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Contracapa. O exemplo vigoroso da pobreza

Contracapa. O exemplo vigoroso da pobreza

Diogo Vaz Pinto 19/01/2021 14:32

Uma editora artesanal surgida no ano passado veio instituir entre nós um salário da pobreza, publicando uma série de antologias num formato de bolso e que reivindicam o papel da tradução enquanto virtude essencial da arte poética.

Estamos fatigados, enfastiados. Tanta porcaria que nos assalta, e mesmo coisas boas, excelentes, que nos fitam e chegam a revistar-nos, denunciando em nós uma espécie de indolência que, para se defender, assume uma postura arrogante, displicente. Essa que caracteriza tantos jovens, desses que parecem já nascer velhos, e que, com o seu “desgosto de carranca chinesa e os olhos turvos de velho esfregão da loiça” (Roberto Arlt), nos expropriam da expectativa de abalos futuros, de novos arrebatamentos e revigorantes desafios à autoridade, ao raio que nos parte em tão baços bocados.

Acumulam-se as novidades falsas neste imbecilizante e escrofuloso ambiente sensacionalista, e mesmo se procuramos a frescura nos livros só somos capazes de ler o nosso próprio cansaço. Aquilo que se perde é a alegria dos fedelhos de que em tempos gozámos, que trouxemos para estas coisas, e que agora se volta do avesso. Este pavor que nos causam essas mesmas novidades pelo modo como participam na vida tristonha que esses jovens nascidos já velhos “acumulam como um veneno fora do prazo”. Tão fora do prazo, diz-nos Arlt, que passam entre as coisas mais belas da criação com um ar enjoado. Assim, quando aos velhos foram retiradas todas as condecorações, sacudindo-os como a tapetes velhos e deixando-os esticados ao sol, nem anciões temos nem desacatos vindos de quem cai por cá, aporta em nome desse mistério que é a renovação dos ciclos.

É neste difícil contexto, e com os constrangimentos provocados pela pandemia, que um dos mais instigantes projectos que surgiu no ano passado foi uma editora caseira, sediada em Vila Meã, em Amarante, e que não apenas se assume em contracorrente face ao regime da edição geral, e em resposta à crise cultural que atravessamos, mas fura um campo autónomo entre os pequenos editores. Chama-se Contracapa e, com uns cadernos de poesia que só têm paralelo no despojamento da colecção hoje mítica da Dom Quixote, tão acessíveis como eram aqueles, tão baratos quando tudo se faz caro, e num formato que faz jus à ideia de que a poesia é para levar num pequeno bolso rasgado na pele, este selo prefigura também uma espécie de antítese face à bravata de editoras como a Bazarov (editora de Ricardo Costa, surgida igualmente em 2020), que assumem o legítimo propósito de abalar os alicerces da edição portuguesa, definindo a sua estratégia numa lógica de importação, com apostas que são, por um lado delirantes – considerando a nossa realidade e os escassos leitores com que podem contar obras literárias exigentes –, mas que, por outro lado, não deixam de estar alinhadas num regime de boutique de aeroporto, promovendo autores estrangeiros segundo a balança de valores das publicações literárias de maior prestígio internacional.

Sem pretensões de captar o espaço das pouquíssimas montras mediáticas, e especificamente a atenção dos suplementos que, embora desprovidos de função crítica, promovem ainda essa ilusão de que “o que aparece é bom e o que é bom aparece”, a Contracapa lançou uns modestíssimos cadernos antológicos feitos à mão, cosidos à mão, selectas de poesia árabe, hispano-americana, norte-americana, italiana, suíça, islandesa, seis sebentas que nos dão a força de uma existência precária, uma pobreza séria, implicada, que vai além do simples despojamento. Uma espécie de salário mínimo da consciência, bem expresso num poema de Rainer Brambach, “Homens Solteiros”: “Um coleciona pedras./ Outro compra selos./ Um terceiro joga xadrez pelo correio/ e outro aguarda e fica noites à espera no parque./ Um estuda russo./ Outro lê Shakespeare./ Um escreve uma carta a seguir a outra,/ e outro bebe vinho à noite,/ doutro modo não haveria nada a referir./ Bebem, lêem, espreitam, compram,/ estes homens sós nas suas noites./ Escrevem, estudam, jogam, coleccionam,/ cada um por si depois de um dia de trabalho./ Um frequenta a opereta./ Outro ouve Bach./ Um guarda um segredo./ Como um cão preso a uma corrente,/ corre pelas avenidas abaixo, noite após noite.”

