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George Orwell e a maré-cheia

George Orwell e a maré-cheia

Carlos Fiolhais 14/01/2021 15:32

Estudou nas melhores escolas, conheceu a miséria em Londres e em Paris, viveu com mineiros, foi ferido na Catalunha. A vida de Orwell foi tão rica como a sua obra. Os 70 anos da morte do autor propiciaram uma quantidade de reedições dos seus clássicos.

Tenho em mãos dois dos livros mais badalados do século XX: Quinta dos Animais e 1984, os dois do inglês George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair (1903-1950). O primeiro foi publicado em 1945, quase em simultâneo com o fim da Segunda Guerra Mundial, e o segundo em 1949, já no pós-guerra (ou, no início da “guerra-fria”, expressão cunhada por Orwell). As edições que folheio são da prestigiada colecção “Dois Mundos” da Livros do Brasil, que publicou autores como Steinbeck, Hemingway, Woolf, Camus e Faulkner. O primeiro, com prefácio do ex-presidente da República Jorge Sampaio, tem tradução de Adriana Veleda, e o segundo de Geraldo Quintas. 

Os dois romances são alegorias que retratam sociedades totalitárias. O primeiro, no qual os animais falam como nas fábulas, é uma crítica ao estalinismo, que Orwell, um socialista (combateu os fascistas na Guerra Civil Espanhola), foi dos primeiros a denunciar. O segundo é uma crítica aos processos de vigilância das massas e de propaganda desbragada. Nessa distopia o controlo é exercido pelo “Grande Irmão” (Big Brother; o nome do reality show vem daí), um personagem parecido com Hitler, que impõe a “nova fala” e slogans mentirosos como “2+2=5” e “A guerra é a paz”. 

A escrita de Orwell prende o leitor. Quinta dos Animais começa assim: “O Sr. Jones, da Quinta do Solar, fechou os galinheiros, mas estava já demasiado bêbedo para se lembrar de fechar as portinholas. Com o halo de luz da sua lanterna a cambalear de um lado para o outro, atravessou vacilante o quintal, descalçou as botas na porta das traseiras, serviu-se de um último copo e cerveja do barril na copa e subiu para o quarto, onde a senhora Jones já ressonava”. Mal podia imaginar que ia haver uma reunião de animais, comandados por Major, um velho porco, que juntou cães, galinhas, pombos, ovelhas, vacas, cavalos, uma cabra e um burro. O Major, que morreria em breve, deixando o lugar a dois porcos rivais, Snowball e Napoleon. Acabará por ganhar este, que, dominando os outros animais, invadirá com outros porcos a casa dos humanos. Os sete mandamentos do animalismo eram: “1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo. 2. Qualquer coisa que ande sobre quatro patas, ou tenha asas, é amigo. 3. Nenhum animal usará roupas. 4. Nenhum animal dormirá em cama. 5. Nenhum animal beberá álcool. 6. Nenhum animal matará outro animal. 7. Todos os animais são iguais.” Alguns deles foram modificados, com o triunfo de Napoleon, passando o último a ser “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros.” Não podemos deixar de reconhecer o poder antecipatório de Orwell, ao apontar a ascensão de uma nomenklatura privilegiada no regime soviético.

Estas não são as duas únicas edições recentes destes clássicos modernos. Em 2020 passaram 70 anos desde a morte de George Orwell (aos 46 anos, de tuberculose). De acordo com os preceitos legais, cessa a protecção de direitos de autor a partir do início do ano seguinte, isto é, os direitos podem ser usados livremente por qualquer editor. Há, por assim dizer, uma maré-cheia de Orwell. A Porto Editora publicou duas outras edições (lembro que a Livros do Brasil pertence ao mesmo grupo), pensando num público mais jovem: as traduções são as mesmas, mas as imagens de capa foram concebidas por nomes famosos da arte urbana nacional: a Quinta dos Animais (nesta edição acrescenta-se o título alternativo: O Triunfo dos Porcos) por Vhils e o 1984 por GonçaloMAR. Mas há outras edições nos escaparates: a Cultura Editora publicou O Triunfo dos Porcos (de capa dura) e a Bertrand publicou o mesmo título, indo lançar em breve 1984. A Clube de Autor publicou agora uma edição de 1984, após no ano passado se ter envolvido numa polémica com a Antígona relativa aos direitos do livro. A Cavalo de Ferro publicará em breve uma versão de Quinta dos Animais com mais de cem ilustrações a cores de Ralph Steadman, caricaturista britânico, e com prefácios históricos de Orwell. Por falar em edições ilustradas, os dois romances têm versões em banda desenhada: saiu há meses 1984, do brasileiro Fido Nesti (Alfaguara, 2020), e há muito O Triunfo dos Porcos, dos franceses Jean Giraud e Marc Bati (Meribérica/Liber, 1986).

Orwell escreveu quatro outros romances, além dos dois aqui referidos, que são não só os últimos como os mais famosos. Estão também publicados entre nós, por ordem de aparecimento, A Filha do Pároco (Livros do Brasil, 1989) e O Vil Metal (Livros do Brasil, 1990) e Dias Birmaneses (Relógio d’Água, 2016). 

