28/1/21
 
 
Carlos Gouveia Martins 14/01/2021
Carlos Gouveia Martins

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Confinamento "sem rebuço nem vergonha" ou talvez não

Estamos há dez meses nesta situação de “mordaça” e em limites extremos de ação do SNS, mas nestes meses todos, também por capricho ideológico, a esquerda não permitiu a construção de uma cooperação evidente entre o setor social e o setor privado com o público na saúde.

Entramos amanhã em novo período de confinamento obrigatório em Portugal, depois de Março de 2020 iremos repetir a fórmula em Janeiro de 2021. Porém, e ao contrário do que alguns dizem, políticos na sua maioria, a pandemia e a própria doença COVID-19 já não são tão desconhecidos como eram quando o Mundo se deparou perante este novo coronavírus em finais de 2019. Estamos há mais de um ano perante este vírus SARS Cov-2. Já o isolamos geneticamente, já identificámos novas variantes e até já vivemos com diversas vacinas aprovadas na Europa, na América e no Mundo. Há bons casos, inclusive, como Israel, em que o trabalho de vacinação em busca da imunidade de grupo demonstram um meritório empenho e decorrem com números muito bons. Por isso não, não estamos perante algo desconhecido. Estamos perante um vírus que naturalmente ainda tem factores que a ciência continuará a estudar e a descobrir mas a sociedade já não está desconhecida perante a situação pandémica que o vírus trouxe.

O primeiro-ministro António Costa, no primeiro momento de confinamento em Março e Abril de 2020, dizia e bem, como agora acontece, que “sem rebuço nem vergonha poderei voltar atrás” quando começou informar que os portugueses podiam desconfinar. Na altura, vai fazer um ano, foram romarias políticas a restaurantes e arruadas de máscara sempre com as câmeras televisivas por perto. Nessa mesma altura, aqui já razoavelmente mal, o mesmo primeiro-ministro dizia (aliás, reproduziu várias vezes essa ideia) que Portugal nunca mais teria condições de se confinar novamente. Falhou. Foi o discurso político que, na altura, venceu a clareza do que lhe era transmitido por epidemiologistas e médicos de saúde pública. O facilitismo de vender mensagens positivas aos eleitores e a setores que se queixavam foi maior que dura verdade de transmitir a realidade cinzenta aos portugueses. Agora, um ano após esse momento, voltaremos a fechar o país. 

Mas, agora, há coisas que mudaram.

Primeiro, segundo palavras dos profissionais de saúde e da tutela, mas sobretudo olhando aos números, sabemos que o SNS atingiu o limite. A ministra da saúde disse publicamente e escreveu oficialmente em despacho que todos os recursos do SNS serão alocados à pandemia. Igualmente, disse Marta Temido, só se irão realizar cirurgias urgentes, o resto pára. Infelizmente, até pelos milhões de “simples” consultas que Portugal e o SNS acumularam em 2020, sabemos bem que a doença (não COVID-19) não pára e continua a matar portugueses. Estamos há dez meses nesta situação de “mordaça” e em limites extremos de ação do SNS, mas nestes meses todos, também por capricho ideológico, a esquerda não permitiu a construção de uma cooperação evidente entre o setor social e o setor privado com o público na saúde. Ficará na memória a ténue justificação de “fica caro tratar no privado”, disse a ministra e governantes portugueses, mas ficará na vida de muitos o custo eterno e maior que isso teve e tem nas suas vidas. 

Sobre tempo a mais e solução a menos fica ainda outro caso, para além dos números enormes de novos casos diários e mortes provocadas pela doença COVID-19: Em novembro de 2020, 81,4% dos casos de contágio tinham origem desconhecida. Agora, em janeiro de 2021, surpreende que este péssimo indicador tenha subido ainda mais. São 87%, segundo informação no INFARMED e com a DGS em reunião realizada esta semana, o número de casos em que se desconhece a cadeia de transmissão. Há dez meses que se fala da importância crucial deste trabalho, mas estamos todos a falhar. Não há como perceber. Porventura, alguns, precisarão de mais tempo confinados para pensar em como devem ouvir os especialistas e cumprir o que tem de ser feito em qualquer surto, epidemia ou pandemia: controlar as cadeias de transmissão.

O confinamento deste mês de janeiro de 2021, que mantém creches, escolas e universidades abertas, na presunção de que as crianças e adolescentes são responsáveis, é o mesmo que proíbe espetáculos culturais e mantém cerimónias religiosas (num Estado laico) com permissão para se realizarem. Sendo justos, e mantendo a minha mesma fé que numa opinião não é afetada ou minimizada, são formatos idênticos: Uma plateia e um palco com orador e oradores. Fé, que muito respeito, à parte, a circunstância é tão só esta.

Não digo com isto que não se devesse ter a realização de cerimónias religiosas, pelo contrário afirmo que há condições de idêntica realização de espetáculos culturais. Ponto. São mais de dez meses de estudo e cumprimento de medidas de distanciamento, higiene e restrição. Há critérios que se mantêm incoerentes.

Também este confinamento de 2021 assusta mais nos números que o primeiro confinamento de 2020. Se em Março e Abril de 2020 o PIB português decresceu 16%, agora a 14 de dezembro de 2020 o Banco de Portugal, pela mão do ex-ministro Mário Centeno, através do seu boletim económico, de forma optimista afirmava que o crescimento previsto do PIB de 3,9% passaria para 1,3%. Àquela data, o Banco de Portugal desconhecia que iríamos confinar novamente. Mesmo assim, neste cenário severo havia já o decréscimo de um terço do expectável. Ficamos com essa expectativa mas também com a certeza de que a riqueza criada pelos portugueses no final desta legislatura, em 2023, será menor ainda do que a que existia em 2019.

Vivemos ainda longe da imunidade de grupo que poderá garantir alguma certeza de desconfinar de um país e, esperamos, princípio da retoma económica portuguesa. Vivemos também na certeza dos estragos que a pandemia trouxe à economia e às famílias portuguesas. 

Porém, quase tão mau quanto estes dois pontos (subtraindo a questão humana, claro), vivemos num país que um ano depois continua a actuar como se tudo fosse novo e como se a COVID-19 tivesse chegado ontem às nossas vidas. Vivemos com remendos de medidas que favorecem o momento, como as escolas se manterem abertas e com aulas presenciais quando, porventura, esta decisão contrário ao dito por especialistas epidemiológicos no INFARMED venha talvez apenas omitir a falha clamorosa do Governo de António Costa na prometida entrega de computadores a todos os alunos do ensino obrigatório para que pudessem (em caso de novo isolamento) ter acesso e qualidade de ensino à distância e igualdade de oportunidades. A propagação do vírus seria menor com esse isolamento dos alunos em caso do que com escolas abertas, disse o responsável de saúde pública há três dias em direto nas televisões nacionais. Há ainda a ausência de resposta à cultura e à restauração, que ficam marcados na memória com confinamentos à hora marcada porque o vírus surge sempre após as 13:01 (claro que é ironia). Vivemos sem adaptação e com pouca ação. Sofreremos mais do que já iríamos sofre em condições pandémicas “normais”, não duvidemos disso. 

Não saberemos se é sem rebuço e vergonha, e sabemos que ninguém no Mundo estaria preparado para reagir a pronto a uma pandemia destas. Mas, sejamos justos, sabemos que passados tantos meses é com pouca clareza no que aí vem que ainda estamos. 

Não saberemos se era evitável este confinamento mas sabemos que será muito penoso o que aí vem.


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