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"É devastador ver médicos forçados a escolher quem são os doentes com maior probabilidade de viver"

"É devastador ver médicos forçados a escolher quem são os doentes com maior probabilidade de viver"

Jornal i 18/01/2021 09:56

Deputado do PSD relata "sofrimento" vivido nos hospitais.

Ricardo Baptista Leite, deputado do PSD e médico, utilizou as redes sociais para partilhar “a dor e o sofrimento” vividos nos hospitais portugueses, nomeadamente no serviço de Urgência do Hospital de Cascais, onde esteve a trabalhar como voluntário no último sábado.

"Estive este sábado mais uma vez como médico voluntário no serviço de urgência do Hospital de Cascais – mais especificamente no chamado ‘Covidário’ que dá resposta aos doentes e suspeitos covid-19. Nunca vi tantas pessoas morrerem num só turno de 12 horas. A dor e o sofrimento são indescritíveis. A sensação de impotência por não podermos fazer mais", começou por contar o social-democrata, que destaca depois o cansaço dos profissionais de saúde.

“Vi uma colega médica a chorar depois de sair do covidário mais de 5 horas depois do término do seu turno. Física e psicologicamente esgotada. Cada vez que se estabiliza um doente, havia já mais 3 ou 4 doentes instáveis a entrar pela porta dentro. Vi uma enfermeira praticamente a não conseguir respirar ao tirar o fato de proteção depois de horas infindáveis junto dos doentes. Perguntei-lhe se estava bem e ela limitou-se a acenar com a cabeça enquanto olhava para mim com olhos encarnados antes de simplesmente ficar a olhar para o chão. O silêncio é o nosso companheiro na dor. O peso da ausência de palavras. Tantos doentes a descompensar com quadros de insuficiência respiratória grave. Sem vagas nos cuidados intensivos e a ter de gerir com pinças as poucas vagas de enfermaria, ventilamos os doentes ali, em pleno serviço de urgência. Alguns doentes com ventilações invasivas… Um cenário de guerra”, relata.

Ricardo Baptista Leite explica que os profissionais de saúde começam agora a assumir “prioridades”, uma vez que não se conseguem acompanhar todos os doentes.

“Os doentes menos graves que aguardam pelo teste covid assistem em direto a muito disto… o espaço é demasiado pequeno para tantas dezenas de doentes. E a cada hora chegam mais doentes. É preciso estabelecer prioridades. O cenário é de catástrofe e exige comando e controlo. Temos tantos doentes graves na casa dos 40, 50 e 60, muitos sem outras doenças, que simplesmente não podem morrer. Não podem! Assumem-se por isso prioridades. Não se conseguem acompanhar todos os doentes a todo o tempo. Um doente de cada vez. Fazem-se escolhas tão difíceis sobre quem tem maior probabilidade de morrer, faça-se o que se fizer. É devastador ver equipas de médicos forçados escolher quem são os doentes com maior probabilidade de viver para os poder assumir como prioritários. Estamos em pleno campo de batalha no qual as emoções têm de ficar de lado… mas na realidade ficam apenas recalcadas”, acrescenta.

“Chora-se quando se chega finalmente ao carro no final do turno, ou a casa. Ali no covidário o foco é necessário e absoluto. Assisti a uma colega médica que esteve durante mais de uma hora a ligar para familiares de doentes que estavam sob a sua responsabilidade e que acabaram por falecer num espaço tão curto de tempo, apesar de todos os esforços. Ouvimos a frustração e os choros dos filhos e netos. Compreende-se a dor pela impossibilidade de dizerem adeus… por terem visto o pai, a mãe, a avó ou o avô, pela última vez quando entraram na ambulância ou pela porta do hospital poucas horas antes. Gritam frustrados pela fatalidade do destino e pelo sentimento de lhes terem sido roubados anos de convivência com quem mais amam, ainda para mais por razões que pouco compreendem. Por causa de um vírus. Uma pandemia… uma maldita pandemia”, desabafa.

“O cenário é de guerra e estamos a perder. Está na hora de dizer basta”, considera o deputado e médico, defendendo que há "cinco coisas" que teremos de fazer de "imediato" perante a gravidade da situação epidemiológica da covid-19 em Portugal.

O social-democrata diz que o país não pode esperar “15 dias” e que é necessário “mudar de imediato as medidas governamentais e determinar um confinamento ‘absoluto’ durante 3 semanas para depois ser reavaliado”, incluindo o fecho das escolas, mobilizar todos os meios de saúde disponíveis no país para as próximas semanas, “comunicar de forma clara, transparente e diária com o país sobre a gravidade da situação e sobre o que se espera de cada cidadão”, preparar “desde já o momento em que se levantarão as medidas restritivas de modo a evitar um novo aumento de casos e futuros confinamentos” e “usar o facto de Portugal ter a presidência do conselho da União Europeia para exigir uma renegociação das vacinas COVID-19 de modo a acelerar o ritmo de vacinação. Temos de vacinar 80% da população até junho 2021”.

“A frustração destas semanas tem de ser substituída por ação determinada para acabar com esta pandemia. Este mês pode estar perdido, mas ainda vamos a tempo de salvar o resto do ano. Ainda vamos a tempo de salvar vidas. Façamos tudo o que está ao nosso alcance. Faça tudo o que puder. Se não por si, por aqueles que mais ama”, remata.

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