Muitos dos livros de Orwell estão no catálogo da editora Antígona, autodesignada por “Editores Refractários”: as suas últimas edições de Quinta dos Animais e de 1984 são, respectivamente, de 2020 e de 2015. Essa editora, que fez 40 anos em 2019 (“40 anos com a língua de fora”), tem divulgado as obras de autores subversivos. De Orwell publicou vários livros de cunho auto-biográfico, que nomeio por ordem de publicação entre nós: Recordando a Guerra Espanhola (1984), Na Penúria em Paris e Londres (1985), O Caminho para Wigan Pier (2003), Homenagem à Catalunha (2007), Por que Escrevo e Outros Ensaios (2008) e Livros & Cigarros (2010). São todos muito bons, mas a quem não conheça o autor recomendo Por que Escrevo e Outros Ensaios, introduzido e traduzido por Desidério Murcho. Por que escreve Orwell? Por “puro egoísmo, entusiasmo estético, impulso histórico, o propósito político”. Ou, noutro passo: “Escrevo porque há uma mentira que quero denunciar, um facto qualquer para o qual quero chamar a atenção”. No texto “A política e a língua inglesa” (1946) o leitor pode aprender regras básicas da escrita: por exemplo, “Nunca use uma metáfora, símile ou outra figura de estilo que esteja habituado a ler” e “Se for possível cortar uma palavra, corte-a sempre.” Este e outros textos mostram que a clareza e brevidade são as suas linhas mestras da sua bela escrita. Um exemplo de economia da escrita encontra-se no final de “O enforcamento” (1931), que descreve uma execução na Birmânia: “Todos juntos, nativos e europeus, bebemos muito amigavelmente. O morto estava a trinta metros de distância.” Outro exemplo está no início de “O leão e o unicórnio” (1941): “Enquanto escrevo, seres humanos civilizadíssimos sobrevoam-me, tentando matar-me.” O leitor, chegado aqui, já terá percebido que Orwell está na galeria dos meus escritores preferidos.

Outras editoras publicaram ensaios e diários de Orwell. Destaco Ensaios Escolhidos (Relógio d’Água, 2016), onde escolho o texto “O que é a ciência” (1945), em que fala dos limites da ciência. Orwell, que foi um entusiasta de H. G. Wells na juventude, embrenhou-se nos tempos da guerra numa polémica com ele, precisamente sobre essa questão. Para Orwell interessava mais “hábitos mentais de tipo racional, céptico e experimental” do que saber os factos da ciência. Li também páginas dos seus Diários (Dom Quixote, 2014). Está a sair uma nova edição de Ensaios (Edições 70), com organização, introdução e tradução de Jacinta Maria Matos, professora da Universidade de Coimbra que já escreveu um livro sobre Orwell (George Orwell. Biografia Intelectual de um Indesejado, Edições 70, 2018), que aguardo com interesse. 

Quando é que foram publicadas entre nós as edições originais? Não demoraram muito a sair durante o Estado Novo: O Porco Triunfante, com tradução do almirante Alberto Aprá (Livraria Popular de Francisco Franco, 1946) e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (Ulisseia, 1955), com tradução de Paulo de Santa-Rita e prefácio de Álvaro Ribeiro. Passada a Revolução de Abril ressurgiu o interesse por Orwell: No rescaldo do Verão quente de 1975 saiu O Triunfo dos Porcos (Perspetivas e Realidades, 1976) e, em 1984 (já passaram 36 anos…), saiu Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (Moraes, 1984), com tradução de José Pacheco Pereira.

A vida de Orwell foi uma aventura. Nasceu na Índia, onde o seu pai era funcionário. Mas ao fim de um ano e pouco, já estava na Grã Bretanha. Frequentou dois colégios de elite, o Wellington e o Eton (graças a bolsas, pois os seus pais não eram ricos; em Eton foi aluno de Aldous Huxley), mas não prosseguiu estudos superiores. Alistou-se como polícia na Birmânia, onde tinha raízes familiares. A cena do enforcamento data desse período. Ao fim de cinco anos regressou à Europa, pensando o pior do colonialismo. Enveredou por uma carreira jornalística no meio de mil e uma dificuldades. Conheceu a miséria em Londres e em Paris. Viveu com mineiros do norte de Inglaterra, entranhando a sua revolta contra as injustiças sociais. Foi ferido na Catalunha, onde combateu num grupo trotskista que haveria de ser perseguido pelos comunistas. Viu a sua casa ser destruída por um bombardeamento aéreo. No pós-guerra foi correspondente do Observer na França e na Alemanha. Andou por sanatórios para tuberculosos. Casou duas vezes, a última três meses antes de morrer.

Os seus autores de eleição foram, entre os antigos, Shakespeare, Swift e Dickens e, entre os modernos, Joyce, Elliott, Lawrence, Maughan, London e Koestler. Escreveu muito porque leu muito: em Cigarros & Livros demonstra matematicamente como é bem mais barato ler do que fumar (ele era um fumador inveterado). Espero bem que as novas edições de Orwell sirvam para que encontre novos leitores.

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