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"Há pessoas a morrerem sozinhas nos hospitais"

"Há pessoas a morrerem sozinhas nos hospitais"

AFP Marta F. Reis 20/01/2021 08:25

Denúncia é da bastonária dos enfermeiros. Profissionais de saúde aconselhados a apresentar escusas de responsabilidade.

A Ordem dos Enfermeiros e o Sindicato dos Médicos da Zona Sul começaram esta terça-feira a aconselhar os profissionais a preencher declarações de escusa de responsabilidade. Ao final do dia não havia ainda um balanço sobre quantos profissionais tinham preenchido as minutas, mas a preocupação era crescente com a evolução dos internamentos e mortalidade registada nos hospitais desde o início de janeiro. “Nestas situações em que estão ocorrer infelizmente mortes antes de as pessoas conseguirem obter cuidados de saúde são abertos inquéritos. Já é mau tudo o que os enfermeiros estão a passar, mas ainda têm de responder. Estas declarações não são para os enfermeiros deixarem de trabalhar, mas como a Ordem também tem de abrir inquéritos nestes casos, é uma forma de termos conhecimento da situação”, justifica a bastonária Ana Rita Cavaco. “As pessoas para uma morte querem sempre um culpado. Ainda que não haja é humano. Temos de tentar ter alguma atenuante se não houve condições de chegar aos doentes”, acrescenta. “Há pessoas a morrer sozinhas. O que nos colega nos relatam é que chegam ao pé de alguns pessoas e já partiram.”

Também Guida da Ponte, do Sindicato dos Médicos da Zona Sul, diz ao i que, perante a “situação catastrófica” que se vive nos hospitais, que considera neste momento transversal a vários pontos do país, o aconselhamento aos médicos, como já aconteceu noutros momentos no passado de maior pressão nas urgências, era incontornável. “Não víamos outra situação que os médicos manifestarem por escrito a sua discórdia, mostrarem que estão limitados na prática da Medicina e que fique bem claro que não nos podemos responsabilizar neste momento por algum desfecho negativo por cuidados insuficientes aos doentes”, diz Guida da Ponte. “O Governo terá de se responsabilizar pela situação em que estamos e pela situação em que está a colocar os profissionais de saúde”.

Falhas perante a sobrecarga Em comunicado, o Sindicato dos Médicos da Zona Sul referiu esta terça-feira uma situação de rutura em vários hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo. “A falta de meios humanos, de camas e até de oxigénio tem levado à acumulação dos doentes em maca, à porta dos hospitais e nas ambulâncias”. Guida da Ponte diz que os relatos em relação a oxigénio prendem-se com a dificuldade em garantir o fluxo de oxigénio prescrito quando existe uma grande ocupação. “O oxigénio é como um medicamento, tem que estar na dose certa. A sobrecarga de doentes diminui a pressão, mas este é apenas um exemplo entre os vários relatos que têm sido feitos e mostrados na comunicação social. Isto já acontecia no passado, mas qualquer cidadão compreende a situação em que estamos a trabalhar neste momento nas urgências”.

Segundo o sindicato, a falta de camas tem resultado na acumulação de doentes em macas, e até em cadeirões, “em condições pouco dignas e que dificultam o trabalho dos profissionais de saúde, e que não garantem o distanciamento necessário para evitar os contágios”. Soma-se o alerta sobre o impacto nos restantes doentes. “Sucessivamente são abertas mais enfermarias para internamentos covid, subtraindo camas e recursos dedicados a doentes com outras patologias, que assim veem a sua assistência comprometida. Esta situação é agravada pelo cancelamento de consultas e cirurgias, incluindo as oncológicas”, indicou, recordando o despacho invocado o despacho emitido na semana passada pelo ministério.

Cinco enfermeiros para 70 doentes O número insuficiente de profissionais é um dos pontos que volta agora a fazer parte das queixas de médicos e enfermeiros, numa altura de equipas também mais sobrecarregadas e profissionais infetados ou em isolamento. Ana Rita Cavaco dá o exemplo do Hospital dos Covões, visitado nos últimos dias pela Ordem. “Houve uma demora de horas a retirar um cadáver de uma urgência. Com cinco enfermeiros para 70 doentes não chega. Não somos máquinas”, diz, ilustrando que o próprio retirar de cadáveres das enfermarias demora mais tempo por falta de recursos. “Ainda nos Covões, temos oito internamentos covid e duas empregadas da limpeza. Uma pessoa tem alta, só passados quatro horas temos uma vaga livre”.

Rita Cavaco volta aos números: “Portugal é um case-study. Por cada médico há um rácio que deve ser de três enfermeiros. O SNS tem 30 mil médicos e 45 mil enfermeiros. Devíamos ser 90 mil. Ignorámos enquanto país tudo o que são os apelos internacionais. Chegados aqui, esta é a única forma de proteger os enfermeiros e as pessoas, porque também têm de entender que cada vez que vão à rua sem necessidade de ir e sem cuidados devem ter percepção do que está a acontecer”. Cavaco fala de uma situação de burnout entre os profissionais. E avança dados preliminares de um estudo iniciado pela Ordem dos Enfermeiros antes da pandemia, agora concluído, que apontam que nos últimos meses seis em oito enfermeiros apresentam níveis de exaustão elevado.

O número de internamentos de doentes com covid-19 nos hospitais atingiu ontem novos máximos, com mais 126 doentes internados mesmo num dia em que em 24 horas se registaram 218 óbitos e mais de 10 mil doentes recuperados, entre doentes em casa (a maioria) e altas hospitalares. Na segunda-feira à meia-noite, os dados conhecidos ontem, havia 5291 doentes com covid-19 internados nos hospitais, 670 em cuidados intensivos. Desde dia 5 de janeiro que ocorrem diariamente mais de 300 óbitos em instituições no país, o que segundo a plataforma de vigilância de mortalidade do Ministério da Saúde só tinha acontecido em dois dias nos últimos sete anos, em janeiro de 2017. Até ontem tinha havido cinco dias com mais de 400 mortes nos hospitais, o que não havia registos até aqui, numa altura em que há nove dias que superam as 600 mortes diárias no país, registos muito acima dos invernos dos últimos 40 anos.

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