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O confinamento desconfinado

O confinamento desconfinado

José Manuel Neto Simões 20/01/2021 16:40

O medo deixou de ter o seu poder dissuasor, apesar de hoje o número de contágios e de mortos ser dramático. O cansaço e a impaciência relativizam a forma como se encara a ameaça. As pessoas colocaram-se mentalmente na fila para a vacina e têm desvalorizado o novo confinamento. Não é permitido relaxar comportamentos. Temos responsabilidades em comunidade.

por José Manuel Neto Simões
Capitão-de-Fragata (R)

Portugal a Europa e o mundo enfrentam uma situação de emergência sanitária sem precedentes. Aos decisores políticos cabe promover as medidas necessárias para mitigar os riscos, minimizar os danos e fortalecer a resiliência das sociedades.

O que parecia inevitável aconteceu. Depois de algumas semanas com um novo estado de emergência, com os números das últimas duas semanas Portugal tem a pior média da Europa por 100 mil habitantes. São infectadas cerca de 450 pessoas por hora.

É bom recordarmos que o Governo falhou por falta de previsão, imprudência e inconsequência, sobretudo a partir do momento em que chegou a segunda vaga, deixando-a progredir sem grande controlo até à primeira semana de Novembro. 

As festividades do Natal e o aliviar das medidas conduziram a um aumento de novos contágios com a expressão brutal com que estamos a ser confrontados.

No entanto, se tivesse havido maior rigor, teríamos cumprido? Dificilmente, pelo que estamos a ver agora, passados apenas alguns dias de um novo estado de emergência, em que devemos ficar mesmo em casa, pois o confinamento não é facultativo.

A enorme terceira vaga, que se regista principalmente na Europa, resulta dos desconfinamentos com falta de critério – sem o necessário faseamento -, falta de racionalidade e falta de adesão à realidade, com um discurso político contraditório, nem sempre em sintonia com a comunidade científica.

Esta situação tem induzido a ausência de confiança dos cidadãos provocando desconexão entre a autoridade do Estado e a sociedade, que não tem percepcionado o verdadeiro risco.

O medo deixou de ter o seu poder dissuasor, apesar de hoje o número de contágios e de mortos ser dramático. O cansaço e a impaciência relativizam a forma como se encara a ameaça. 

As pessoas colocaram-se mentalmente na fila para a vacina e têm desvalorizado o novo confinamento. Não é permitido relaxar comportamentos. Temos responsabilidades em comunidade.

A actual situação de emergência levanta de imediato uma pergunta inevitável: será que temos hospitais em condições de responder a esta nova vaga? A rotura está eminente e os profissionais de saúde preparam-se para a situação de catástrofe!

As Forças Armadas têm estado na linha da frente no combate à pandemia quer com equipas de descontaminação e de apoio ao rastreamento quer no apoio à vacinação da Covid-19 e disponibilidade do Hospital (HFAR) no número de camas para apoiar o SNS.

A situação é grave e as medidas restritivas são indispensáveis. Mas sem mensagem objectiva e sem a participação activa dos cidadãos os resultados tardarão a surgir.

O que deixa a sociedade desconfiada e atemorizada é a percepção de falta de regras claras e medidas coerentes, que foram mal e tardiamente desenhadas. Infelizmente, existem demasiadas regras com muitas excepções (52), algumas delas discutíveis em relação à sua eficácia e exequibilidade.

O Governo foi muitíssimo elogiado pela resposta rápidas na primeira vaga, e pela forma como criou coesão em torno de um inimigo comum. Porém, não teve capacidade para antecipar e planear a segunda e terceira vaga que acabou por surgir.

Mais de dez meses depois do início da pandemia – com conhecimento e experiência -, de tempo para pensar e definir planos de contingência, não há uma estratégia.

Numa crise como a atual, é necessária uma visão sistémica, abrangente e multidisciplinar. O princípio básico a nortear as ações é o respeito à vida humana, sem incorrer na falsa dicotomia entre saúde e economia.

Contudo, o confinamento desconfinado faz com que não se atinjam nem os objectivos de saúde pública nem os da economia, provocando uma maior disfuncionalidade na sociedade.

Por outro lado, a sociedade interpreta os sinais que as autoridades vão dando. E a população tem a tendência para não cumprir a regra, mas encontrar a excepção que se aplica. 

Em relação ao SNS repetem-se alertas de saturação com a sua capacidade a esgotar-se. E na economia ao confinarmos estamos entre a recessão e o desemprego com uma grave crise social. Equação de difícil resolução, que exige determinação e políticos com sentido de Estado.

Apesar da anunciada contratação de médicos intensivistas tem o SNS capacidade de atracção para quadros qualificados? Vai agora, à pressa, ter capacidade que lhe faltou na última década?

O Governo tem de recuperar a liderança no discurso e na acção, tendo em vista a eficácia no comprometimento dos cidadãos para não relaxarem comportamentos preventivos. Tem de haver empenhamento em mensagens coerentes capazes sensibilizar os cidadãos.

A coordenação de todo o processo de gestão da pandemia, bem como suas consequências políticas, económicas e institucionais reclamam uma enorme capacidade de liderança, persistência, diálogo e sentido de responsabilidade.

 

O autor não segue o acordo ortográfico

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