. A esmagadora maioria votou no único candidato credível. E expressou o seu descontentamento com aqueles que têm gerido a presente crise de forma tão atabalhoada (e os que os têm apoiado). Às mensagens contraditórias do Governo, o povo respondeu com uma mensagem que não podia ser mais clara.


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