Recolhido na mais singularmente arrebatadora de entre todas as propostas poéticas que nos foram feitas em 2020, a antologia de poesia suíça “Descida Brusca de Temperatura”, da responsabilidade de Luís Filipe Parrado, comove-nos o pouco que é preciso, aquilo tudo que aceita o poema a partir do momento em que quem o dá parece não ter mais nada, não ter outro chão onde cair. Esta é uma espantosa reunião de poemas na sua maioria breves, e que se estende por mais de 300 páginas, poemas capazes de interceder num momento em que a realidade nos tranca, em que de algum modo nos sentimos todos atirados para um “Lar de Idosos”, poema daquele mesmo poeta, que nos põe na pele de um jardineiro reformado, que apesar de ter deixado o cuidado das plantas, conhece ainda “o horário dos oito ventos”, e garante-nos também que as suas previsões a anunciar as nuvens carregadas de chuva continuam infalíveis. “À parte a gota e umas ânsias enormes/ de beber um copito de aguardente,/ nada me incomoda. Os meus amigos morreram/ e desconheço o paradeiro dos meus inimigos.” Mas mais do que tocar o aspecto da desagregação social de uma vida que, como forma de se remediar contra os perigos, se vê sujeita ao confinamento, interessa aqui sinalizar essa forma de ausência face ao nosso tempo, essa incompreensão entre nós e o mundo: “Este mundo, que já não entendo,/ visita-me em forma de jornal/ uma vez por semana,/ e várias vezes por dia/ uma revoada de pardais assoma à janela.// Pela sua comprovada confiança/ promovi-os a tentilhões.”

É nesta confiança que se cifra este salário, um pão nosso de cada dia que alimenta mais o espírito, que vem como uma música imprevista de coisas que chocalham ou restolham e nos surpreendem com uma vitalidade inesperada, esse pão dos poemas, aqueles que se podem realmente comer, e que nos nutrem, senão de esperança pelo menos de um ímpeto de insubmissão: “O pão nosso de cada dia/ nos dai hoje/ para que não só/ por pão/ tenhamos de estilhaçar o peito/ para que não tenhamos/ de sofrer a chantagem dos patrões/ que nos dão o pão/ para que não tenhamos/ de nos tornar dóceis/ receando perder o pão que é nosso”.

À poesia, hoje, parece necessário começar a exigir-se um mínimo, um grau mínimo de atenção, a capacidade de arranjar espaço em vez de vir entulhar ainda mais este tempo lixo, numa altura em que há, não só demasiada gente, mas gente que, incapaz de se expor de forma digna, apenas se impõe, opiniões que, no seu desespero, com a sua falta de elegância e de eloquência, estão sempre prestes a perder as estribeiras, a exercer formas de degradação e violência, quanto mais não seja afundando o mundo no seu ruído, como uma forma de vingança: “se não me ouvem, não deixarei que se ouça ninguém”. E até nisso, na hora da vingança, se revela o carácter imitativo, o registo aprisionado de que vamos sendo capazes, reproduzindo de forma demencial aquilo que nos é servido diariamente, mostrando-nos incapazes de resistir e de colecionar silêncios, esse bem que se tornou cada vez mais raro e difícil de encontrar. Como nos diz George Steiner, “o ruído – industrial, tecnológico, electrónico, amplificado até à loucura (as raves) – é a peste bubónica do populismo capitalista, não apenas no Ocidente impregnado pelos media, mas também nas barracas de lata dos bairros depredados africanos ou entre as multidões de Xangai”. Somos assim aves que, iludidas com o seu exotismo imaginário, grasnamos em coro com o distúrbio de que é feito o material que nos encerra em exíguas gaiolas.

Há demasiado exterior, e as qualidades que exigiam uma harmonia interior antes de qualquer gesto expansivo, de qualquer forma de exteriorização, são cada vez menos estimadas e estimuladas. A este respeito, leia-se o poema “Interior” de Philippe Jaccottet: “Há muito tempo que procuro viver aqui,/ neste quarto finjo amar,/ a mesa, os objectos sem inquietação, a janela/ abrindo-se ao fim de cada noite para outros verdores,/ e o coração do melro que bate dentro da hera sombria,/ por todo o lado os fulgores derrotam a sombra envelhecida.// Também eu aceito acreditar que é agradável,/ que estou em casa, que o dia será bom./ Mesmo junto ao pé da cama, esta aranha/ (por causa do jardim) que não espezinhei/ suficientemente, dir-se-ia que prepara ainda/ a armadilha que espera o meu frágil fantasma...”

