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"Os médicos já estão a fazer medicina de catástrofe"

"Os médicos já estão a fazer medicina de catástrofe"

Patrícia de Melo Moreira/AFP Marta F. Reis 19/01/2021 08:18

Ordem dos Médicos defendeu esta segunda-feira um confinamento igual ao de março para travar aumento de casos. Miguel Guimarães mantém apelo e alerta que situação vai agravar-se nos hospitais.

A Ordem dos Médicos contesta a opção do Governo por um confinamento menos restritivo perante a pandemia em níveis sem precedentes que se vive no país e alerta que a situação nos hospitais, já “complexa”, vai agravar-se. Conhecida a reavaliação das medidas no Conselho de Ministros desta segunda-feira, o bastonário dos médicos mantém o repto feito durante a manhã pela ordem de que é necessário um confinamento igual ao de março para travar a progressão da pandemia e diz não compreender a opção quando o próprio Executivo reconhece a gravidade da situação. “Fiquei espantado ao ouvir o primeiro-ministro. Disse que é uma situação complexa, a mais grave de sempre, e aplica-se um confinamento menos restritivo. É uma situação de emergência de saúde pública ou não é? É, em Portugal e em todo o mundo. E aplicam-se medidas menos restritivas do que em março, quando havia muito menos casos e pressão nos hospitais? Neste momento é a única recomendação que podemos fazer e mesmo em relação às escolas poderia haver uma estratificação por idades. A economia não vai funcionar na mesma. Quanto maior o confinamento, mais rápido seria o travão nos casos. Assim vai demorar mais tempo”.

Cenário de catástrofe Durante a manhã, em comunicado, a Ordem dos Médicos fez um conjunto de recomendações ao Governo – além do agravamento das restrições, o aumento da testagem – e reconheceu que, atualmente, os profissionais estão já a trabalhar em contexto de medicina de catástrofe, sem conseguir “salvar” todos os doentes. Miguel Guimarães sublinha que esse é o cenário: “O relato que chega à ordem é de profissionais numa situação dramática, sem conseguirem observar devidamente todos os doentes à espera em ambulâncias, sem espaço nos serviços de urgência, e numa situação de medicina de catástrofe em que é preciso gerir meticulosamente cada doente”. Guimarães acrescenta que, neste momento, os relatos que suscitam maior preocupação prendem-se com a disponibilidade de cuidados intensivos que, mesmo com os hospitais a expandirem capacidades, “não são elásticos”. E invoca a descrição feita publicamente pelo médico e deputado do PSD Ricardo Baptista Leite, que este domingo descreveu o turno de sábado no Hospital de Cascais “sem vagas nos cuidados intensivos e a ter de gerir com pinças as poucas vagas de enfermaria”, um “cenário de guerra”, para dizer que são vários os relatos idênticos que têm chegado à ordem. “Os profissionais, médicos e enfermeiros, estão a viver uma situação dramática. Os relatos mais preocupantes são de doentes que agravam o seu estado, precisam de cuidados intensivos e têm de ser transferidos para outros hospitais por não haver vagas. As transferências não são imediatas e, infelizmente, já se está a ter dificuldades nessa gestão. Tenta-se arranjar uma solução alternativa no caso dos doentes menos prioritários, fazer mais ventilação não invasiva, fazer mais oxigénio de alto fluxo, ou então resta conseguir cama com ventilação invasiva noutro hospital”. Para Miguel Guimarães, dez meses depois do início da pandemia, a articulação entre hospitais está mais organizada do que no passado mas continua a haver “falhas”, diz, apontando a não existência de um “mapeamento” da capacidade em tempo real nos hospitais públicos, mas também no setor privado e social, como um dos obstáculos a uma transferência mais ágil dos doentes.

Internamentos sem abrandamento Os internamentos têm estado a aumentar, em média, 5% ao dia e prevê-se um contínuo aumento ao longo das próximas semanas, com o número de doentes a precisar de UCI a poder ultrapassar os 800 até ao final da semana e a atingir-se os mais de 6 mil doentes com covid-19 internados. A expetativa é perceber que o crescimento começa a abrandar, o que nos últimos dias não aconteceu ainda.

A região de Lisboa, mais pressionada pelo aumento de casos de covid-19, tem estado a transferir doentes para o Norte e para o Algarve e também para o setor privado, cancelando progressivamente atividade noutros setores para aumentar a resposta a casos covid. Esta quarta-feira está prevista a abertura de dois hospitais de campanha que vão apoiar o SNS, no Estádio Universitário e em instalações na Cidade do Futebol, na Cruz Quebrada. O i sabe que estão a ser mobilizados profissionais dos agrupamentos de saúde da região de Lisboa.

Há agora outros indicadores de que a pandemia pode estar particularmente disseminada em Lisboa, onde os rastreios epidemiológicos ficaram mais atrasados e estão a ser recuperados com o apoio de 200 militares. Segundo o i apurou, a taxa de positividade de doentes testados para a covid-19 num dos maiores hospitais da região tem rondado os 40%, níveis idênticos ao que aconteceu no Norte do país quando a pandemia ficou menos controlada.

Os hospitais de campanha e retaguarda, como é o caso da base do Alfeite, são destinados a doentes com sintomatologia menos grave, enquanto a pressão dos casos mais graves se mantém nos hospitais centrais. Ontem, ao final do dia, o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, estava com um tempo de espera superior a três horas para doentes urgentes que, segundo a triagem de Manchester, deveriam ser observados em 60 minutos. O portal de monitorização de tempos de espera do Ministério da Saúde mostrava duas horas de espera para doentes muito urgentes neste hospital. Era a situação mais complicada na Grande Lisboa.

 

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