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Eleger um Presidente ou um líder para a oposição?

Eleger um Presidente ou um líder para a oposição?

Manuel Portugal Lage 14/01/2021 10:07

Do próximo ato eleitoral em diante, Portugal corre um sério risco: deixar de ter um Presidente. É grande a tentação de Marcelo de vir a assumir o papel de líder da oposição.

A eleição presidencial do próximo dia 24 de janeiro é importante sob vários pontos de vista e marcará o início de um novo ciclo na vida política nacional.

Atenhamo-nos aos candidatos que, de acordo com os estudos de opinião mais recentes, se encontram mais bem colocados. São eles Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa.

Votar em Ana Gomes terá para muitos eleitores uma inegável conotação partidária. Afinal, trata-se de uma destacada militante do PS que exerceu funções em nome do partido.

Mas, mesmo nessas circunstâncias, não deixou de ser das maiores críticas do(s) Governo(s) do PS. Nem deixará de o ser, caso seja eleita.

A candidata parece assim, paradoxalmente, agradar a dois tipos de eleitorado: por um lado, àqueles que simpatizam com o PS e, por outro, àqueles que gostariam de ver um Presidente a fazer do atual Governo o bombo da festa.

Sobre Ana Gomes tem sido também dito que é relevante que obtenha uma votação expressiva, isso para que o populista André Ventura tenha uma menor votação e cumpra a sua palavra de se demitir da liderança do seu partido.

Por muito “tonto” ou “sonso” que pareça Ventura, é quase certo que irá cumprir a sua palavra. Para que, de seguida, como bom populista que é, volte a candidatar-se à presidência do seu partido, ficando tudo na mesma.

Assim, aqueles que votarem na socialista para afastar o populista fazem-no em vão. O chamado voto útil perderá, quanto a este objetivo, qualquer utilidade.

Resta-nos, portanto, Marcelo. O prof. Marcelo.

Quanto ao professor, há que primeiramente demarcar o óbvio: estamos perante um candidato de direita. Assumida e orgulhosamente de direita.

Este óbvio é extremamente relevante. Porque, apesar de ser de direita, fez com que o PS não tenha declarado apoio a nenhum candidato às eleições presidenciais de 2021.

Tal poderá vir a ser uma boa opção por vários motivos, para além dos já conhecidos e anunciados pela direção do partido: o PS evita assim reconhecer a dificuldade de vencer um ato eleitoral contra um Presidente que se recandidata a um segundo termo (e que colaborou nos aspetos essenciais da governação); apesar de se tratar de uma eleição de caráter pessoal, o PS afasta a possibilidade de perder as eleições presidenciais pela quarta vez consecutiva.

É, assim, um candidato que serve exemplarmente a estratégia de vários dirigentes socialistas. Uma vez mais, muitos verão aqui o chamado voto útil, restando saber se terá a utilidade que lhe vaticinam.

Sobre Marcelo e o seu próximo mandato recaem duas grandes tentações, se assim lhes podemos chamar. A primeira é que um Presidente em segundo mandato exerça a sua magistratura de influência de um modo mais ativo ou que estabeleça, como lhe chamou Cavaco, uma “força de bloqueio”.

A segunda é que, pelo andar da carruagem, continue a verificar-se uma total ausência de oposição responsável, por manifesta falta de comparência da atual liderança do PSD. Assim, Marcelo poderá vir a ter a forte tentação de aproveitar o palanque presidencial para assumir o papel de líder da oposição.

Ora, espera-se de Marcelo Rebelo de Sousa que continue a colocar Portugal antes dos interesses político-partidários de alguns. Caso assim o faça, inovará uma vez mais ao conseguir um segundo mandato diferente de todos os Presidentes que o antecederam.

Ao invés de se constituir como uma força de bloqueio, poderá continuar, conjuntamente com o Governo de António Costa, a fazer parte da solução que consiga mais progresso para Portugal. Optar pelo caminho fácil (da tentação quase pecaminosa) de liderar a oposição ao Governo e ao PS, obtendo quiçá bons resultados pessoais, prejudicará fortemente o nosso país.

Enquanto cidadão e líder do grupo municipal do PS na Assembleia Municipal de Lisboa, é um cenário que me preocupa. Não consigo esquecer-me da rábula do sapo e do escorpião. Esperemos para ver as cenas dos próximos capítulos.

 

Advogado

 

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