2/3/21
 
 
José Cabrita Saraiva 19/01/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

O "milagre" de uns seria o infortúnio de todos

Cada vez parece mais evidente que, no caos que vivemos – com os médicos a pedirem um confinamento total e rigoroso –, a insistência na realização das eleições na data prevista é um erro de consequências imprevisíveis. 

No ensaio geral para as presidenciais do próximo domingo houve coisas que claramente não correram bem. Na Cidade Universitária viveram-se momentos de tensão, como a edição do i de ontem relatou, e pelo menos em Cascais e Almada registaram-se filas intermináveis que seguramente desencorajaram alguns eleitores menos adeptos do masoquismo. Nas circunstâncias que se vivem, outra coisa não seria de esperar. Cada vez parece mais evidente que, no caos que vivemos – com os médicos a pedirem um confinamento total e rigoroso –, a insistência na realização das eleições na data prevista é um erro de consequências imprevisíveis. Os hospitais estão a abarrotar de doentes e há o risco de multiplicar o contágio quando as pessoas forem votar? Sim, mas o ato eleitoral realiza-se na mesma. O comércio está fechado para se estancar o aumento de casos? Está, mas as urnas não – vota-se na mesma. Há pessoas em confinamento preventivo que não podem sair para exercer o seu direito de voto? Há, mas pouco importa – as eleições realizam-se na mesma. Há pessoas saudáveis que até gostariam de votar mas por receio de irem para as filas ficam em casa? Não interessa – votam as outras. Só uma mistura de legalismo excessivo, teimosia e falta de elasticidade (para não falar de uma certa miopia) pode explicar que a votação não tenha sido adiada, sendo certo que o mais prejudicado é Marcelo Rebelo de Sousa. Uma votação que estava à partida mais do que decidida tornou-se entretanto vagamente incerta, uma vez que níveis de abstenção provavelmente nunca vistos irão distorcer os resultados, podendo trazer alguma surpresa. Os candidatos que lutam pelo segundo lugar devem estar à espera de um milagre. Só que, para os eleitores e para o país, não seria milagre nenhum. Teríamos uma medida do quão disparatado foi manter esta eleição se, para ajudar à confusão, o Presidente mais popular e mais próximo de sempre não fosse reeleito à primeira. 


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×