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Centro Comercial Roma. Do Tutti Mundi a um futuro incerto

Centro Comercial Roma. Do Tutti Mundi a um futuro incerto

Bruno Gonçalves Cláudia Sobral 21/01/2021 08:45

Foi o terceiro centro comercial a ser inaugurado no país, ainda na década de 1960. Às portas do decretar de um novo confinamento obrigatório, os lojistas do espaço comercial da Avenida de Roma foram informados de que terão de deixar o espaço no final de março. Terá sido a semana passada a última da vida do Centro Comercial Roma?

Não foi o primeiro, mas não andou longe disso. Num tempo em que centro comercial não era ainda expressão que se utilizasse – drugstore era a designação corrente –, o 48 da Avenida de Roma, em Lisboa, passou a contar com um novo reclame luminoso: Tutti Mundi – Drugstore. Inaugurado a 19 de dezembro de 1968, era o terceiro centro comercial a abrir em todo o país, depois do Cruzeiro, no Monte Estoril (1951), e do Sol a Sol, na Avenida da Liberdade (1967) – e o segundo em Lisboa.

Passavam-se já dez anos das eleições às quais havia concorrido Humberto Delgado, Marcello Caetano substituíra há poucos meses Salazar no poder, a democracia demoraria ainda a chegar. Mas Lisboa começava, aos poucos, a mudar. Nem três anos depois abriria, na Avenida Júlio Dinis e projetado por Augusto Silva, o emblemático Apolo 70. Ao Porto, a moda chegaria já só depois da revolução, com o Brasília, em 1976. Em Lisboa, só na década de 1980 a revolução no consumo daria o passo seguinte, com aquele que ficou conhecido como o primeiro centro comercial moderno: o Amoreiras.

De volta à Avenida de Roma e dando um salto no tempo para janeiro de 2021: da principal entrada do Centro Comercial Roma (com entrada também pela Rua Conde de Sabugosa), designação atual daquele primeiro drugstore que pretendia aglomerar num só espaço todos os mundos, o cenário que se avistava nos últimos dias de funcionamento antes de ter sido decretado pelo Governo mais um confinamento obrigatório era desolador, com vários dos lojistas a esvaziarem os seus espaços. A todos eles sem exceção havia sido endereçada uma carta semelhante por parte da Veifer, sociedade imobiliária com a qual foram celebrados os contratos de arrendamento, com um aviso de término de contrato a 31 de março.

A resignação com o fim é evidente, perante o aviso de que a adoção de medidas mais restritivas de combate à pandemia deverá estender-se por pelo menos um mês. “Estamos a retirar as coisas para durante este mês podermos vender online”, diz a proprietária de um dos estabelecimentos, que pede para não ser identificada. “E depois do confinamento procuraremos outro espaço. Como temos de sair a 31 de março, já não faz sentido voltarmos para aqui”.

Não era a única. Mas entre os que se resignam há também os que não baixam os braços e se organizam na tentativa de montar uma estratégia de resistência que lhes permita, ao abrigo da legislação que foi sendo emitida durante a pandemia para as rendas, permanecer no Roma por mais três meses para lá do prazo que lhes foi apresentado – ou seja, até ao final do mês de junho.

É o que explica ao i Rui Umbelino, da Papelaria di Roma, que esvazia também ele a loja porque, ao contrário desta, a que mantém no Acqua Roma, na mesma avenida, está autorizada a continuar a funcionar durante o confinamento por integrar um supermercado. “Como temos lá outra papelaria, estamos a levar parte do material”. Assim que haja por parte do Governo autorização para a reabertura do comércio não essencial, tenciona voltar a abrir o espaço que mantém no Roma até ao prazo em que o centro comercial estiver em funcionamento. À semelhança dos outros lojistas com que o i falou, também Umbelino confirma ter recebido uma carta a avisar do encerramento do Centro Comercial Roma a 31 de março.

Sobre as razões para este fim anunciado correm vários rumores, nenhum deles confirmado. Uma das possibilidades em que se fala pelo bairro é a abertura de um supermercado da cadeia Lidl mas, ao i, fonte daquele grupo respondeu que não está a planear abrir uma nova loja no espaço do histórico centro comercial. Nesses “boatos”, Umbelino tem dificuldade em embarcar: “Os supermercados são espaços amplos. Não me parece que este centro comercial tenha estrutura para isso”.

Preocupa-o a questão da manutenção dos postos de trabalho dos seus funcionários entre um novo confinamento com uma duração ainda imprevisível e a possibilidade do encerramento. Para esse mesmo problema alerta uma outra lojista: “Além dos lojistas arrendatários, há também os funcionários que dependem disto e que estão numa situação complicada, porque as empresas não podem despedir facilmente porque se candidataram ao apoio de layoff, que as impossibilita de despedir. Portanto, temos de manter postos de trabalho sem termos espaço para funcionar”. Da sua parte, acrescenta, “não houve incumprimento do pagamento de rendas”.

Pedindo também para não ser identificada, adiantou que a justificação que lhe foi dada foi a de que o centro comercial não era rentável para a Veifer, com a qual o i não conseguiu chegar à fala. Além de dizer não ter havido com o seu estabelecimento qualquer tentativa de renegociar a renda, garante ainda que o seu negócio era rentável. “Este é um centro comercial que funciona. Há quem pense que estava em decadência, mas isso não é de todo verdade. Isto tem vida e as lojas faturavam. Conseguimos com o recurso ao layoff manter os postos de trabalho e estávamos agora a recuperar”, afirma ainda a lojista, que se mantém no Centro Comercial Roma há mais de cinco anos e que começou a suspeitar de que o futuro naquele espaço poderia estar ameaçado. “Estranhámos quando os contratos começaram a ser renovados com prazos muito curtos, com todos os términos para esta altura”.

Mas este não é o primeiro capítulo negro na história do Centro Comercial Roma, que sob uma anterior administração chegou a ser forçado a fechar num processo de insolvência em que as rendas dos arrendatários chegaram a estar penhoradas. Reabriu depois, em 2013, renovado e sob uma nova administração, que no site do centro comercial descreve o Roma como “uma referência do comércio local em Lisboa”, com as suas quatro dezenas de lojas dispostas por três pisos.

É justamente esse caráter de proximidade que preocupa os lojistas que, em plena crise pandémica, são confrontados com esta decisão de encerramento. “Já andámos à procura de opções de lojas na rua mas, como no bairro já se fala no encerramento do centro comercial, os senhorios das lojas na rua já estão a fazer disparar os valores. Queríamos manter-nos aqui porque este centro comercial funcionava muito bem, com clientes fixos. Vêm muito ao café, acabam por dar uma volta. Nunca tivemos razões para achar que isto não era rentável. Se tivermos de nos mudar para outra zona, teremos de construir tudo do zero outra vez”.

 

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