E se esta antologia é tão desarmante, se consegue expor-se-nos como uma das edições mais singulares e marcantes em muitos anos na nossa edição, isso deve-se a dois aspectos essenciais e que se completam e robustecem. Primeiro, ao corte desta editora com o umbiguismo que tem prevalecido no campo editorial, e particularmente nesse território definido pelas rivalidades e conflitos tribais, algo que resulta da escassez de um público, e que nos condena a uma vigilância mesquinha e tacanha, a um regime em que a poesia, em vez de uma ânsia de conquista, de alargamento dos horizontes, abdica de sair à descoberta, fica a guardar um qualquer forte de papel, e desgasta-se, acaba enxofrada, redundante, entregue a modos inenfáticos de emulação, numa mímica desgostosa e lamurienta. E isto quando aquilo que se espera dela é que pratique uma constante sublevação, que cruze todas as fronteiras possíveis e beba de todos os cursos, da imaginação e dicção de tantas línguas, tantos usos particulares que as esforcem, exercendo a sua virtude enquanto arte da tradução, pois a poesia é sobretudo isso que faz: esse exercício de “incursão, rapacidade e exploração” (Steiner) é o que a caracteriza. Seja partindo de um género não verbal, seja capturando a vida, experiências, episódios, seja nos exorcismos a que o poeta se submete, seja lendo mal, pervertendo outros textos. Na sua subtileza, a traição é a sua carta de alforria, mas a fidelidade dá-nos a medida do seu génio. E especialmente para um país cada vez mais isolado como o nosso, é importante exaltar esta prática, uma vez que, como vinca Steiner, “a tradução é o oxigénio das comunidades discursivas isoladas e das tradições esquecidas”.

O segundo aspecto que torna tão vigoroso este volume, e esses outros que o antecederam e que iremos abordar de seguida, exprime-o bem um poema brevíssimo de Hendri Spescha: “Tenho apenas uma língua/ o silêncio// Tenho apenas uma propriedade/ a pobreza// Tenho um mundo inteiro”.

Esta pobreza faz destes cadernos passaportes, vistos que nos permitem habitar “as ilhas vagabundas do céu” e, ao mesmo tempo, inocularmo-nos contra o género de puetas que não passam de “sonhadores vazios de língua cosida com guizos”. Esta antologia, como outras publicadas com o mesmo selo, lançam-nos um convite nas linhas do que faz Elisabeth Meylan a uma velha amiga que ficou de a visitar: “Sim, vem de novo/ num intenso vermelho brilhante/ e não tragas, de maneira nenhuma, uma prenda linda,/ nem violetas, nem chocolates./ Traz algo áspero, ou melhor,/ um grande bocado do mundo/ para o colocarmos com todas as impurezas/ sobre a cómoda.” O que distingue estes cadernos cujo miolo é de um papel pardo, reciclado, que são cosidos à mão, numa letra que, apesar de impressa, parece garatujada... Parece que as letras vêm à tona de uma água um tanto turva. Estes cadernos meio sujos, mesmo se novos parecem usados por outros, passados de mão em mão, cheios de distantes razões e sobressaltos que se vão acercando de nós, quebrando um galho aqui, outro ali, atirando uma pedra à janela, trepando, até dominarem o quarto com a sua tagarelice encantadora. Traduções avulsas, vozes entreouvidas, refrões desirmanados de canções que acham o seu sentido ouvindo-se umas às outras, numa vizinhança inquietante. E é isso o que faz com que os poemas que aqui se colhem nos saibam como fruta roubada, frutos de que se morde a carne e que ficam suspensos num sabor que ao mesmo tempo se entrega e se esquiva, um “lume dentro do fogo”.

