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Charles Miller. O homem do bigode que expulsou os bois do capinzal

Charles Miller. O homem do bigode que expulsou os bois do capinzal

Afonso de Melo 19/01/2021 08:43

Vindo de Inglaterra, desembarcou no porto de Santos em 1894 com uma bola e um livro de regras. O futebol chegava ao Brasil para se tornar uma religião.

Se o Brasil é o país do futebol, Charles William Miller é o pai do futebol no Brasil. Como era comum na época (nasceu no dia 24 de novembro de 1874), John d’Silva Miller, um escocês de nome bem aportuguesado e não por acaso seu pai, veio da Escócia para ajudar na implantação da linha de caminhos-de-ferro no Brasil, instalando-se em São Paulo como empregado da São Paulo Railway Company. A mãe de Charles, Carlota Antunes Fox, era brasileira de ascendência inglesa. Imagina-se, portanto, a forte mistura de sangues que corria pelas veias e artérias de um rapazinho inquieto que foi enviado para estudar em Inglaterra sob os mais firmes preceitos britânicos. E foi como aluno da Bannister Court School que se tornou um ávido jogador de futebol, nunca perdendo a oportunidade de, graças ao seu feitio dinamizador, organizar pelejas entre amigos e colegas. Não tardaria a experimentar o futebol profissional no St. Mary’s Football Club, uma agremiação que viria a dar lugar ao Southampton em 1897. Com apenas 17 anos, Charles dava nas vistas. Era um driblador exímio e tinha uma apetência especial para fazer passes com o calcanhar, de tal forma que mais tarde, no Brasil, o toque de calcanhar ganhou o epíteto de “dar de Charles”.

Em Inglaterra, onde jogou em todas as equipas que lhe abriram as portas, a começar pela do seu colégio, obviamente – batendo o recorde de 45 golos em 34 jogos –, até ao St. Mary’s e à seleção do Hampshire, também ganhou o gosto pelo râguebi e pelo críquete, fazendo parte do famoso Marylebone Cricket Club. Foram tempos de intensa felicidade para o jovem Charles. Mas a fama ainda ia ter de esperar.

A bola Terminados os estudos, Charles Miller regressou ao Brasil, onde desembarcou no porto de Santos em novembro de 1894, acabado de fazer 20 anos, exibindo orgulhosamente um longo e negro bigode de pontas reviradas para cima. Trazia consigo umas bolas de futebol, um par de chuteiras e um livro com as regras do jogo. Não sabia ainda, mas esses objetos banais em Inglaterra iriam alterar para sempre a idiossincrasia do povo brasileiro.

No dia 13 de abril de 1895, Charles organizou o primeiro jogo de futebol em território brasileiro. Jogo a sério, com referee e tudo e tudo. “Numa tarde fria de outono, reuni os amigos e desafiei-os a disputar uma partida de futebol. Eu tinha uma bola: só precisava de enchê-la”, contou mais tarde à revista Cruzeiro. A disputa teve lugar na Várzea do Carmo, região do Brás, em São Paulo. O prazer pelo toque na bola invadiu a alma dos brasileiros com a facilidade com que o fogo se espalha num campo de milho seco. Pouco depois, já não se tratava apenas de um jogo a brincar entre 22 companheiros de farra. Miller ganhara em Inglaterra tiques de preciosismo. Queria um confronto que fizesse faísca. Ou, neste caso, faúlha, já que montou dois clubes rivais: o The Gas Work Team e o São Paulo Railway Team. “O principal obstáculo era encontrar um campo digno para jogarmos. Descobrimos um capinzal abandonado na Viação Paulista e tratámos de capinar o terreno rapidamente. O mais difícil foi afastar de lá as manadas de bois que estavam felizes com aquele pasto. O Railway ganhou por 4-2 e ficou desde logo combinada uma desforra”.

Charles William Miller consagrou o resto da sua vida à tentativa de implantar o futebol como desporto nacional, e não restam dúvidas de que o conseguiu.

Sete anos depois daquela pelada de estreia entre malta da exploração do gás e ferroviários, quase todos eles ingleses, Miller embrenhava-se na constituição da Liga Paulista de Futebol e tornava-se dirigente e jogador do recém-fundado São Paulo Athletic Club. Com a categoria do seu futebol, Miller desequilibrava jogos. Com toda a naturalidade, o clube do craque ganhou os três primeiros campeonatos paulistas de futebol, em 1902, 1903 e 1904. Depois pendurou as chuteiras e dedicou-se a ser árbitro. Ainda era um tempo em que o povo não lhes insultava as mães.

 

 

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