4/3/21
 
 
Afonso de Melo 19/01/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Um brilho no silêncio

VOLTEI À MINHA PRISÃO DE PÁSSAROS. Dou-lhes o pequeno-almoço antes de começar na minha tarefa de escrever, de escrever sempre, esta condenação de Sísifo empurrando a pedra passou para mim que empurro, montanha acima, um infinito de palavras que só terá fim no momento do meu fim. Há pardais que me vêm comer à mão. Acho que os cativei. Nem que tenha sido pelo estômago, à base de arroz carolino. Um dia qualquer ouvirei um deles perguntar-me: “O que significa cativar?” E tomarei o papel da raposa do Pequeno Príncipe para explicar: “Para mim, não passas, por enquanto, de um passarinho igual em tudo a cem mil passarinhos. Eu não preciso de ti. E tu não precisas de mim. Mas se me cativares precisaremos um do outro”. Era mais ou menos assim, não era? Confesso que desbobinei de cor. Recordo-me tão bem do dia em que passaste a ser única para mim. Tu, especialmente, por entre milhares de passarinhos. O telemóvel toca, entre chamadas e mensagens. São dezenas de amigos/irmãos que me falam neste dia que se repete, ano após ano, fazendo-me mais velho, mais descrente, mas sempre com uma vontade enorme de viver, de ler, de encher colunas de jornais e páginas de livros, de conviver com aqueles que souberam cativar-me e, por isso, são únicos, cada um à sua maneira.

Ordens superiores de deuses de fancaria mandam-nos ficar em casa. E já não há ninguém que resista nem ninguém que diga não, pois não, ti’ Manel? Caminhamos lentamente, arrastando os pés na areia da solidão. Sinto um nó cego na alma, impossível de desatar. O mundo mudou tanto nas últimas quatro décadas que, como gosto de repetir, sinto as horas decorrerem devagar ao mesmo tempo que sinto que os anos passam a correr. E pelo meio desta dicotomia sobram os minutos que escorrem nas ampulhetas. Sento-me numa duna. Não ouço nada; não vejo nada. E, todavia, qualquer coisa brilha em silêncio...

 


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