E se nos parece tão pregnante esta proposta, é por esta editora surgir como contraponto face à condição da edição independente que não resiste a um registo empolado, a balançar entre uma severidade curial e um tanto patética e um heroísmo trágico, em que se desenham por aí filas de Quixotes sem um Sancho, e isto abre margem para um diagnóstico ao qual, se continuarmos a esquivar-nos, significará apenas que os editores que se servem das dignidades e da heráldica da resistência persistirão de costas voltadas, embaraçados nuns fingimentos teatrais, parecendo desinteressados dos esquemas mediáticos quando, na verdade, é evidente como muitas das edições em que apostam fazem mira desde a sua concepção a esse prestígio simbólico, a essa consolação, em que tantos livros não passam de um mero engodo, em que tantos projectos literários apenas exprimem um vago fetiche pelo livro enquanto objecto, enquanto talismã numa demanda pela visibilidade que determina os ciclos de máquina de lavar das indústrias culturais.

A este respeito, Pier Paolo Pasolini, num dos seus escritos corsários, fala na esperança de uma capacidade de sermos restituídos aos nossos verdadeiros contornos: “Há já muito tempo que andava sentindo uma grande nostalgia da pobreza, minha e alheia, e pensando que estávamos errados ao achar que a pobreza era um mal: afirmação reaccionária que eu todavia sabia ser feita por uma extrema-esquerda ainda não definida e certamente difícil de definir. No meio da dor de me ver rodeado por uma gente que eu deixara de reconhecer – por uma juventude tornada infeliz, neurótica, afásica, obtusa e presunçosa mercê de algumas liras a mais que o bem-estar lhe tinha inesperadamente enfiado nas algibeiras – eis que chegou a austeridade, ou seja, a pobreza obrigatória.”

Pasolini exalta ainda “o antigo respeito pelos outros que era respeito de si próprio, o orgulho de se ser aquilo que a própria ‘cultura dos pobres’ ensinava a ser”. E agora que, de novo, estamos diante de uma curva descendente, talvez a melhor solução seja que nos disponhamos a tornar a experimentar o passado, aprender com ele, com a firmeza dos seus propósitos, conquistas que foram mais difíceis e, hoje, as facilidades nos fazem desrespeitar. Esse retorno é-nos exigido pela forma como esse passado, no fundo, foi ultrapassado por nós apenas artificialmente, “esquecido numa espécie de febre, de frenesi inconsciente”. E um sinal de que não estamos cativos de “uma mixórdia infeliz das novas comodidades com as antigas misérias” é esta editora, Contracapa, que se impõem com uma extraordinária clareza neste mundo caótico e confuso, e que arrastou a própria edição independente para um regime de subserviências e luxos, para esquemas de autogratificação, e que, em vez de corporizar essa forma de consciência crítica que exprime “uma predilecção irrefreável por alternativas”, acaba a deixar-se condicionar de tal modo que promove a sua desclassificação.

Neste ambiente, esta editora é a bicicleta que não apenas está ainda boa para as voltas, mas que poderá devolver-nos às sensações do território, à consequência do lugar, e aparece-nos como um animador prenúncio face a um cenário de penúria juvenil, em que o campo literário recupera o seu aspecto de resistência exemplar e que se deixara envergonhar, apreciando os tais luxos e afectações que sinalizam uma perda da realidade, uma incapacidade de estar de acordo consigo mesmo, de reflectir culturas particulares, um verdadeiro ensejo de reafirmar uma identidade própria, em contraste com o “esvaziamento devido à aculturação do novo Poder da sociedade de consumo, o Poder mais centralizador e por isso mais socialmente fascista que a História jamais registou”. Pasolini defende que “o povo é sempre essencialmente livre e rico: pode até estar subjugado, espoliado, ter a boca tapada, mas é essencialmente livre; pode tirar-se-lhe o passaporte, o trabalho, a mesa onde come, mas é essencialmente rico. Porquê? Porque, quem possui uma cultura própria, e se exprime através dela, é livre e rico, mesmo se aquilo que ele é e exprime é falta de liberdade e miséria perante a classe que o oprime”.

É a este nível que a editora de Daniel Ferreira alcança uma verdadeira proeza, com as suas seis antologias publicadas no ano passado de forma artesanal, traz-nos mundo, ensina a ler numa atenção de transporte, com o menos peso possível, quase sem bagagem, num gozo desataviado. “Gosta da ambiguidade necessária nas palavras daquele que viaja de noite em direcção ao que já se foi”, para citar um verso de Mahmoud Darwish, o qual integra a “Antologia de Poesia Árabe”. Os poemas formam espigas que produzem uma resistência canora face ao vento terrível que sopra e nos desfoca. O que colhemos nestas páginas são “migalhas de canções/ deixadas para os pássaros”. Inclinam-se para nós antigas sombras, e o olhar volta-se “para um passado distante e profundo./ Um passado com margens de âmbar/ que sonha com memórias/ demasiado profundas para despertar” (Muhammad Al-Fayturi).

