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José Paulo do Carmo 21/01/2021
José Paulo do Carmo

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É por aí, Joana...

Uns sem máscara, outros com o nariz à mostra e um criativo que a usa guardada no joelho, tipo joelheira. 

Esta segunda-feira, enquanto o Governo ia anunciando aos bochechos o confinamento suave em que as pessoas eram enviadas para casa excepto qualquer tipo de situação que pudesse por algum motivo levá-las à rua, decidi dar uma volta no meu bairro, Campo de Ourique, para comprar comida e aproveitar para ver com os meus próprios olhos de que forma estavam a ser seguidas as novas regras. Desci as escadas do prédio para não apanhar o elevador, já que dizem que o vírus gosta desses espaços mais fechados e a minha barriga também agradece. Quando saí para a rua deparei-me logo com a loja de tinteiros em frente aberta. Achei estranho mas continuei. A seguir uma loja de imitação de perfumes também aberta mas em regime de take away, inclusivamente com amostras em cima do balcão, que por agora continua a dar para o passeio.

Segui mais um pouco e à entrada de um restaurante (que supostamente está só em take away ) quatro pessoas já de idade avançada em amena cavaqueira, umas a beber café em copo de plástico, outras a beber um copo de três que, pela marca que deixava nos beiços e a secura da boca, das duas uma: ou era um bom verde tinto ou já não iam no primeiro nem no segundo. A máscara, essa, deslizava entre o queixo e a testa, dependia do gosto. Virei a esquina em direção à Ferreira Borges e logo ali mais uma animada conversa, de um lado um polícia (de máscara ) do outro um rapaz das obras sem ela e com o nariz quase a tocar no polícia. A chegar ao Jardim da Parada, quatro pessoas ao balcão de uma pastelaria. Um pouco à frente uma loja de roupa. Aberta. Segundo a proprietária, quem quisesse comprar online podia ir levantar à loja mas no momento em que a interroguei sobre o assunto uma miúda que não tinha mais de 21 anos experimentava uma camisola. Provavelmente a que comprou… online claro.

Em frente ao Burger King sete rapazes das entregas, ao lado das suas motas vão trocando experiências. Um deles abraçava carinhosamente uma miúda que faz o atendimento ao balcão e que deve ter vindo fazer uma pausa à rua com o seu “mais que tudo”. Máscaras? Zero. Ou melhor, algumas penduradas nas motas, outras nos cotovelos. No portão da escola grupos de jovens amontoados na brincadeira. Uns abraços, uns pontapés carinhosos e alguns encontrões. Também vi uns amassos. Uns sem máscara, outros com o nariz à mostra e um criativo que a usa guardada no joelho, tipo joelheira. Desapareceram os mil e um beijinhos mas por lá se mantêm os cumprimentos com as mãos, os “hi five” e os “choca aí”. Não vi álcool gel.

No supermercado famílias inteiras decidiram ir passear. Os pais nas compras e os filhos numa correria desenfreada. As crianças sem máscara porque a isso não são obrigadas. Talvez um pouco menos de oxigénio as acalmasse. Na fruta três idosas vão metendo a conversa em dia e tiram à vez a máscara quando é para falar, talvez com receio de com ela não serem tão bem entendidas. À noite, uma barulheira imensa no andar de cima no meu prédio. Música alta e saltos que parecem agulhas nos meus ouvidos. Batemos à porta. Pedem desculpa, é o aniversário do mais pequeno. Várias pessoas lá dentro. Umas da casa, outras convidadas. O barulho só é interrompido por volta da 1h, quando um reboque da Polícia vem socorrer o carro do lixo que não passa e apita já faz meia hora. Adivinhem de quem era… A pessoa sai do prédio sem máscara enquanto vai explicando o sucedido à Polícia. Não há como não recordar com um sorriso o dia em que a deputada do PS Joana Sá Pereira, agarrando num papel mal amanhado, disse: “O vírus teve, diria, talvez o azar de encontrar pela frente um povo experimentado e um Governo capaz”. É por aí, Joana. É por aí…


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