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Países Baixos. À beira da “guerra civil” face ao confinamento

Países Baixos. À beira da “guerra civil” face ao confinamento

João Campos Rodrigues 25/01/2021 21:10

“Hooligans da covid” saíram à rua, saqueando e atacando a polícia, queimando um centro de testes à covid-19 e apedrejando um hospital.

 

Vive-se o pânico nos Países Baixos, desde que o Governo impôs o confinamento, este sábado, para evitar o alastrar da variante britânica da covid-19. Num país onde teorias da conspiração ganham terreno, gente furiosa com as restrições saíu à rua, saqueando e atacando a polícia, chegando a incendiar um centro de testes à covid-19. Só no domingo foram detidas 240 pessoas, acusadas de fazer parte das turbas de “hooligans do covid” - nas redes sociais, prometia-se mais violência na noite de segunda-feira, avançou o jornal Algemeen Dagblad.

“Temo que, se continuarmos por este caminho, vamos rumo a uma guerra civil”, avisou o presidente da Câmara de Eindhoven, John Jorritsma, perante os jornalistas, no domingo.

E não se tratava de uma hipérbole. Nessa noite, em Eindhoven, amotinados - “a escumalha da terra”, nas palavras de Jorritsma - tinham incendiado veículos, vandalizado estações de comboio e saqueado lojas. Atiraram pedras e dispararam fogo-de-artifício contra agentes da autoridade, que ripostaram com gás lacrimogéneo e canhões de água, numa autêntica batalha campal. Durante horas, os serviços ferroviários na cidade ficaram paralisados, por haver pessoas a caminhar pelos carris, avançou o canal RTL.

Na capital, Amesterdão, o cenário não foi muito diferente. Durante a tarde de domingo, centenas de pessoas acorreram à chamada de um movimento de empresários da restauração - semelhante ao movimento “Sobreviver a pão e água”, encabeçado por personalidades como Ljubomir Stanisic - a que se somou o PEGIDA, um movimento islamofóbico e anti-imigração originário na Alemanha, ignorando o recolher obrigatório para protestar o confinamento.

A multidão semeou o caos no caminho até ao ponto de encontro, a afamada Museumplein, ou Praça dos Museus. Aí, montaram barricadas com bicicletas, tão numerosas em Amesterdão, disparando fogo-de-artifício contra a polícia de choque, arremessando pedras e mesmo facas, denunciaram as autoridades. A resposta foram cargas de agentes montados, cães e mais canhões de água - as imagens mostram manifestantes a ser projetados contra as paredes do Museu Van Gogh.

Contudo, talvez os incidentes mais dramáticos tenham sido em pequenas localidades, como em Urk, a uns 80 km da capital. Na noite de sábado, dezenas de jovens desta vila piscatória reagiram ao confinamento saindo à rua, num buzinão. O protesto escalou rapidamente: a turba dirigiu-se ao porto, incendiando um centro de testes, que ficou completamente destruído.

Paralelamente, na cidade de Enschede, no leste do país, o alvo foi um hospital local, cujas janelas foram apedrejadas, aterrorizando os profissionais de saúde no interior. “Estamos todos num momento difícil, compreendo que as pessoas sintam desconforto. Mas expressá-lo destruíndo tudo e intimidando-nos, isso não compreendo”, reagiu Jan den Boon, um dos médicos no local, ao jornal Tubantia. “É terrível”, resumiu. 

Mudança de discurso Os Países Baixos, que sempre se imaginaram um país pacífico, de brandos costumes, estão em estado de choque com os motins deste fim de semana. “Isto não tem nada a ver com protestos”, declarou o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, prometendo mão pesada e colocando a polícia em alerta máximo, na noite de segunda-feira. “Isto é violência criminosa e trata-la-emos como tal”, assegurou.

Contudo, Rutte está numa posição particularmente debilitada para lidar com o caos. O primeiro-ministro holandês sempre foi fã de políticas de austeridade, tanto a nível interno como europeu - durante umas semanas, foi um dos bloqueios à chamada “bazuca” europeia -, mas o tiro saiu-lhe pela culatra. Em janeiro, soube-se que a promessa de reprimir o uso indevido de subsídios sociais levou a que mais de 20 mil famílias, algumas das mais pobres do país, fossem erroneamente acusadas de fraude pelo fisco. A revelação desse sofrimento massivo, num relatório parlamentar, levou à demissão de Rutte, que está de saída do Executivo.

Não ajuda que o programa de vacinação contra a covid-19, a grande esperança contra a pandemia, decorra a passo de caracol nos Países Baixos - até falharam o começo coordenado da vacinação europeia devido a um problema informático.

Além disso, a súbita mudança de mensagem do Governo piora ainda mais a situação. É que, no início da pandemia, Rutte esteve entre os que mais resistiu a confinamentos ou uso obrigatório de máscaras, assegurando que os holandeses não eram crianças, que sabiam proteger-se. Os holandeses chamam a essa sensação de excecionalismo nuchterheid - qualquer coisa como sobriedade, ou sangue-frio. Algo que desapareceu, face a uma média de novos casos diários que bate os cinco mil, com o país prestes a chegar ao milhão de infeções registadas, reagindo com um recolher obrigatório a partir das 21h. 

E poucos têm dúvida que a desinformação tenha tido um papel chave nos motins deste fim de semana: aliás, um em cada dez holandeses acredita em alguma teoria da conspiração quanto à covid-19, segundo uma sondagem da Kieskompas. Entre as mais populares está a teoria de que a rede 5G é responsável pela pandemia, misturando-se com paranoias anti-vacinação ou mesmo com as narrativas do Qanon – uma conspiração bizarra, nascida nos EUA mas que se espalha na Europa, acreditando que o mundo é governado por satanistas pedófilos, mas será salvo por uma coligação encabeçada por Donald Trump. 

A covid-19 “age como um líquido de contraste” quanto a estas teorias da conspiração, defendeu Pieter-Jaap Aalbersberg, líder da agência de contraterrorismo holandesa. “Torna visíveis coisas que eram invisíveis antes, e une grupos que não estavam unidos”, tendo como denominador comum “um sentimento anti-governo”, explicou Aaalbersberg à Bloomberg, notando um aumento nos ataques violentos e ameaças a políticos e jornalistas no país. 

 

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