Confluem nestes cadernos tradições distintas, cânticos exaltantes e serenos, a barba do mujahideen afegão oferecida em troca pela barba de Walt Whitman cheia de borboletas, aquela forma de inveja jubilante, reconhecida e capaz da homenagem tanto como da revolta, capaz de se embevecer com o riso da Marilyn Monroe, de desejar os jeans e jazz, de se perder nos campos de trigo e milho e no cheiro a tabaco da Virgínia, mas também de rejeitar a sobranceria despótica da América com os seus arranha-céus, a sua insultuosa prepotência, tão bem caracterizada por Saadi Youssef.

Na antologia de poesia italiana (“Um Pouco do Meu Sangue”), organizada e traduzida por João Coles, Pasolini surge-nos ao lado de alguns dos seus contemporâneos, e fala-nos de “um grito repentino, humano,/ [que] nasce, e aos poucos se repete,// tão louco de dor que, de súbito,/ já não parece humano, mas/ um estridor morto. Depois, lento,// renasce, na luz violenta,/ contra os prédios cegos, novo, igual,/ um grito que só quem é moribundo,// no último instante, pode emitir”.

E há também esses escritores e poetas com “a sua inclinação/ para começar fogos em quartos vazios” na antologia de poesia norte-americana, intitulada “Trocando Dólares por Cêntimos”, outra que resultou do tão aturado, discreto, magnífico trabalho de leitura e tradução que Luís Filipe Parrado vem desenvolvendo há doze anos, colhendo de forma admirativa poemas provindos de uma infinidade de idiomas e geografias, numa obstinada cartografia que nos permite perceber a curvatura da terra, a refracção da luz e da própria consciência ao longo dos tempos, isto no bloque “Do Trapézio, Sem Rede”. E vale a pena reproduzir o poema de Martín Espada chamado “Blasfémia”, resultando como uma espécie de manifesto para o ânimo deste projecto editorial: “Permitam que a blasfémia seja dita: a poesia pode salvar-nos,/ não da maneira como um pescador iça para dentro do barco/ o nadador que se afoga, não da maneira como Jesus, entre gritos,/ promete vida eterna ao ladrão crucificado ao seu lado/ no monte, mas ainda assim salvação.// Algures um condenado soluça sobre um livro de poemas/ trazido da biblioteca da prisão, e eu conheço o motivo/ pelo qual as suas mãos têm o cuidado de não quebrar as páginas tão frágeis.”

No fundo, é esse cuidado que nos transmitem estes livros pobres, frágeis, aquele grito de um moribundo florindo de esperança no seu último fôlego, essa força que leva a que a morte se imponha em nós como um destino assumido, quase enaltecido, pois é dela que arrancamos a urgência revigorante, a inspiração e o ânimo que chega a aviltar os deuses, essa forma de graça de quem aprecia tanto a vida com esse tempero da finitude, antecipando a sua perda.

Na “Antologia de Poesia Hispano-Americana”, traduzida pelo próprio editor, há um poema exemplaríssimo desta consciência – “Assumo”, de José Ángel Valente: “Devo morrer. Todavia, nada/ morre, porque nada/ tem fé suficiente/ para poder morrer.// Não morre o dia,/ passa;/ nem sequer uma rosa,/ apaga-se;/ resvala o sol,/ não morre.// Apenas eu que toquei/ o sol, a rosa, o dia,/ e acreditei,/ sou capaz de morrer.”

E logo na página seguinte, o mais recente galardoado com o Prémio Cervantes, Francisco Brines, deixa um aviso a tantos quantos cometem o seu poema nesse regime de voluntariado social, e que, hoje, rebaixam esta arte a mais outro desses exercícios cerimoniais, como quem dá folga às legendas dos seus álbuns fotográficos nas redes sociais: “Acaso estimais que por crerem/ na imortalidade,/ esta terá de vos ser entregue?/ Mera obra de fé, do egoísmo/ ou da desolação (...)”.

