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António Cluny 19/01/2021
António Cluny

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Comunicação social e redes sociais: A fronteira invisível

Muitos profissionais dos meios formais de comunicação são já filhos culturais das redes sociais e, demasiadas vezes, carecem, inclusive, eles mesmos, de capacidade crítica suficiente para distinguir uma «narrativa» dos factos que a inspiram.

Durante muitos anos, os cidadãos receberam e suportaram – por motivos vários e através de diferentes meios de comunicação formais – uma informação orientada por diferentes poderes e interesses.

Ainda hoje, é através desses meios de comunicação formal que os poderes e os interesses dominantes – políticos, económicos, sociais e culturais – mais e melhor direcionam a sociedade.

Quando, por via dos novos meios informáticos, plataformas e redes sociais, direta e universalmente utilizáveis, os cidadãos começaram a ter a possibilidade de, por si mesmos, questionarem e refutarem a informação viciada que os meios de comunicação formais lhes forneciam, criaram a ideia de que a verdade lhes seria mais acessível e que podiam ter, na sua revelação, um papel direto e indiscutível.

A raiva acumulada durante anos – diria mesmo séculos –, devido aos embustes de que foram vítimas, alimentou nos cidadãos a ideia de que, por via das novas redes sociais, podiam, finalmente, desmascarar os impostores.

Daí - dessa raiva demasiado tempo contida – germinou muita da agressividade desbragada das mensagens, comentários e intervenções que as redes informais passaram a exprimir diariamente.

A cascata de violência daí resultante é imensa e inunda, hoje, um auditório muito alargado de cidadãos furiosos com os poderes e interesses que sempre os subjugaram e que acreditam estar, desse modo, a afrontar.

Enganam-se, uma vez mais.

A manipulação da verdade que os poderes e interesses dominantes conseguiam fazer - apesar de tudo com algum filtro -, através dos meios de comunicação social formais, passou, também, a ser exercida, agora mais fácil e intensivamente até, por via das novas plataformas de comunicação e redes sociais.

Com alguma – nem muita – subtileza, a inserção de notícias falsas ou opiniões deturpadas junto dos utilizadores de tais redes digitais passou, assim, a ser realizada cuidadosa, intencional e cientificamente pelos mesmos poderes e interesses, que, desse modo, conseguem melhor dirigir - para onde querem - a ira de muitos cidadãos magoados com a vida que lhes deram. 

Na ausência de uma consciência coletiva suficientemente informada e, com frequência crescente, expressada à margem dos movimentos e organizações sociais mais consistentes, é nas redes sociais que muita deceção popular recente e alguma da nova e mais alargada agressividade social se desatou a manifestar.

Face a esse fenómeno, os meios de comunicação formal, em vez de emendarem o rumo, quiseram, antes, acompanhar as redes sociais na velocidade, facilitismo e irresponsabilidade com que estas divulgam factos inexistentes ou deturpados.

A velocidade da informação e a capacidade de escândalo que as redes sociais criaram, e os órgãos de comunicação copiaram e ampliaram, propiciaram, pois, a competição demolidora entre narrativas especulativas e escandalosas e factos reais.

Os factos - a realidade nua - e a sua interpretação assisada, perderam, entretanto, por isso, qualquer relevância pública.

Ou porque, em si, na sua singeleza, despidos de interesse noticioso, ou porque já descoloridos, ou porque, enfim, quando revelados com rigor, aparecerem como totalmente extemporâneos face às atoardas previamente propagadas por tais redes.

Acresce que muitos profissionais dos meios formais de comunicação são já filhos culturais de tais redes e, demasiadas vezes, carecem, inclusive, eles mesmos, de capacidade crítica suficiente para distinguir uma «narrativa» dos factos que a inspiram.

Daí, a importância que em tais meios de comunicação têm, hoje, os comentadores e o valor que se atribuem alguns pivôs, em detrimento evidente do papel dos verdadeiros jornalistas, que, notoriamente, vão rareando em número, qualidade e importância.

São os primeiros que tecem e teatralizam as narrativas.

Os factos passaram, pois, a adornos justificativos, mais ou menos úteis, das narrativas que os órgãos de comunicação formal empolam e transmitem; e essas, sim, são solidamente arquitetadas e, se necessário, inúmeras vezes repetidas até parecerem incontestáveis.

Opinião e factos – vagamente apurados e, quase sempre, mal tratados - confundem-se, portanto, criando uma ilusão de verdade, de preferência propositadamente escandalosa e provocadora, mas raramente objetiva e rigorosa.

Em vez de um maior cuidado na recolha de factos relevantes e numa sua análise crítica – muitas vezes dependente do saber científico, filosófico, jurídico e artístico, que não procuram – demasiados órgãos de comunicação formal agem, hoje, frequentemente, como as piores redes sociais.

São, por isso, eles também, manipulados e, pior ainda, mais manipuladores.

A raiva difundida pelas redes sociais e, agora, amplificada em cadeia pelos órgãos de comunicação tradicionais – umas vezes por via de jornalistas coniventes, mal preparados e submissos, a maior parte delas através de pivôs e comentadores comprometidos com  as causas sobre que dissertam – estão, deste modo, a criar uma erosão incontrolável na comunicação formal e na credibilidade dos regimes democráticos.

E, contudo, estes não sobrevivem sem uma ampla liberdade de expressão e comunicação.

Talvez fosse altura, como alvitraram recentemente Pacheco Pereira e Lobo Xavier, de promover um debate sério e muito amplo – e, sobretudo, não corporativo - sobre o papel dos órgãos de comunicação formal no fomento do populismo.

  

 

 

 

  

 

 

 


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