Como notou Pasolini, “a morte não está em não se poder comunicar, mas em já não se poder ser compreendido”. E este é o desafio com o qual tem de se confrontar qualquer editor nos nossos dias, pois se os livros circulam e são usados cada vez mais como adereços, objectos menos de fruição do que de ostentação de uma suposta cultura literária, isto leva Daniel Ferreira a dizer-se bastante satisfeito por os livros que faz serem muito pouco fotogénicos, resistindo a esses modos de exibição.

Nascido em 1984, em Vila Nova de Gaia, o editor falou um pouco de si e mais da editora a este jornal, falou do gosto pela leitura que o favoreceu num percurso marcado por mais de meia vida a viver em bairros sociais, gosto adquirido em confronto com a “grande escola de mentiras e verdades dos jornais e revistas que, às dezenas, entravam em casa a partir do meu pai, que trabalhava numa grande distribuidora”. Diz que, para além desses materiais, eram escassos os livros lá em casa: “uns 30 entre best-sellers e resquícios de alguma da edição política do pós-25 de Abril, mais tarde a coleção mil folhas e outras coleções literárias oferecidas ou vendidas com os jornais”. Por outro lado, fala na importância que tiveram os suplementos culturais, de que foi um leitor fervoroso, “com os artistas e as obras a servirem de ponte para um mundo de fascínio que hoje choca com a minha percepção da sua realidade”. Seguiu-se a descoberta da blogosfera e da poesia, a par de autores e livros que “atentam contra a hipernormatividade do mundo, e com um sentimento crescente de necessidade de questionamento permanente das certezas a formarem-se pelo meio, frágeis mas nunca relaxadas perante a merda que nos cerca”.

Há três anos mudou-se para Vila Meã, e diz que, depois de uns anos em que não teve outro fio de norte que não o da auto-suficiência, foi sentindo o apelo de contrariar a “cultura de dependência dos meios de produção comuns” que nos cerca, e quis participar no banco contra a fome, mas o que alimenta a imaginação, entendendo a diferença que isso pode significar “quanto mais não seja por fazer-nos ver do que somos capazes e o quão independentes podemos ser”. Foi então que decidiu tirar um curso de encadernação para poder “partilhar o que me parecia pertinente e poder assim dominar o processo de edição do princípio  ao fim (da paginação até aos acabamentos), numa logica DIY, baseada nas fanzines, até aos olhos do potencial leitor, qualquer um”.

Daniel Ferreira conta que a primeira edição (oferecida nas bibliotecas do Porto e nalgumas livrarias, tal como outras edições posteriores, sem qualquer interesse no lucro) se focava num ensaio sobre o cruzamento das prácticas artísticas e a natureza, e cujo processo de elaboração era também ele um reflexo desses cuidados, nomeadamente na escolha de materiais que, por exemplo, passavam pela reutilização de flyers e papel ou cartão reaproveitado para as capas dos livros. Só depois surgiu o formato actual de uma colecção de antologias de poesia noutras línguas. “Embora hoje exista uma espécie de linha programática, ou esse cuidado de criar outra coerência para o que faço, é precisamente do cruzamento entre mim e outras pessoas e sensibilidades, desses felizes acidentes e confluências de interesses e possibilidades que surge, por exemplo, a primeira antologia da editora precursora de todas as seguintes, a ‘Antologia de Poesia Árabe’. Com esta primeira antologia apercebo-me logo de algo muito curioso e urgente, sem querer com isso fechar (ou negar) perspectivas, mas querendo alargá- las: o tipo de antologias a que fomos habituados pela tradição literária e a plasticidade potencial do formato antológico.”

O editor diz-nos também que, se inicialmente, apostou em processos de impressão mais tradicionais, como a serigrafia para as capas, feitas na oficina de um impressor, cruzando-a com a impressão digital do miolo (que ainda se mantém), “hoje e aliás como sempre desde que pelo universo da edição-produção vagueio, as escolhas de materiais e das técnicas rege-se mais por um sentido prático que possa trazer ao leitor um conteúdo literário bem salvaguardado, em formato livro de bolso e com materiais baratos que não coloquem a experiência de leitura num espaço de desconforto”, e adianta que isso é mais importante do que apenas o lado estético do livro enquanto objecto de luxo ou de ostentação. Assim, alegra-o que os livros consigam demarcar-se do processo industrial “sem recorrer ao facilitismo da contraposição purista do puramente artesanal vs o puramente maquinal”.

O processo da feitura dos livros é exigente e integra uma série de passos que seriam exasperantes e que levariam certamente a maioria dos editores independentes a deitarem a toalha ao chão e a dedicarem-se a outra linha do heroísmo cultural em voga. Este começa pela impressão do miolo em casa a jacto de tinta, ao passo que as capas são impressas numa papelaria lá da terra. A encadernação é feita também em casa, e a vincagem manual das capas numa oficina municipal. Os livros regressam então a casa para serem aparados com “uma guilhotina eléctrica de fabrico chinês com pinta de tecnologia de ponta do tempo da URSS”.

Daniel diz que o seu principal objectivo passa por um dia vir a conseguir fazer tudo em casa, estando ainda a tentar reunir as ferramentas necessárias para não estar dependente de terceiros. Mas não descarta a possibilidade de, no futuro, ter a editora ligada “a um espaço de trabalho de edição comunitária, ou algo do género”.

O editor insiste ainda que foi com Luís Filipe Parrado que percebeu “o quão importante é trazer mundo ao burgo, descentrarmo-nos da poesia portuguesa para lhe acrescentar, mais do que contrapor". A blogoesfera foi também essencial para que se desse conta da quantidade de poetas e tradutores com trabalhos já feitos, o que o animou a procurar pessoas com os mesmos gostos. “Convém também lembrar que isto da edição, pelo menos para mim, é um processo de socialização, debate, aproximação e de construção de territórios comuns que devem operar enquanto espaços alternativos, com soluções outras que não apenas fruir da leitura e da edição enquanto mero entretenimento, mas reforçar o processo editorial independente através de formas de organização e produção de livros que não se cinjam à lógica industrializada e cara das gráficas”.

Há, assim, nesta editora um verdadeiro desejo de independência, e esta não se fica pelas questões de produção, mas Daniel Ferreira enfatiza ainda que, embora seja importante reafirmar zonas de convergência e encontro, não está interessado no regime das “palmadinhas nas costas” que serve de comprazimento a tantos, e que, nalguns casos, chega a instaurar modelos de feudalismo, em que os editores promovem à sua volta uma limitada e subserviente corte.

Retomando a antologia hispano-americana, há um poema de Gabriel Celaya que deixa bem claro a razão porque não há mais futuro hoje, nem esperança para nós, senão reclamando de volta certas lições do passado, sob pena de ser inútil comunicar seja o que for, e isto por não haver já, sobre a terra, quem esteja disposto ou tenha sequer competências para compreender o outro. “E se todos forem ninguém?/ E se o empenho em nomear/ for apenas complicar a claridade dos gestos?// E para quê assinalar/ se nada há para assinalar?/ E se a luz for simplesmente um vazio?// E para quê nos beijarmos tanto?/ E para quê nos mordermos tanto/ se nem tu nem eu existimos neste adorável nada?// Explicar o quê, se não há tempo?/ Para quê nomear? Não existimos./ Só existe hoje este ar de um tempo sem datas.// Mas podemos ainda assim contar:/ Treze, doze, onze, dez./ Porque contar para trás é sempre apaixonante (...)”

Mas então que disciplina tem o passado para nos ensinar? E como podemos desembaraçar a corda, o fio que nos prende à vida da raiz negra do meu soluço e do teu? Vicente Huidobro propõe-nos a poesia como “atentado celeste”, e fala directamente para esta ferida que faz de nós prisioneiros de diversas formas de ausência: “Estou ausente, mas no fundo desta ausência/ Há a espera de mim mesmo/ E esta espera é outro modo de presença/ Na espera pelo meu retorno/ Eu estou noutros objectos/ Ando em viagem a dar um pouco da minha vida/ A certas árvores e a certas pedras/ Que me terão esperado muitos anos.”

E em chave menos nómada, num poema intitulado “Quarto”, Omar Lara fala-nos das oportunidades que se servem entre amantes confinados, entre náufragos dos antigos enganos, das dificuldades que definiram o desejo, elevando o lume, tornando sagrados esses corpos despidos e afastados, fala para “Este quarto furtivo de si mesmo,/ com as límpidas fendas, com os seus minúsculos/ e extraordinários insectos cheios de vida,/ com os seus instituídos ruídos até ao fundo do tempo/ e nós/ a perpetuar tudo com o nosso pobre amor/ e toda esta humidade que flui.”

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